O Brilho Verde Da Escuridão – Iolandinha Pinheiro

Sentado e de cabeça baixa, já havia respondido à mesma pergunta pela quarta ou quinta vez.  Não adiantava falar que não sabia, ninguém acreditava em mim. Na sala ao lado eu ouvia os gritos do pai dela. Minha mãe chorava e fazia ligações. Eu só queria ir para casa e tentar dormir. Eram tempos estranhos aqueles.

– Vamos lá, Lucas! Conte de novo. Onde vocês dois estavam?

Era uma resposta difícil de dar, porque na última vez que eu a havia visto, Isabel estava alguns metros abaixo da superfície da água e depois simplesmente sumiu. Fiquei aguardando por uns dois minutos enquanto as minhas esperanças se afogavam junto com ela, e gritando o seu nome, mas minha amiga não retornou. Corri para a casa onde morava e avisei ao seu pai. Em pouco tempo ele e outras pessoas mergulhavam no ribeirão e procuravam pelas margens sem encontrar Isabel.

No meio daquela gritaria eu me desligava e só ouvia um zumbido agudo que abafava todas as vozes ao redor. Quando a polícia chegou eu fui levado junto com o pai da menina, e umas outras pessoas foram buscar minha mãe.

Durante o trajeto ia pensando naquele ano incomum e em tudo o que nos levara até aquele exato momento de completa estranheza e solidão.

A vida para nós começou a mudar no primeiro dia do ano. Estava quase completando onze anos de idade, levávamos uma vida absolutamente normal. Meu pai era professor, minha mãe tinha um salão de beleza. Morávamos em uma casa confortável e tínhamos uma rotina perfeita até o dia em que papai não apareceu em casa após o trabalho e tivemos que mudar nossas vidas completamente.

Como se estivessem esperando este evento a qualquer instante, mamãe e a Bá, andavam para um lado e para o outro, colocando coisas em malas e queimando papéis na chama do fogão. Vi quando tiraram o fio do telefone da tomada e me mandaram ficar assistindo tv até ser chamado. A Bá me deu um pacote de biscoito de chocolate com leite. Elas achavam que não, mas eu sabia exatamente o que estava acontecendo e o motivo. Não tinha exato conhecimento dos fatos, mas lembrava que as reuniões que papai participava não eram sobre poesia inglesa, e que o grupo dele era de resistência ao governo.

No dia seguinte saímos como fugitivos, pegando os objetos mais importante e partindo sem avisar aos vizinhos. Mamãe falou que não deveria comentar com ninguém sobre a nossa partida. Não perguntei o motivo. Dormi a maior parte da viagem, estendido no banco de trás do carro. Quando acordei a cidade já havia sumido e a estrada era uma sequência tediosa de árvores e postes se sucedendo.

Afinal, chegamos a um sítio de um amigo dos meus pais. Havia lá uma casinha triste e coberta de poeira, encravada num terreno parcamente arborizado, sem luxo, ou balanços, ou vizinhança alegre para distrair.  No fim da estradinha se via apenas uma outra casa, menor ainda que a nossa. Na frente dela, quebrando a monotonia do branco amarelado das paredes, um jardinzinho caprichosamente cuidado. E nada mais.

Nossos vizinhos tinham uma filha um pouco mais velha que eu, e como éramos as únicas crianças em toda aquela vastidão monótona, logo nos tornamos os melhores amigos. Foi com ela que aprendi a derrubar frutas das árvores usando pedras, onde passava o ônibus para a escola, e os melhores esconderijos para escapar das brincadeiras pesadas dos meninos mais velhos que nós.

Vivíamos o dia a dia criativo da infância sem grana, e éramos felizes naquela ilusão de paraíso.  

Isabel era tudo para mim. Meu alento, minha musa, a minha melhor companhia e, sobretudo, a minha inspiração para fazer as coisas mais insensatas naqueles tempos sombrios da década de setenta.

Estávamos sempre metidos em encrencas. Uma vez peguei a Bá se queixando da Isabel para a mamãe. Falando que ela era má influência. Por causa de uma travessura que fizemos juntos fiquei de castigo e acabei perdendo um passeio organizado pela escola, pelo qual esperávamos há semanas.

