Tropeço – Elisa Ribeiro

Porque olhava adiante
não no espaço
— o chão abaixo,
o imediato à frente —
mas no tempo

          o mundo transfigurado
          as dores próprias e as dele
          que ainda não sabia, mas que viriam 
          e a névoa que lhe embaçaria os dias
          dali a alguns meses
          para sempre   

tropeçou (novamente) 
bateu com a testa no poste
e a pancada foi tão forte       
que viu estrelas
inexistentes
como o sangue que buscou
tateando a fronte
ou o bordô
da menstruação que ainda não descera.

Imagem: Pandora de Miriam Schapiro, disponível em Wikiart.org

 

20 comentários em “Tropeço – Elisa Ribeiro

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  1. ALERTA DE SPOILER. Não leia este comentário antes de fazer o seu.

    Elisa, não sei se a minha interpretação foi correta, mas o que li em seu poema foi o drama vivido por alguém que se imaginava grávida em uma gravidez indesejada. A moça estava sofrendo e se sentindo desamparada. Talvez morasse na rua e planejasse um aborto, pois era certo que o bebê sofreria.

    Acho que os elementos que vc juntou em seu texto me levaram a imaginar isso. Poesias são difíceis de interpretar, e por isso mesmo permitem várias possibilidades. Gostei, amiga. Muito inteligente. Beijos.

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    1. Perfeito, minha querida, é isso mesmo. Só não sei se a menina é moradora de rua, poderia ser qualquer uma. É só uma coisinha que escrevi, ando com preguiça dos contos. Beijos. Ansiosa com sua continuação.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Estou nela, publicarei na terça. Beijos. Parabéns pela poesia, imagina se as minhas preguiças rendessem coisas assim.

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  2. Amiga!
    Que poema interessante!
    É próprio das grávidas, por alguma questão hormonal, ficarem mais zonzas, tontas, vagarosas. Além disso, já li, os ossos ficam mais amolecidos, preparados para novos contornos dentro de uma mulher e para expandir-se na altura do ventre, por motivo óbvio.
    Teu poema remete para a sensação de um início de gravidez, ao que parece, não se sabe por que – se sabe que “por tontura”, não desejada.
    A mulher busca o sangue, vermelho, bordô, o sangue que deságua da gente depois de uma “pancada”.
    E aí o teu poema ganha brilho, pela alegoria.
    Tem um que de “quem dera”, não!?
    Beijos, adorei

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    1. Como te falei, é a primeira vez que uso essa palavra proibida num texto. Tem uma coisa do tempo aí no poema também. Aliás, em tudo que tenho escrito ultimamente. Obrigada pela leitura, queridíssima.

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  3. Há nos versos acima uma tentativa, por parte do sujeito-poético, de reconhecer e identificar o lugar no mundo de um possível filho, cujo pai ainda desconhece a vinda.

    Há um tom sombrio no poema, um registro taciturno de solidão profunda, como se o eu-lírico se sentisse pária, sofrendo um “tropeço”, uma parada para repensar. Para tentar representar o drama, é tecida, com arquitetura, uma metáfora ao tempo, às preocupações vindouras e faz uso da condição física da mulher como pano de fundo. O ritmo dos versos vai se acelerando como se o tempo fosse cercando a mulher para que tomasse suas decisões.

    Parabéns, Elisa, pelo poema forte e significativo, com um teor feminino marcante. Beijos.

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    1. Sim, Fátima, há uma questão relacionada ao tempo no poema. E eu também pretendi uma metáfora com a ideia do tropeço. Muito obrigada pelo comentário, minha querida. E parabéns pelo conto no EC. Foi um dos meus dez.

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  4. Olá, Elisa!
    Quase se pode chamar de um conto-poema. O leitor logo vislumbra a situação, a personagem, o conflito e o desfecho, tudo em forma de versos. Contundentes, por sinal. A gravidez indesejada expõe os medos e temores de uma mulher transfigurada.
    O “tropeçou” traz uma polissemia de significados, mas “o sangue que buscou de uma menstruação que ainda não descera” é certeiro. O aborto vem como resposta para aliviar sua preocupação, em um mundo embaçado por tantas dores. Parabéns.

