Um Tonto de Natal – Giselle Fiorini Bohn

– Natal? Pois eu explico. Vocês sabiam que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro? Esse dia foi escolhido por Roma apenas no fim do século III para coincidir com os festivais pagãos que celebravam Saturno, o deus da agricultura, e Mitra, o deus persa da luz, e assim convencer o povo a aceitar o cristianismo como a nova religião oficial do império. Interessante, não? O paganismo sendo apropriado pela mesma igreja que tanto o perseguiu! Mas voltemos ao Natal. Eu, falando sinceramente, odeio este dia. Uma hipocrisia. Ficam todos fingindo uma comunhão que não existe nos outros 364 dias do ano. E a ostentação? Um horror. Quando eu era criança, ao menos na minha casa, as coisas não eram assim, não. Era a Missa do Galo, presentes módicos, a ceia simples. E não tinha nada dessa história de Papai Noel, árvore de plástico comprada da China, com esses enfeites patéticos. Desvirtuaram tudo. Hoje é só comércio, ninguém nem ao menos se lembra do real significado da data. Um absurdo. Há um livro muito interessante sobre essa questão, escrito por um filósofo dinamarquês que se chama…
Luísa puxou gentilmente a amiga para um canto da sala.
– Helena, quem é esse?
– É meu vizinho, lá do prédio…
– Ah, foi você que trouxe essa pessoa?
– Foi. Fiquei com pena. Ele me disse que passaria o Natal sozinho. Aliás, está sempre sozinho. Ele passava os finais de semana com a família, mas nem isso faz mais. Disse que eles lá em São Paulo sempre têm compromisso, que vivem dando uma desculpa. Aí comentou que a família não faria festa neste ano, mas agora eu desconfio que na verdade só não quiseram mesmo a presença dele.
– Sério? Que dó! Mas até que dá pra entender, né? Muito chato, meu Deus! Faz meia hora que ele está ali falando: já defendeu o presidente, atacou o Greenpeace, elogiou a ditadura e agora está palestrando sobre o Natal…
– Pois é, já me arrependi. Olhe a cara de todo mundo em volta dele: nem meu pai está aguentando.
– A gente sempre se pergunta como a família pode abandonar um parente, né? Bom, está aí um motivo…
– E se ele é assim com 23 anos, imagine quando ficar velho!

28 comentários em “Um Tonto de Natal – Giselle Fiorini Bohn

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  1. Olá, querida Giselle. Eu sou o contrário do seu personagem. Eu amo o natal. Melhor festa do ano. Encontro com a família, comemos bem, temos o momento bíblico, estamos sempre felizes, e sempre acontece alguma coisa bizarra para a gente relembrar. Numa delas eu fiz uma salada de camarão, e coloquei na mesa antes de servirmos o jantar. Num determinado momento, olhei para a mesa e lá estava a gata catando os camarões bem pimpona. Lamentei o desperdício da salada que foi para o lixo, mas rimos muito deste acontecimento.

    Seu conto ficou muito legal porque a gente inicialmente pensa que esta é a sua opinião e eu confesso que já estava triste por você pensar assim. Mas o chato era o outro. Que bom! Adorei seu TONTO de natal. Era um tonto mesmo.

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    1. Oi, querida! Não sou assim, não, Deus me livre! Mas já conheci uns chatos assim: você convida e a pessoa fica lá, reclamando e palestrando hahaha… odeio palestrantes!
      Obrigada pela leitura carinhosa! Beijos!

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  2. Hahahaha Gi, que chatice um convidado mala desses, mas acho que Natal é meio assim: o momento de aguentar as chatices, rabugentices, reclamações do pessoas da família, de arrecadar até mesmo os chatos a quem a própria família não dá mais espaço.