Pensei que o dia estava perdido e saí escondido, pelo caminho da vereda, para o ribeirão. Já havia andado uns quinhentos metros quando vi que jogavam em minha direção pedregulhos quase me acertando as pernas. Logo depois ouvi um assobio longo e inconfundível saindo do meio das árvores e um grito me chamando, seguido de uma boa risada.

– Lucas! Espera por mim.  

Era a Isabel com um saco de pedras na mão. Fiquei feliz por ela não ter ido ao passeio. Seguimos juntos até uma margem onde sabíamos que o rio era mais fundo. Nos encostamos numa rocha alta e eu joguei a linha. Meia hora depois, nenhum peixe no embornal, e a Isabel já estava impaciente.

Havia pedido para que não tagarelasse porque iria espantar os peixes.

– Que peixe? Não tem nenhum peixe aí.  Ninguém vem mais pescar aqui porque os peixes sumiram, não sabia?

– Tem sim, acabei de ver um.

– Nem nadando a gente acha peixe aí. Olha só.

Fiz que ia empurrá-la na água segurando seus braços para que não caísse de verdade, mas as minhas mãos suadas a deixaram escapar.  Então vi Isabel caindo na água e descendo para o fundo, como se fosse ao encontro dos peixes que ela dizia não existirem. Sempre ficava aflito quando ela entrava na água, porque eu ainda não sabia nadar.

Quando vi que não voltava comecei a gritar. No começo achei que era brincadeira para que eu me sentisse culpado. Fui andando pela margem, olhando se não estaria escondida pela vegetação da beira. Nada. Fiquei uns instantes sem ação. Meus olhos se encheram de lágrimas. Desejei que meu pai estivesse lá. Larguei tudo e saí correndo. Meu coração cheio de pavor e medo dos pais dela não conseguiam deter os meus passos velozes.

Depois tudo virou um caos. Uma pequena multidão foi até lá para ajudar. Mas, de verdade, a maioria ficou conversando, inventando histórias e criando versões sobre o que havia acontecido lá, a maior parte delas me colocava com culpado pelo sumiço.

Quando os homens cansaram de mergulhar, foram indo embora e fui no carro da polícia com o pai de Isabel e os soldados.

O interrogatório entrou pela noite, e só me liberaram quando meu tio chegou lá com um advogado. Sair da delegacia, finalmente, não me trouxe nenhum alívio. O desaparecimento de Isabel pesava sobre a minha cabeça como uma acusação. Ficava vendo Isabel escapar dos meus dedos repetidamente.

Naquela madrugada eu só consegui cerrar os olhos quando os primeiros raios atravessavam as frestas entre as venezianas da janela.

A escola deu alguns dias de folga, como se fosse um luto sem corpo. Eu ficava cismando, olhando para o caminho vazio enquanto o sol fazia sua trajetória na paisagem. No sétimo dia acordei com vozes altas que vinham da sala. Segui para lá de pijama mesmo. A mãe de Isabel chorava agarrada à minha mãe, mas também sorria. Tive certeza naquele momento que minha amiga havia voltado.

No horário de visitas eu e mamãe pudemos vê-la. Estava pálida e não se movia. Olhamos apenas pelo vidro da porta.  De súbito ela se virou para nós e sorriu. Os olhos estavam completamente vermelhos, assustadores. Senti uma mão tocando no meu ombro e tive um susto. Mas era apenas o médico chegando para avaliar a paciente.

– Vai passar. Não se preocupe. Parece que a água do ribeirão estava contaminada por algum produto. Mandamos para análise.

Não tive mais vontade de fazer visitas no hospital. Esperei até que voltasse para casa. A mãe dela avisou e fomos. Havia um bolo e uma garrafa grande de refrigerante para nos receber. Outras pessoas já haviam estado lá, o bolo estava pela metade e não havia mais café. Relutei um pouco mas fui até o quarto de Isabel. A primeira coisa que senti foi o cheiro. O quarto estava muito limpo, mas, ao fundo conseguia sentir umas notas aromáticas diferentes, um bafio se insinuando entre o perfume de limpeza, desinfetante e o cheiro de jasmim vindo dos lençóis recentemente engomados.