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    1. Sandra, minha querida, muito obrigada pela leitura. Você captou todas as minhas intenções. Ser lida com essa atenção e carinho não tem preço. Um beijo carinhoso.

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  5. Uau! Que poema forte e delicado ao mesmo tempo! O olhar no futuro apagando o presente, a névoa que tomaria conta de sua vida para sempre, o tropeço real e metafórico… incrível!
    Já lhe disse antes: alma de poeta é outra coisa mesmo! 🙂
    Lindíssimo! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada, minha querida. Comentário delicioso. Um Feliz Ano Novo para você e sua divertida família, com muita saúde e realizações. Beijo grande.

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  6. Seu poema já começou maravilhoso.. olhar não no espaço, mas no tempo. Lindo isso. “névoa que lhe embaçaria os dias dali a alguns meses para sempre”, mais um trecho sensacional que nos dá uma pista, mas não revela. E o final, com uma frase que deixou nas entrelinhas a gravidez indesejada. O poema inteiro é de uma força, de uma grandiosidade. Amei, amei, amei.

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  7. Seu poema deixa bastante claro o contexto e as dúvidas a permear o coração dessa mulher sabendo que um filho é para sempre e vai estar nesse mundo carregado de incertezas. Assim como carrega suas próprias incertezas, seus medos, haverá um coração batendo fora de seu peito, e a responsabilidade, querendo ou não, desejando ou não, é dela, sim, mas também do pai dessa criatura. É claro, sempre há a possibilidade de não gerar, ou de interromper a gravidez. Eu sei que é tabu, ou coisa que gera desconforto falar em aborto, mas, acima e além de uma gravidez, há a maternidade consciente e a vida da própria mulher. Não há nada que seja tão importante, nesse caso, quanto a consciência de ter uma vida nas mãos, se a opção é gerar. Porque não é só amor, não é só cuidado, não é só dádiva. Existe a realidade. Não é um sonho, não é passageiro, não é só maré mansa. Nesse mundo, tem muito filho largado, mal amado, abandonado… Eu acho que o encontro com o poste pode estar representando o encontro com a dureza do que virá. Pode ser um alerta. Pode ser, também, um ponto de virada – e nem todo o ponto de virada é para a melhor.
    Parabéns pelo texto.
    Abraços carinhosos.

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    1. Olá Evelyn. Que leitura bacana você fez do poema. As vezes uma gravidez acontece por um descuido, um tropeço. Não deveria, mas é a normal e natural que as coisas aconteçam dessa forma as vezes. Muito obrigada pela sua leitura e comentário tão atencioso. Um Feliz Ano Novo, com muita saúde e realizações para todas nós. Beijos carinhoso.

      Curtido por 1 pessoa

  8. O tropeço seria não apenas o físico, mas o tropeço dado na vida que acabou resultando em uma gravidez não desejada. Um tropeço no tempo, uma pausa no que se planejou, uma pedra no caminho. Achei interessante o contraste entre o concreto do poste com as estrelas não existentes. O real e a fantasia. Por estar distraída, a moça colide com o concreto e sangra entre estrelas. Poesia que se alinha com a angústia de se viver uma situação não planejada. Só o tempo dirá o que mais irá sangrar. Beijos.

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    1. Oi Claudia. Sim, o tropeço figurado no passado, o real no presente e talvez um novo tropeço tentando consertar as coisas no futuro. Um Feliz Ano Novo, minha querida. Com muita saúde e inspiração. Beijos.

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  9. Querida Elisa,

    Tudo bem?

    Você sabe de minha admiração por suas poesias. Aqui, no verso deslocado, o deslocamento da própria personagem (eu-lírico). O imediatamente à frente. Ela tropeça no não querer da gravidez que surge, na rua, e, quem sabe até no sangue que, ao contrário de seu desejo não confesso, brota da testa.

    Sobre ser mãe. É sempre um medo… Ao menos assim foi para mim.

    Beijos e parabéns. Que em 2021 você nos brinde com poesias incríveis!

    Paula Giannini

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