O irmão da Maria Theresa – Fernanda Caleffi Barbetta

Quando eu nasci, ninguém sabia meu nome. Eu era o irmão da Maria Theresa. E isso era informação que bastava. Só depois, bem depois, foi que eu me tornei o Nelsinho.
Na época do meu nascimento, 25 anos atrás, minha irmã já era a Maria Theresa, com agá, famosa lá pras bandas do Mato Grosso. Eu, quando deu, fui embora. Vim pra São Paulo. Se era pra ser um ninguém, que fosse na cidade grande. Não demorou muito, eu arrumei um emprego nos Correios, e foi então que eu ganhei até apelido. Hoje eu sou o Nelsinho Carteiro. E muita gente sabe meu nome.

Bom, vamos voltar à Maria Theresa. Essa sim nasceu pra ser alguém. Nasceu com um dom. E essas coisas de dom a gente tem que respeitar. Quando tinha 10 anos, ela sonhou com a cabeça da vizinha na janela da nossa casa. Uma cabeça sem corpo, decepada, sangrenta, olhos arregalados, cabelo desgrenhado. No dia seguinte, assim que ela contou, aos prantos, o sonho terrível para minha mãe, espalhou-se pelas redondezas a triste e aterradora notícia de que a tal vizinha, a mesma do pesadelo, tinha sido encontrada morta. Cabeça no quintal, corpo na cozinha. Foi um rebuliço.
Quando minha mãe revelou sobre a premonição da Teresinha, o rebuliço foi ainda maior. No final das contas, o pesadelo da criança rendeu mais assunto do que a morte da vizinha. Mesmo sendo uma morte assim estranha, sem explicação, sem motivo, sem suspeito, com corpo de um lado e cabeça do outro. Até eu sair de lá, uns dez anos atrás, ainda não tinham encontrado o assassino e ninguém mais se lembrava qual era o nome da vizinha, mas posso te garantir que todos sabiam de cor o pesadelo da Teresinha. Logo, minha irmã virou gente importante na cidade.
As pessoas apareciam lá em casa para saber se ela tinha sonhado com alguma coisa estranha. Muitas colocavam as mãos sobre sua cabeça e rezavam um pai nosso. Quem tinha gente doente em casa aparecia pedindo que a menina fosse colocar as mãos nas feridas alheias. Sempre que minha mãe me contava essa parte, eu sentia pena da Teresinha. Foi aí que eu aprendi que nem sempre é fácil ser celebridade.
Um dia, a prima da minha mãe, tia Nonô, foi em casa para buscar minha irmã. O marido estava doente da perna. Ela queria saber se a criança prodígio podia ir lá pôr a mão na chaga aberta. Assim que ouviu o pedido da tia Nonô, Teresinha desatou a chorar. Chorou por quatro dias seguidos. No quinto dia, a perna do homem sarou. Foi depois disso que Maria Teresa virou Maria Theresa. E sua fama chegou às cidades vizinhas.
Isso tudo eu sei porque minha mãe contou para mim várias vezes. Eu mesmo só entrei para essa história dois anos depois do tal pesadelo da cabeça na janela, quando a fama da Maria Theresa, já com agá, tinha se espalhado pelo Mato Grosso todo. Entre o nascimento da primogênita especial e o meu, veio o Micael. Nasceu feio, mirrado, doente. Mas nasceu na hora certa, quando a Teresinha tinha apenas 2 anos e seu dom ainda não tinha aflorado. Então, ele nasceu com nome. Meu pai dizia que ele não seria nada na vida. E tudo indicava que ele tinha razão.
Até o dia em que a fama da Maria Theresa se consolidou e ela começou a atender em casa, com hora marcada. Foi ai que ele viu a oportunidade de mostrar seu valor. Sem que ninguém o elegesse para tal tarefa, Micael começou a assessorar nossa irmã, marcando os horários na agenda, organizando a fila de espera e distribuindo senhas nos dias de evento aberto. Hoje ele é o assistente dela. Agora, oficial, com salário e tudo. Pelo que minha mãe falou, parece que o Micael, hoje Michael, ganhou um agá também para ficar igual ao Jackson, desenvolveu até um certo dom ele mesmo. Minha mãe acha que foi a convivência. Sei lá se isso é contagioso.
A verdade é que o tempo foi passando e a Maria Theresa foi aumentando sua fama. Eu fui acompanhando isso tudo pelas cartas que minha mãe me mandava e ainda me manda de vez em quando. Eu tenho até celular com Whatsapp e tudo, mas ela prefere mandar carta. Deve achar que chega mais rápido só porque eu sou do ramo do Correio. Eu até prefiro assim.
Hoje, a Maria Theresa realiza palestras no país inteiro e até já foi convidada para falar no exterior. Escreveu três livros de sucesso. Tem página no YouTube com mais de um milhão de seguidores e foi até no Jô. Eu nem conto que ela é minha irmã. Não que eu não tenha orgulho dela ou tenha inveja do seu dom. É porque eu quero preservar meu nome. Nelsinho Carteiro. É assim que eu quero que me conheçam. Nome da gente é coisa que se respeita.