Isabel estava na cama, esperando por nós. Assim que entramos percebi uma espécie de mancha prateada em uma de suas coxas, que ela rapidamente cobriu com um lençol. Os olhos haviam adquirido um brilho esverdeado que lhe dava um ar sobrenatural. Sentei-me numa cadeira, mamãe só fez algumas perguntas e se retirou. Quando ficamos a sós, ela me falou que havia encontrado uma abertura no meio das rochas da outra margem, e que do outro lado era uma gruta com paredes brilhantes.

– E o que você ficou fazendo lá?

Isabel calou-se um pouco e ficou olhando para o bordado do tecido da cortina. Depois de um tempo em que pensei que a conversa já havia terminado, ela se voltou para mim e respondeu sem muita convicção.

– Não lembro…

– Não acredito nisso, Isabel.

– Se eu contasse o que vi, e quem eu vi, você também não acreditaria. – Disse isso e pediu que eu fosse.

Dei a visita por encerrada. Levantei-me, me despedi e saí do quarto procurando pela minha mãe que naquele momento estava fazendo um embrulhinho com um pedaço de bolo que iria levar para a Bá.

Enquanto caminhávamos de volta para casa, minha mãe perguntou se a minha amiga estava bem. Acho que a frustração que eu sentia acabou respondendo por mim.

– Está bem o suficiente para contar mentiras.

Depois daquele dia acabei me afastando um pouco de Isabel, em parte porque ela parecia outra pessoa, e, também, porque me sentia excluído da sua nova vida.

Tudo estava diferente. Isabel havia virado uma espécie de celebridade local. Repórteres vieram fazer uma matéria com ela, e o laudo sobre a água do ribeirão informando que haviam encontrado vestígios de uma substância desconhecida pela ciência, ajudava a tornar o incidente ainda mais instigante. No fim das contas o que fazia minha amiga estar no centro das atenções era aquele brilho verde espectral adquirido depois do acidente, que faziam com que ela ficasse com um aspecto de fada alienígena ou sei lá o quê. As pessoas, o canal de tv, até alguns religiosos vinham apenas ver aquele fenômeno, cada um com a sua explicação.

Eu me sentia de fora de tudo, traído por ela ter virado o centro das atenções, e não ser mais a minha Isabel. Decerto que ela não havia se afastado de mim, e nem tinha culpa alguma de ter virado a principal atração da cidade. Eu podia ver, nas poucas vezes que ela aparecia na janela ou no quintal, o quanto parecia estar triste com aquele assédio diário. Muitas vezes eu inventava de aguar a grama só para ficar observando o movimento na casa dela. Numa destas vezes vi uma ambulância parando na porta da casa e Isabel saindo em uma maca. Por recomendação médica as entrevistas e as visitas foram proibidas.

Pouco se sabia de Isabel, apenas que ela piorava gradativamente. Na escola a sua cadeira vazia era uma testemunha da nossa impotência diante dos fatos. Nesse meio tempo meu pai mandou uma carta do Chile falando que estava bem e que queria que nós fôssemos para lá. Em outros tempos isso me deixaria feliz, mas com o estado de Isabel eu não me animava para ir embora.

Um dia eu vi a mesma ambulância trazendo minha amiga de volta. Senti que aquilo não era uma boa notícia. Queria muito estar errado, mas a volta dela significava apenas que a medicina não tinha nada mais a fazer.

A casa estava cada vez mais silenciosa. Ninguém cuidava do jardim, ou varria a calçada. A Bá ia lá todos os dias para levar comida. Acho que se ela não levasse, morreriam todos de fome, ou de tristeza. Evitava a todo custo pensar em Isabel, mas a intuição indicava que se quisesse me despedir dela era melhor encarar este momento tão desagradável.

Ainda nem havia chegado ao começo da cerca quando fui atingido pelo cheiro. Era um odor ácido e agressivo, um cheiro quente que me dava uma imediata vontade de vomitar. Entrei silenciosamente e fui andando para o quarto de Isabel.  Ela estava na cama enquanto a sua mãe passava uma espécie de pomada naquilo que seriam as suas pernas. Digo isso porque as pernas dela estavam recobertas por uma camada de pele prateada que lembrava escamas. Era de lá que vinha o fedor de apodrecimento que impregnava aquela casa.

