Feliciano Teixeira (Renata Rothstein)

Detestável amigo,

Há tanto tempo não te vejo, primeiramente quero falar do prazer imenso que é, não ter notícias tuas.

É péssimo.

Trata-se a carta que não segue de um relato sobre fatos que jamais existiram, mas que por isso mesmo não considero descartáveis, ao contrário dos fatos e circunstâncias acontecidos que, estes sim, merecem todo o meu esquecimento.

Como ia dizendo, acordei naquela noite com um sol de rachar, fazia muito frio e o céu, lá embaixo, causava cegueira, de tão brilhante. Não sabia que seria uma madrugada chuvosa, mas como nesse mar tudo é possível, talvez eu já devesse não ter me acostumado de ser tão ligado às minhas tradições – meu filho costumava dizer que eu era assim desde pequeno. Deve ser genético, já que meu neto (é o que ouço dizer, não o conheci) também era assim.

Não dá para fugir do efeito do ADN. Então concluo, puxei mesmo ao meu bisneto, um forasteiro que veio de Urano em meados de 3078, fugindo da famosa guerra que não houve, contra um planeta de outro universo que não tinha nome, porque nesse universo é muito incomum dar nome a qualquer objeto, pessoa, animal, construções.

Estive lá a passeio uma vez, em Urano. Não lembro, mas levei três longos séculos para chegar e estava até aproveitando, achando tudo um grande tédio, quando descobriram que eu sou bisavô desse tal desertor.

Agora paro para refletir e percebo como é um dissabor belo isso, de tudo fazer sentido algum. Para ninguém, exceto para alguém, que certamente não existiu. Nem existirá.

Sou um homem muito solitário, não entendo a razão, pois sou muito detestável e inconstante. Minha filha dizia, quando eu era criança: “- Esse menino vai ser galã, em seu tempo de rapaz, vejam como é idiota e maledicente! Um primor!”.

Eu, menino franzino, já de poucos cabelos e com um nariz adunco de dar inveja em qualquer papagaio, tinha tudo para ser um desastre. Não vinguei.

Optei por obrigação pelo celibato. A junção do meu caráter investigativo com um intelecto digno de pena davam o que falar, na família.

Certa manhã de um ano que não me recordo muito bem, talvez porque não tenha acontecido ainda, esperei impacientemente todos irem dormir – todos, no caso, eram o meu periquito, o Zeus, e uma coelha chamada Tomásia – e covardemente escapei.

Fazia tempos já que aqueles seres tão amáveis e fofos, a inocência personificada em irracionalidade só me davam carinho. E cansei, eu não podia mais conviver com aquilo.

Merecia menos da existência. Bem menos. Eu não sabia que existia, mas certamente merecia.

Saí, mundo adentro.

Nadei pelos desertos mais áridos, não foi difícil, mas dizem que o que vem fácil, fácil vai. Eu detesto desafios, por isso cheguei com alguma facilidade ao fim do deserto, bem lá onde o mar termina e vem o despenhadeiro, o fim de tudo.

Corajosamente cheguei à beira do precipício, amarrado em cordas que prendi numa árvore centenária recém-plantada (pude perceber).

A árvore era flutuante e oscilava, seus frutos nasciam e caíam em menos de quatro segundos.

“Que absurdo, quem tem esse tempo todo para esperar uma fruta para comer?”. Lembro que pensei nisso, paciente que sou, nada que demore menos de oito anos para acontecer me interessa. Abandono.

Super vegano, já faz uns bons quinze dias que só como carne bem vermelha, detesto um churrasco com os amigos nos inícios de semana, quando nos reunimos para uma partida de peteca.

É ótimo, chato demais!

Voltando ao precipício, não vi nada demais, aliás, senti um tremendo desconforto, pois não havia abismo, apenas uma cachoeira com água subindo torrencialmente e lá, ao longe, terras e mais terras – e um povoado.

De onde estava podia ver a fumaça saindo das cabanas, era igual a todos os tipos de habitação – esqueci que meu filho do meio uma vez me contou uma história que dizia que ninguém deveria se aproximar demais daqueles que viviam no aquém.

Meu filho Arnaldo, sempre tão misterioso. Aquele homem que me viu crescer. Pensei nele e deu uma pontinha de ódio no coração. Família é família. Não tem jeito. Ele sabia do pai que tem, covarde e atrevido.

Fui em frente, decidido a descobrir o que de bom se fazia naquela aldeola.

Rave, bailinho, clube de swing, o que poderiam oferecer a um esnobe missionário como eu?

Estava me contorcendo, tentando descer preso pela corda da árvore que flutuava como nuvem, e estava indo para longe, quando um cidadão gritou:

“– Aê, ô estúpido! Tem uma escada bem aí ao lado.”

Notei que em minha euforia por tão desprezível descoberta não vira a escada de ferro ao lado da cachoeira, acenei com o dedo do meio em riste para o homem, agradecendo.

Subi pela escada e cheguei ao chão. Lá, uma fila de tuk tuk aguardava pelos clientes. Já foram entregando cartão e pedindo para instalar o aplicativo, o Tuks, no telefone celular.

Um tanto insatisfeito por não precisar caminhar tanto, dez segundos depois cheguei ao destino.