Este texto faz parte do livro “30 Textos para Descontrair”

18 comentários em “O irmão da Maria Theresa – Fernanda Caleffi Barbetta

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  1. Delícia de texto, este seu. Ter uma pessoa mais destacada na família deve ser ruim. No meu caso eu tenho duas irmãs belíssimas. Sempre tive que lidar com isso aí me tornei a “irmã engraçada”, virei a piadista das festas. É um jeito de se sobressair, né? O Nelsinho Carteiro é um personagem com uma boa profundidade, personalidade, sentimentos, ponto de vista, ficou muito bem trabalhado. O humor é sutil e o conto vai mais na linha de cotidiano, mas um cotidiano interessante, com um viés fantástico mais para o verossímil. Gostei muito. Agora vou prestar atenção no nome dos carteiros. Vai que me aparece o tal Nelsinho…

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  2. Ah… Essa história está muito bem contada! A escrita começa – parece – despretensiosa. Depois vai criando pernas, braços e, vai além da Maria Theresa com agá. Narrar em primeira pessoa e prender o leitor exige, não apenas técnica, mas talento. Porque o tal do Nelsinho Carteiro vai conquistando espaço na narrativa ao resumir sua vida. Vai contando de forma gostosa, sem tropeços, como se estivesse conversando bem-humorado comigo no portão, assim, num dia de sol, entregando cartas.
    Gostei demais desse conto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  3. Oi, Fernanda,
    Mas não é que Nelsinho Carteiro tem uma história, por rás da história? Muito bem contada, vamos seguindo a narrativa de Nelsinho, o nascimento de Micael, que se torna Michael…ele – Nelsinho – não, nasceu sem nome, mas se recusou a viver na sombra da irmã, que conhece a fama, quiçá o dinheiro…Nelsinho Carteiro é um personagem forte, quase um sobrevivente, em meio às tragédias familiares…
    e eu aqui fiquei pensando no assassino….quem matou amenina? (viagem minha rs)
    Muito bom,
    Beijos!!

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  4. Um conto que, mesmo tratando de assuntos densos, é leve. A leitura flui que é uma beleza. Nelsinho satisfeito de ter um nome e ser reconhecido como carteiro, afinal conseguiu ser alguém para si mesmo.
    Também fiquei intrigada com a morte horrenda da vizinha. Será que Teresinha presenciou o assassinato? E quanto ao choro que durou 4 dias e curou a ferida do tio? Eu também choraria sem parar pensando em encostar em uma chaga aberta. Enfim, essa fama de curandeira, de dom, sei não… criou mais nome do que feito.
    Parabéns pelo delicioso conto, sempre apresentando sua criatividade e habilidade com as palavras. ❤

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  5. ahh que delicia.. pobrezinho do Nelson!! 🙂
    texto gostoso de ler!
    mesmo tentando viver e contar a sua vida, tudo gira em torno da Theresa com agá rsrs
    Parabéns pela sua verve, Fernanda… boa demais!!

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  6. É como um ditado que dizem por aqui: enquanto existir burro, São Jorge não anda a pé! rsrsrs. Não gosto deste tipo de gente com esses ‘dons’, prefiro mil vezes o carteiro, esses sim, são necessários à humanidade hehehe. Ótimo conto com cara de crônica, adorei. Bjs ❤

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  7. Um texto bem-humorado que parece singelo, mas traz importantes reflexões:

    • O nome como identidade das pessoas, um elemento de individualização na sociedade, um direito de personalidade, algo íntimo. O nome é uma etiqueta que carregaremos por toda a nossa vida.

    • A clarividência e premonição reais ou fruto de charlatanismo; a celebridade regional e o preço dela.

    Quanto à narrativa, ambientação e personagens muito bem construídos. Devagarinho o leitor vai destrinchando os detalhes e montando o quebra-cabeças e a autora vai demonstrando ser muito segura no hábil uso das palavras, sem perder a espontaneidade.

    Obrigada pela leitura prazerosa. Parabéns pelo bom trabalho. Beijos.

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  8. Olá, Fernanda!
    O seu texto traz qualidades inerentes de sua escrita que são a naturalidade e o humor refinado. O texto começa despretensioso, apresentando o protagonista que aos poucos vai sendo caracterizado pela alteridade com o Outro, no caso, seus irmãos, que têm um nome desde o nascimento.
    No entanto, são eles os mesmos que perdem o nome original e se atribuem outros, falsos, como falso é o oficio que abraçam, que pode ter até surgido de modo natural como uma premonição, mas virou charlatanismo com direito a hora marcada na agenda. É assim que Nelsinho Carteiro se distingue dos demais e faz questão de se manter assim, distante de algo que lhe parece tão pouco respeitoso. Fenomenal o seu domínio do texto. Parabéns. Que grata contribuição ao nosso blog!

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  9. Querida Fernanda,
    Demorei, mas cheguei.
    Já havia lido esta maravilha de conto em seu livro.
    Sensacional. De verdade.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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  10. Ótimo conto, Fernanda, não é a toa que gosto tanto desse seu livro. Amei o enredo baseado nos nomes, na importância que dão a eles e na humanidade do Nelson. Eu não sei o nome do carteiro que entrega encomendas aqui em casa, puxa vida… Uma narrativa que a gente lê e fica querendo mais, ao final. Amei!

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    1. O carteiro q ia na minha casa no Brasil tinha esse nome, Nelson, pessoa simples e muito bom de papo. Quando eu estava ocupada e ele tocava a campainha era complicado. Mas dele peguei só o nome e a profissão. O resto é história inventada. Obrigada 💋Feliz q tenha gostado do meu livro 😍

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