Isabel olhou para mim, horrorizada, flagrada naquele momento íntimo e asqueroso simultaneamente.  Seus olhos agora estavam mais para arredondados e as pálpebras haviam se retraído. Sorriu para mim com os lábios entumecidos e vi uma lágrima descendo pelo seu rosto estreito e pontudo. Estava irreconhecível, mas eu jamais a confundiria com qualquer outra garota do universo. Ainda era a minha Isabel.

Pedi para que ficássemos sozinhos. O que ela tentava falar, eu já não conseguia compreender. Então ela pegou em minha mão e fez um gesto para que eu fechasse os olhos. Uma tela se abriu em minha cabeça, e eu pude ver o que ela havia visto no tempo que estivera na caverna. As criaturas, a cidade que havia sob a rocha, e um pedido de que precisava ser colocada na água para que pudesse sobreviver. Prometi que falaria com a mãe dela, até tentei, mas a mulher falou que a filha havia sido vítima de mutações genéticas provocadas pela substância na água, e que isso lhe provocava alucinações. Tentei argumentar que também tinha visto, e a mulher falou que era melhor não andar mais lá, pois não sabia até que ponto aquilo poderia ser perigoso para mim.

Ao passar pela porta do quarto de Isabel ainda pude distingui-la mexendo os lábios grossos para dizer “por favor, me ajude”.

Fui para casa desnorteado. Mamãe só falava em nossa viagem para encontrar meu pai, e se eu contasse para ela tudo o que havia acontecido, ela iria colocar a Bá no meu encalço, e eu não conseguiria mesmo fazer nada.   

Descobri o dia em que iríamos viajar, e a partir desta informação, tracei o passo a passo do plano. Estava morrendo de medo e achando que ia dar merda, mas eu devia isso a ela. Mais cedo naquele dia havia conseguido um carrinho de mão da obra do chafariz que estavam colocando para os sitiantes do meu distrito, ficava pertinho. Como era um domingo, eu sabia que ninguém estaria trabalhando e que a mãe de Isabel iria à missa. Só não sabia ainda o que faria com o pai. Na hora eu pensaria em algo.

Esperei que a mulher saísse e fui caminhando com o carrinho até a casa dela. O isolamento de nossas casas me ajudava, nunca mais aparecera ninguém por lá desde que acharam outra bizarrice para noticiar.   

Esperei que o pai fosse ao banheiro e entrei. Era fácil localizar onde ela estava pelo terrível cheiro que se intensificava com a sua proximidade. Tentei pegá-la no colo, mas a pele era escorregadia e apesar de ter perdido muito peso, Isabel era maior que eu, não consegui sequer removê-la da cama.    Já dava tudo por perdido quando alguém chegou atrás de mim e tocou no meu ombro. Era o pai de Isabel.

A chegada do Sr. Cláudio foi o fim das minhas esperanças. Mal comecei a me desculpar e o homem foi logo dando ordens.

– Sai daí, garoto, deixa que eu levo a minha filha para o carro.

Passei alguns segundos para entender o que estava rolando, saí atrás do homem que carregava a filha para uma variant azul do chefe dele. Fui com Isabel na parte de trás porque ela já não conseguia mais se segurar.  Ela se encostou em mim roçando em meu rosto os longos cabelos castanhos, o resto de humanidade que havia sobrado naquela estranha cabeça.

Seguimos até o rio onde tudo havia começado. Quando chegamos ao ponto onde ela havia caído, houve uma agitação na superfície, e formas começaram a aparecer na água brilhante, sob a ação do sol tardio que no crepúsculo se findava. Descemos as pedras com cuidado e a colocamos na água. Seu corpo foi envolvido e suavemente carregado para a profundidade enquanto ela buscava nossos rostos com os olhos cheios de lágrimas que se misturavam com a água que a tirava para sempre de nós.

Voltei calado enquanto seu pai tentava me consolar dizendo que tínhamos salvo Isabel. Tudo o que eu pensava, no entanto, era no beijo surpreendentemente doce e fresco que ela deu nos meus lábios no banco de trás do carro.   O beijo que eu havia prometido a mim mesmo quando tivéssemos idade para casar.

