A Coisa Brutamontes (Resenha) – livro de Renata Penzani, por Evelyn Postali

“Pelo pouco que eu sabia do mundo,
já tinha percebido que,
pra muita coisa importante, falta nome.”

A COISA BRUTAMONTES

De Renata Penzani
Ilustrações de Renato Alarcão

A obra foi finalista do Prêmio Barco a Vapor em 2016, e venceu o Prêmio Cepe Nacional de Literatura Infantil e Juvenil de 2017.

Tamanho 22×26 cm; Fonte Velino Text; papel Pólen Bold 90g/m²; capa em Cartão Supremo 250g/m²; Editora CEPE, 2018.

“Eu conseguia superar a palavra “morta” porque tinha “viva” dentro de mim. Mas como eu ia fazer para superar o “longe”?
Se o perto um dia acaba, longe é para sempre?”

A história não é apenas sobre um menino e um enorme rinoceronte.  É sobre Cícero, cujo nome quer dizer “o plantador de sementes”, que não sabia bem quais sementes iria plantar, a desperdiçar horas conversando com seus poucos amigos e, em especial, com Maria, uma senhora idosa por quem nutre afetos incompreendidos, a brincar com palavras e sentimentos, a perambular pela infância, tentando decifrar a coisa brutamontes, as peculiaridades do mundo adulto e o entendimento da vida e da morte em uma prosa poética que nos invade e conquista.

“Definir alguém é uma coisa engraçada, porque a gente tenta encontrar o modo certo de explicar por que alguém é daquele jeito, e no fim das contas a explicação é tudo o que sobra do lado de fora da definição.”

O livro é recheado de histórias que se entrelaçam, de personagens que me trouxeram vivências pulsantes, de pensamentos confusos a se desvendar no dia da partida de Maria, misturando elementos do imaginário, em um discreto realismo fantástico, tocando com singularidade em questões difíceis, especialmente sobre a morte, um assunto tão complicado de explicar e tão bem assentado na narrativa do livro.

 “Maria para mim não era uma pessoa, era um reino inteiro, habitado por toda sorte de pequenas pessoinhas que formavam uma criatura maior, dessas que não se encontram em lugar nenhum. Um reino que me acompanhava onde eu ia e me ajudava a entender muita coisa. Um reino sem norte certo nem rei, chefiado apenas por uma entidade de sensibilidades desgovernadas.”

Está escrito em uma linguagem que me remeteu àqueles onze anos de Cícero, carregada de perguntas, muitas sem respostas, e de respostas cujas perguntas se perderam no tempo. O livro vai contando passagens primorosas da infância daquele momento de perda de Maria. Um tempo de muitos dias e apenas uma Dona Maria, que não foi embora só porque não está, porque para Cícero permanece dentro dele. Eu acho que é bem assim. As pessoas se vão, mas não se vão de verdade. Elas ficam aí, perambulando no cotidiano. É assim que eu entendo. Estão aí, dialogando comigo, sempre que a memória se interpõe, sempre que algo desperta um momento determinado, sempre que se está desatento.

“Tudo o que hoje é descoberta foi antes coisa estranha e desconhecida.”

E eu saí da leitura a olhar para a coisa brutamontes, a morte, perguntando-me se, dentro de mim existem respostas para ela. Eu creio que não. Não uma específica. Depois da leitura, fico me perguntando o que me surpreende, e talvez a resposta seja o fato de se estar tão presa ao plano físico. Por outro lado, na ausência, a presença do outro se intensifica; essa coisa tão viva do outro em mim é o que me alenta – sentir que se pertenceu e pertence a esse sentimento.

Talvez tenha me faltado, na juventude, esse entendimento mais certeiro de que tudo permanece eterno dentro do coração, que a tristeza é saudade. Agora, adulta, compreendo, ainda que com dificuldade, a morte como uma passagem, e ficam as lembranças dos momentos e o sentimento se engrandece.

Cícero plantou uma semente em mim.

15 comentários em “A Coisa Brutamontes (Resenha) – livro de Renata Penzani, por Evelyn Postali

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  1. O livro parece ser lindo, mas sua resenha é, por si só, um primor. Deixou-me com vontade de ler mais do resenhado e da resenhista! 🙂

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  2. Sua resenha é uma delicadeza, e o livro é uma delícia. O texto é maravilhoso e as ilustrações são perfeitas. Tudo cativante, querida. Vc escolhe a dedos os livros que traz para nós. Parabéns.

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    1. São os livros que me emocionam ainda hoje, quando releio trechos. Acho importante trazer coisas diferentes para o grupo, porque a Literatura nesse país é riquíssima, só está adormecida, né? Ler é o que me incentiva a escrever. E essas histórias tocam, ainda hoje, meu coração.
      Obrigada pela leitura e comentário.
      Sinta-se afofada pelo meu abraço. Beijos!

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  3. Não sei o que é mais poético e elaborado: a resenha ou o livro retratado. Parabéns, Evelyn, pela escolha maravilhosa e pela apresentação que fez da obra.

    Um livro que aposta na capacidade das crianças de elaborar metáforas e alegorias a partir da fantasia, só pode ser muito interessante e a história de Cícero, as ensina a lidar com sentimentos desconhecidos.

    Obrigada pela sugestão. Um forte abraço.

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  4. Olá, Evelyn!
    Como é bom ler uma resenha em que a gente percebe que o resenhista realmente se enlevou com a leitura da obra apresentada. Uma obra premiada duas vezes por sinal, com ilustrações primorosas. A sua resenha é honesta e apaixonada. Concordo que obras fabulosas como essa, que tratam do tema da morte com tanta sensibilidade facilitaria nosso entendimento de mundo. Precisamos todos de mais sementes como essa. Muito bom!

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  5. Oi Evelyn,
    Que resenha primorosa.
    Deu vontade de ler o livro. Deu vontade de ter escrito o livro. Que metáfora linda, esta da coisa brutamontes…
    Parabéns e obrigada.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

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