Sem pressa, desci do tuk tuk, em frente a uma hospedaria cujo aspecto me agradou pela total falta de organização.

Entrei. Sala de espera, quadros com pinturas de crianças de seus quatro anos enfeiavam maravilhosamente as paredes.

Pedi um quarto e o recepcionista apontou o sofá.

Fiquei ultra-satisfeito quando vi que pagaria uma verdadeira fortuna para dormir pessimamente.

Para outras necessidades, havia no canto uma bacia com sabão vermelho e um penico.

Nessa hora senti saudade do meu troninho vermelho que tocava musiquinha, e estava em casa, a metros de distância.

O mar começou a subir. Hora das marés exercerem sua força sobre a Lua.

Cantei minhas blasfêmias em voz alta, fiquei em pé no sofá, dormi. Em pé.

A noite seguinte, depois que o dia passasse, seria longa.

Eu mal poderia esperar, mas encontraria o grande desamor da minha vida ali, naquele fim de mundo, a Sirléia.

É como eu ouvi dos meus netos, que ouviram dos meus bisnetos, que ouviram dos meus trinetos, e por aí vai: a vida está sempre nos desesperando.

E continua.

Um dia.

Qualquer dia.

Não.

Continua não. É que Sirléia não quer.

Espero de todo coração que não entendam, já que a carta já está prestes a ser transformada em pó. Queimada.

Assinado: Feliciano Teixeira.

Sem eira, nem beira.

*um pouco de muito non sense, para variar

11 comentários em “Feliciano Teixeira (Renata Rothstein)

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  1. Nossa, adorei este texto. Para mim merecia ter ganho aquele desafio do EC. Fantástico. Dei muita risada lendo, e achei super inteligente isso de nada ter coerência, e mesmo assim a gente entendia tudo e seguia rindo. Uma maravilha. Quando vc falou que ia publicar algo do EC, pensei que era aquele de terror, lembra? Gostei dele também, mas ainda preferi este de hoje. Tem um conto do Millôr Fernandes em que o protagonista se apaixona por uma extraterrestre que fala português mas sem as vogais. Era um barato tentar traduzir. Por exemplo: prmt. Pensei que seria Permite, mas no fim era promete. Entendi pelo contexto, hehehe. Amei naquele tempo e amei de novo hoje ler este texto genial. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Renata, seu texto é uma lúcida loucura,espontaneamente calculada. Como conseguiu essa batelada de absurdos com coerência?

    Parabéns por conseguir enunciar tantas mentiras com aparência de verdade; você criou uma piada séria, leve, que agrada muito, sem apelar para a grosseria. Texto divertido, inteligente, fluido e agradável. Amei!

    Obrigada pela leitura desestressante. Beijos.🤣

    Curtido por 1 pessoa

  3. Mas que maravilha poder ler um texto assim, diferentão, divertido, inteligente, sagaz. Ou seja, um belo presente que você me dá, minha querida. Quantas ideias interessantes, quantas construções malucas e que, ao mesmo tempo, fizeram todo o sentido porque embarquei no texto. Excelente!!!!

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  4. Querida Renata,

    Tudo bem?

    Já conhecia este texto maravilhoso do EC. Não lembro o tema do desafio. Experimental? Mais uma vez, me
    apaixonei pelo conto e por sua ousadia em levar o leitor para outros lugares que não os habituais. O não, o contrário, a vida de trás para frente, causa uma sensação muito impactante em quem lê.

    Parabéns!

    Beijos
    Paula Giannini

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  5. Ahahahah Continuo com a mesma opinião: esse conto é de enlouquecer! Como você fez para não se perder nessa escrita e manter a coerência mesmo com tantos absurdos, só você sabe, tenho certeza. Muito doido isso! Repito: sempre se busca uma sequência lógica lógica na leitura e é óbvio que você conseguiu não fazer isso. E é muito agradável apesar do nó no cérebro.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  6. Acho que não cheguei a ler este texto na época do desafio. Dificilmente me esqueceria de algo tão original e impactante. Que viagem mais doida, mais cheia de contrastes,um jogo criativo de contrários. Você realizou um trabalho brilhante, costurando imagens que se desencaixam … Uma ideia doida e perfeita. Parabéns!

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  7. Olá, Renata!

    “A vida está sempre nos desesperando”, acho que o leitor vai bem por aí, tem coisas que acontecem sem a menor coerência , a vida é isso, uma insana lucidez. Parabéns pelo texto original e divertido!

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  8. Menina Renata, esse conto é simplesmente incrível. Não conhecia. Para mim, é você, sua escrita espontânea e sem rédeas que eu vejo na sua poesia expressa em prosa. Assim como guardo alguns dos seus poemas como fonte de inspiração (na verdade guardava, perdi a pasta onde estavam depois de um crash no meu note) vou guardar esse seu conto para me refrescar nele quando me sentir desinspirada. Gostei demais! Um beijo.

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  9. Se esse texto foi difícil de ler, imagina de escrever? É muita confusão que gera muito divertimento. Bem bolado e escrito, muito bom mesmo, diferente. bjs ❤

    Curtido por 1 pessoa

  10. Maravilhoso, Renata, muito divertido de ler esse texto nonsense. Se fosse um monólogo teatral, interpretado pelo Bemvindo Sequeira, pensa, que loucura, hahahha! Achei ótimo!

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