O tempo passou, fui morar no Chile e outras garotas passaram pela minha vida. Casei, tive um filho que se chamava Luiz, como o meu pai, e fui feliz o quanto pude. Nunca pensei em voltar para a pequena cidade onde encontrei e deixei partir o grande amor de minha vida, até o dia em que minha esposa trouxe nosso bebê e mostrou um estranho sinal que havia aparecido em sua perna. Um sinal prateado, brilhante e triangular como uma pequena escama de peixe.                                           

30 comentários em “O Brilho Verde Da Escuridão – Iolandinha Pinheiro

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  1. Perfeito, como sempre, Iolandinha! Eu visualizei a história todinha, deslizando nas possibilidades dessa mutação genética. Você usou a água novamente. Da outra vez, um casamento com um peixe. Não por nada, mas é fascinante como o universo aquático se desdobra em sua narrativa.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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    1. Evelyn, querida. Devo muito a você a existência destes textos com uma pegada de FC e Realismo Fantástico. Muito obrigada pela amizade, pela dedicação e pela convivência tão frutífera. Apesar de ser um texto bem simples, eu gostei dele. Não inventar muita moda (como se diz no Ceará) ajudou em sua fluidez e em manter a atenção dos leitores. Os comentários de vcs são muito especiais para mim. Grande abraço.

      Iolandinha.

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  2. Adorei o conto,Iolandinha! Essa mescla de enredo fantástico e o tom de mistério , ao mesmo tempo em que se percebe todo um relacionamento terno entre os personagens, só acrescentam ainda mais beleza ao seu texto. A leitura flui como água desse ribeirão fantástico aí da trama, sem entraves e revelando magia . Uma delícia ler a história de Isabel e Lucas.
    Ah, o título ficou ótimo. Parabéns!

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    1. Um comentário excelente, obrigada. Também amei o seu último que li. Vc tem uma escrita elevada e super profissional. Quando eu crescer quero chegar pelo menos perto deste nível. Obrigada pela generosidade da leitura e do comentário. Suas opiniões, colegas contistas, são sempre muito aguardadas e festejadas.

      Valeu mesmo, florzinha.

      Iolanda.

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  3. Seus textos, Iolanda, são elaborados como uma rede e com ela você prende os leitores. Nesta rede aqui, estão a água e o peixe, A primeira é símbolo do início da vida, do útero materno, da purificação; o peixe pode ser amuleto da sorte, de prosperidade e abundância, fertilidade.
    Como todo símbolo, o peixe também possui seu lado negativo. Por ser um animal difícil de segurar com as mãos, pode ser visto como um indício de fuga, escapando ou evitando certas situações.

    Parabéns por mais esta história cheia de realismo simbólico, de suspense e emoção. Com ela penetramos em um ambiente especial. Com a espontaneidade de sua comunicação, os personagens nasceram, agiram e buscaram soluções dentro de condições mágicas. A densidade humana é presença constante em suas tramas.

    Grata pela leitura prazerosa e enriquecedora. Um grande abraço.

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    1. Fheluany querida.

      Muito agradecida pelo carinhoso comentário aqui e no Recanto das Letras. Seus comentários sempre vão além. Além de serem técnicos, e de nos ajudarem a melhorar, também abrem possibilidades além das imaginadas pelo próprio autor. Na minha concepção o conto era sobre uma mutação genética originada pelo contato com seres alienígenas que habitavam a rocha cuja abertura ficava na parte mais profunda do ribeirão. Mas, claro, a adolescência é um período de transição que nem sempre é aceito ou vivido com naturalidade. O conto inteiro poderia ser uma metáfora sobre a não aceitação das transformações que a adolescência traz, e também cabem outras versões, o céu é o limite. Um grande beijo para você minha querida. Deus a abençoe hoje e sempre.

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  4. Muito bom o conto! Mais do que suspense e realismo fantástico, é um conto sobre amizade e sobre amor. Gosto também de não ter explicações sobre o que é narrado, como se fizesse parte da vida, eis o eixo do realismo fantástico, que você usa muito bem. Parabéns!