    Mas vamos ao texto: gosto muito dessa característica tua de começar o conto em movimento. Marcelino Freire ensina que isso é fundamental.
    Um conto bem-humorado, mas não necessariamente leve, porque dá pra refletir diversas coisas.
    Beijos

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    1. Oi, Sabrina! Pois é, sabe que já vivi vários Natais assim, infelizmente hahaha…
      Quanto ao conto, percebi que começo tantos contos com narrativa direta que comecei a me policiar, porque achei que estava até demais! É realmente um vício meu!
      Obrigada pela leitura e pelo comentário tão querido!
      Beijo!

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  3. Adorei esse personagem hehehehe. É muito difícil encontrar pessoas que pensam e dizem isso, todavia, ele está indo contra o que pensa e fala, já que aceitou ir à uma festa de Natal… Não gosto de data nenhuma comemorativa, final de ano, então… Adorei o texto, bem legal, uma visão de ambos os lados, quem curte e quem não. Bjs ❤

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    1. Oi, Vanessa! Como sempre digo, minha criatividade é limitada, então fico sempre na periferia das minhas experiências: passei um Ano Novo onde um dos convidados ficou na festa e na queima de fogos dizendo o tempo todo como é ridículo e patético celebrar o Ano Novo e queimar fogos hahaha… enfim, a hipocrisia! 🙂
      Obrigada pela leitura e pelo comentário!
      Beijos!

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  4. KKKK e quem não convive com alguém “do contra” assim? Concordar e discordar são antônimos, mas tanto um quanto o outro são ações necessárias no dia a dia. Todos nós temos o direito de concordar ou não, em diferentes situações, mas não convém impor a todo custo ideias próprias por achá-las corretas ou então discordar pelo simples fato de ser “do contra”. Esse tonto era bem indesejado mesmo, por isso solitário até no Natal.

    Texto divertido, uma comédia de costumes. Ao observar o comportamento do vizinho chato, a autora com um estilo ágil e agradável, consegue fazer refletir com profundidade sobre a questão. As cenas se formaram com clareza e a narração foi eficiente. Parabéns. Beijos.

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    1. Olá, querida! Obrigada pelos elogios! Inspirei-me em duas birras minhas pra construir este texto: os palestrantes e os amargos. Quando se combinam na mesma pessoa então, Deus me livre! Infelizmente, conheço vários!
      Obrigada pela leitura e pelos parabéns! 🙂
      Beijos!

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  5. Giselle, querida, eu gargalhei aqui. Eu simplesmente amei! Eu não sei definir o sentimento que me causou, mas de uma coisa tenho plena certeza: devemos ficar longe de determinadas pessoas em determinados momento de nossa vida, especialmente se for uma data que não gostamos e temos que participar, fazendo, como dizia meu pai, ato de presença – só física, porque em espírito estamos em outra sintonia. Esse tonto de Natal foi uma das melhores coisas que li hoje. Obrigada!
    Parabéns pelo tonto.
    Um grande e carinhoso abraço.

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    1. Olá, Evelyn! Muito obrigada pelo comentário tão querido!
      Pois é, como disse ali em cima, tenho horror a palestrante – que gosta de falar, mas não gosta de ouvir! – e a gente azeda! E quando a pessoa decide ser as duas coisas, sai de perto! Já convivi com vários assim! Mas, como diz Ariano Suassuna, “tudo o que é ruim de passar é bom de contar” – esse é o mote da minha vida!
      Obrigada pelos parabéns, fiquei feliz de saber que gostou!
      Um beijo!

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    1. Olá, Leila! Muito obrigada! Sempre leio e admiro suas resenhas na Amazon, logo, é uma honra saber que agradei a alguém com tantas leituras! Fico muito feliz! 🙂
      Um beijo!

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  6. Fiquei muito surpresa com o final. Adorei. Que texto gostoso de ler; me prendeu do começo ao fim. Tenho certeza que cenas parecidas com a que você descreveu ficarão mais e mais comuns no nosso cotidiano, estamos cada vez mais chatos. Beijos. Parabéns! ❤

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    1. Olá, querida! Muito obrigada! Sim, a moral da história aqui: vamos tomar cuidado pra não nos tornarmos o próximo tonto de Natal, de Ano Novo ou da vida mesmo! 🙂
      Obrigada pela leitura e pelo comentário!
      Beijos!