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    1. Pois é, este foi um daqueles contos que me saem do coração. Muitas vezes quando escrevo estas coisas mais dramáticas, eu choro quando escrevo e também sempre que leio depois . Neste eu consegui me controlar, pois até que o final foi feliz, não é mesmo?

      Sou muito feliz por fazer parte de um grupo de pessoas talentosas de quem pretendo me aproximar cada vez mais formando laços de amizade e não apenas compartilhamento literário. Tem horas que penso em desistir mas aí encontro estes comentarios amorosos e me encanto de novo.

      Grande abraço.

      Ioio.

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      1. Eu geralmente choro também… O final foi feliz, mas de certa forma, como se não houvesse o que fazer. Mas isso também faz parte da realidade, fantástica ou não… Esse final deu um pouco de nostalgia também ao texto.

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  5. Isso mesmo, Amana. O final foi o feliz possível mas não tem feliz assim. Dada a transmissão do mal (ou do bem, sei lá) da mutação. Muito obrigada por tudo, querida. Beijos.

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  6. Iolandinha, eu estou amando as suas pessoas peixe rsrs. Menina, como você escreve bem. Este conto está incrível, o que mostra que você deve escrever o seu livro de contos, reunindo textos maravilhosos como este. Seria sensacional e eu o leria com toda certeza. Beijos e parabéns.

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    1. Muito obrigada pelo incentivo, Fernanda. Depois de anos no Terror eu estou me entregando ao Realismo Fantástico com paixão. Sempre amei ler este gênero e estou adorando escrever. Agradeço imensamente pelo comentário. Esse é o ganho: ser lida. BEIJOS.

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  7. Oi, Ioiô! Que conto fantástico! Só vc mesma pra escrever assim! Tô amando sua escrita mais fantástica, vc leva muito jeito pra isso! O conto está perfeito! Muito gostoso de ler, eu li inteiro sem perceber, está realmente interessante e intrigante. E as descrições estão incríveis. Ótimo conto! Parabéns! Um beijo 💋

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    1. Minha doce e linda Video Maker. Vc é muito generosa e querida. Muito obrigada por este comentário incentivador. Também estou gostando de abraçar um gênero que sempre adorei ler. Infelizmente é um gênero que exige muita criatividade e é por isso que eu demoro tanto entre um texto e outros. Isso de ter um dia fixo tem sido um estímulo para escrever um texto novo por mês. Acho que meu próximo tema será conto de fadas, que, naturalmente é realismo fantástico. Esperando uma iluminação literária para dar o start. Saiba que gosto muito de vc e a admiro. Beijos.

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  8. Oi, Iolandinha,
    Olha, você me fez viajar em cada linha do seu maravilhoso conto, torci e sofri por Isabel, e por fim, chorei….é impressionante como sempre mergulho nos seus contos, a ponto de realmente ver todo o cenário, sentir com intensidade cada emoção, característica de personalidade, cada tom que você imprime a cada personagem. Isso é ótimo ❤
    A história de Lucas, menino entrando na adolescência que foge com a mãe durante a Ditadura, e então conhece o primeiro amor, que se torna "responsável" pelo sumiço e provável morte desse primeiro amor…o reencontro – a felicidade, impossível.
    A salvação e redenção, enfim….o passar do tempo, o sinal, na perna do primeiro filho. Isabel retorna para Lucas?
    Ioiô, só posso aplaudir, que lindo, que forte…bom, sou fã, mesmo. Perfeito.
    Bjokas!!

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    1. Também sou fã dela e não apenas como pessoa, uma garota linda, bailarina, mãe de filhos fantásticos, amiga para todas as horas a quem eu admiro muito. Não bastasse só isso é companheira contista, também escreve em revista literária e é uma autora que sistematicamente foge do trivial. Tudo nela é extraordinário. Quem tiver oportunidade, leia seus textos, vai ser uma viagem. Um beijos.

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  9. Que conto gostoso de ler, me senti assistindo sessão da tarde.
    Não leve isso a mal, não, pq é bom 🙂
    Uma história fechadinha, com mistério e solução e depois o gran finale, q realmente, não é de filme de sessão da tarde, é de conto mesmo.. o bebê/peixe… hehe adorei!
    Parabéns por mais este texto cativante, Iolandinha!

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    1. Adorei isso que vc falou, Kinda. Realmente é um conto doce, simples, emocionante, exatamente com aqueles filmes de sessão da tarde. Essa pegada adolescente é muito boa de trabalhar, porque nesta idade nossos personagens são todos pureza e emoção. Pessoas cheias de esperanças e planos. Muito obrigada por estar gostando desta nova fase de escrita minha. Eu estou me divertindo demais, então vamos brincar juntas!

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  10. Querida Iolanda,

    Tudo bem?

    Parabéns pelo belo conto, como sempre. Sua narrativa, embora seja um conto de realidade fantástica, traz pitadas de momentos históricos reais, característica, aliás, perfeita ao gênero. Como sempre, visualizei um filme na trama e descrições, e, como sempre também, acreditei que, com um pouco mais de fôlego, este conto aqui daria um belíssimo romance juvenil.

    A história me lembrou a do terrível episódio do Césio em Goiânia, lembra-se? As crianças encantaram-se com o pó verde que brilhava na escuridão e com ele brincaram de desenhar uma cidadezinha, o material, trazido para casa por seus pais, estava contaminado com radiação, “transformando” as crianças como a menina de sua narrativa, e, muitos deles morreram.

    Parabéns, querida amiga.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Paula, boa noite.

      Primeiro: muito obrigada pela leitura e o comentário. Você tem razão. Este texto e Gladius Domini foram inspirados parcialmente no caso de Goiânia. No texto que citei a doença da menina vira uma pandemia (poxa, virei Nostradamus), neste eu ia usar barris de metal escondido no fundo da caverna que contaminariam a menina e ela desenvolveria uma câncer. A fantasia ficaria por conta da fuga da realidade dela e do amiguinho, que acreditariam que ela estaria se transformando em uma sereia. Mas, tanto ia ficar muito longo, quanto seria difícil um menino de 11 anos carregar a amiga até o rio que ficava a meio quilômetro sem que ninguém visse.

      Vc sempre perspicaz.

      Beijos, querida.

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  11. Olá, querida Iolanda. Adorei seu conto. Como sempre uma narrativa muito bem tensionada que faz a gente seguir adiante em um só fôlego. Gostei da forma como você representou a camaradagem misturada com flerte entre os pré-adolescentes, achei muito sensível e realista. A metamorfose da menina também está muito bem descrita, sem sobras nem excessos. Gostei bastante dessa parte principalmente porque mostra de forma sutil uma mudança externa e interna. É isso, amiga, mais um ótimo conto. Siga, sim, com essa sua nova fase de realismo-fantástico. Também gosto muito dessa pegada de intrusão do fantástico em narrativas realistas. Acho que acontece em quase tudo que escrevo, sempre dou um jeito de incluir algo sobrenatural, ainda que as vezes só um pequeno detalhe, como um adereço, sem relevância para a trama. Já aguardando seu próximo. Será um novo, rs, peixe? Beijo grande.

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    1. Como é bom a gente acordar com um comentário destes e saber que a alguém por quem se tem muita admiração acha bacana o que a gente faz. Uma honra para mim, viu? Acho que o próximo conto não vai ser sobre peixe, hehehe. Nem eu aguento mais. Vc tb tem vários contos com este ambiente, né? E eu amo todos.

      Lembra do tempo em que escrevíamos juntas para o DTRL? Lembra como o povo achava ruim a linguagem com um viés vitoriano que eu usava nos meus contos? Ainda gosto daquilo, mas percebi que em contos que eu uso uma linguagem mais coloquial a emoção flui melhor, a linguagem do dia a dia faz com que o leitor se identifique mais com os personagens, se coloque no lugar deles. Outra coisa legal também é falar da infância dos protagonistas. Todo mundo teve infância e muitas vezes as vivências são comuns entre quem lê e quem atua no conto.

      Fico feliz em ver que este esforço para me transformar em uma contadora de histórias mágicas mas não tão mágicas assim está agradando a um público específico e importante para mim. Vcs, as minhas amigas contistas.

      Muito obrigada por sempre me ler. Vc é mesmo uma flor. Beijos.