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  7. Olá, Giselle.
    Seu texto é de uma naturalidade encantadora. Vc fisga o leitor de começo, faz dele o que quer. Dá logo o tom, o tédio do discurso do cara chato que nem a família suporta, então, o ponto de virada, e o que era enfadonho se desanuvia num humor delicioso, cheio de reflexões. Sua capacidade de fazer das cenas do cotidiano contos inesquecíveis é fantástica. E parece que vc tem repertório tão sortido que nos garantirá boas leituras. Obrigada por nos enriquecer com seu conto maravilhoso.

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    1. Olá, Sandra! Gente, que delícia ler isso sobre meu continho! 🙂
      Sabe que fiquei até com medo de começar o texto com essa chatice toda do personagem e já entediar o leitor? Nem deixei o chatonildo falar muito pra não espantar ninguém!
      Que responsabilidade você me deu, hein? Agora preciso caprichar pra garantir boas leituras por aqui! Vou dar o meu melhor, prometo!
      Muito obrigada pelo comentário tão carinhoso!
      Beijos!

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  8. Que delícia de conto, Giselle. Quanta habilidade na sua escrita em transformar uma cena cotidiana em um conto que nos surpreende tanto pela quebra de expectativa, quanto pela mensagem. Além da ironia saborosa. Parabéns, querida. Você é uma escritora que me parece mais interessante a cada leitura. Beijos.

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    1. Oi, Elisa! Uau, muito, muito obrigada! Fico muito honrada de ler um elogio desses, ainda mais vindo de uma escritora que admiro tanto!
      Seu comentário foi um presente pra começar bem a semana! 🙂
      Beijos!

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  9. kkkkkk seus contos sempre bem humorados e com uma mensagem interessante. E quem não tem o parente chato que gosta de falar, falar, falar… Legal como o texto parece descompromissado mas que traz muitos tópicos para reflexão. Sempre muito ler vc. Bjs

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    1. Olá, querida! Sim, aquele parente chato… que pode vir a ser um de nós, então tomemos cuidado hahaha…
      Um beijo e muito obrigada pela leitura e pelo comentário!

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  10. Que delicinha de conto! O começo engana bem, mas a partir da conversa entre as primas, o sorriso vai se abrindo e segue assim até o final. Convidado mala, por que será que é rejeitado pela família? Mas também fiquei com um pouco de dó.
    Parabéns pela fluidez da sua narrativa. Gostei bastante. ❤

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    1. Oi, Cláudia!
      Muito obrigada, pela leitura e pelos elogios! Sim, tenho sempre esse dilema com os “palestrantes”: um pouquinho de raiva, mas um dó enorme, porque são sempre figuras que ninguém quer por perto! E a gente sabe que às vezes nem culpa a pessoa tem de ser assim… é inata a rabugice!
      Um beijo!

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  11. Querida Gisele,

    Tudo bem?

    Interessante como um conto assim, com esse tipo de humor, me remete à crônica. Aqui, a construção da ideia se reveste de escolhas narrativas muito assertivas. Muito bom ver como você engana o seu leitor, até o momento da revelação em um tipo de mudança de ponto de vista, sem o ser.

    Parabéns.

    Feliz 2021!

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Olá, Paula!
      Nem me fale sobre essa diferenciação entre conto e crônica, porque isso é uma dor de cabeça enorme pra mim: muitos dos meus textos não consigo definir o que são! E se pergunto para os outros, só me confunde mais ainda, já que ninguém consegue também! Ai ai ai…
      Muito obrigada pela leitura e pelos comentários! Se o palestrante estivesse aqui, diria que “as escolhas narrativas possuem inconsistências, não obstante lograram…”
      Aaaaarrrgggg!
      Beijos! 🙂

      Curtido por 1 pessoa

      1. Querida Gisele, adoro linguagens híbridas. Conto e crônica se completam, importa menos a nomenclatura que a qualidade de seu texto.

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