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  12. Olá, Iolandinha!
    Uma das coisas que aprecio em seu texto é a sua capacidade de criar um cenário que vai acabar influenciando na trama e nos personagens. Essa sua contextualização perfeita permite o imediato mergulho do leitor no texto. E o texto?

    Eu li essa história bem desenvolvida, achando que na superfície você conta uma história, mas nas entrelinhas vc conta outra, que fala de amor. E que fala de adolescência. E da incapacidade de muitos jovens em lidar com esse mundo (que aliás, muitos adultos também não sabem. Eu, inclusive!) E aí, eu me deparo com muitos aspectos interessantes:

    “Estávamos sempre metidos em encrencas. Uma vez peguei a Bá se queixando da Isabel para a mamãe. Falando que ela era má influência.”

    Isabel é a má influência? Por quê? Porque ela vê demais? É ela que enxerga o peixe que ninguém vê. É ela que se perde no fundo do rio e vai conhecer outro mundo (alienígena, contaminado ou não), é ela que consegue se transformar num ser mais evoluído, de beleza cintilante e que chama a atenção de todos, ao ponto de Lucas ficar com inveja. E, por último, ela quer partir para esse novo lugar, a que ela julga agora pertencer. Lucas não evolui como ela, volta-se à sua vida normal, com a sociedade normal que conhece bem. Ao fim, resta o filho e a nostalgia melancólica de um tempo perdido por sua covardia em acompanhá-la na nova trajetória. Assim são os amores, assim são as pessoas.

    Essa é apenas minha análise, uma história cheia de simbolismos, contada com maestria. Dizem que os melhores contos, narram uma história em linhas e outra nas entrelinhas. É isso o que vc fez com a maestria de uma grande escritora. Parabéns!

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    1. Sim, amada.

      O conto se passa nos anos de chumbo. A Bá como ele a chamava, era a babá que morava com eles, desde que ele era pequeno, e precisava de uma. A Bá representa aquela tia avó que está sempre maldando as coisas, vendo malícia em tudo, mas que é a companheira da mãe do menino, dando apoio à ela enquanto o marido está fora.

      A Bá é como muitas parentes que tive. A maioria já morreu. Gente sempre desconfiada e enredando coisas para nossos pais. Acho que resgatei este povo que nem é totalmente ruim e nem é gente boa e coloquei ali como um trago de fel da minha própria infância e de como acabei sendo castigada por causa destas pessoas.

      O Lucas era uma pessoa super protegida e cheia de medos. Daí porque se recusou a viver a aventura com a amiga, preferiu ficar na segurança frustrada de uma vida sem maiores emoções.

      Tem muita gente assim, não é? Obrigada pelo dedicado comentário e pela análise que vai além até do que eu, como autora, imaginei. A convivência com vc enriquece meus dias.

      Um grande abraço desta sua admiradora nada secreta.

      Boa noite, maravilhosa.

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  13. Que história fantástica! Adorei cada trecho. O que teria Isabel encontrado? Uma civilização mutante no fundo das águas? E seriam mais evoluídos que os humanos? O Lucas foi “contaminado” e passou esses genes para seu filho? O que fará Lucas agora? Quero mais, Iolanda! Adorei. Bjs ❤ Ah, e o título é maravilhoso.

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    1. Oi, minha linda Vanessa. Está tudo bem por aí? Vi que está fazendo mais cadernos. Cada um mais lindo que o outro.

      Querida, quantas perguntas! Deixei o conto muito aberto, não foi? Vou dar a minha versão para vc. Na minha cabeça, a Isabel encontrou uma civilização de extraterrestres com fisionomia de peixes. Na minha primeira ideia ela se contaminaria com lixo radioativo e desenvolveria um câncer. Mas eu fiquei com pena dela, e resolvi dar um mergulho na fantasia que antes seria apenas sugerida.

      Na versão final, para não morrer, Isabel teria que concluir a mutação lá no ribeirão. O beijo entre os dois havia feito o dna alienígena entrar no corpo dele e se manifestar no filho.

      Lucas volta para a cidade onde vivia para encontrar a solução para o problema do filho. É isso.

      Muito obrigada pela visita e pelo generoso comentário Deus a abençoe.

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