ÚLTIMAS ÁGUAS (Claudia Angst)

Era bom ouvir novamente aquele som. O pequeno riacho, a água escorrendo sem pausa, em um ciclo sem fim. Ali, naquele mesmo parque, Carla estivera com a prima muitas vezes. Da infância à juventude, passando por uma turbulenta adolescência, aquele pequeno espaço servira como território secreto.  As duas meninas compartilhavam segredos e se tornaram cúmplices ao longo da vida.

Pensar agora em Daniela fazia com que Carla sentisse um misto de saudade e dor, tudo temperado com culpa. De uma só vez, a tristeza invadiu sua mente junto com todas as lembranças que ela julgava ter abandonado em algum canto esquecido. Imagens bastante vivas surgiam como flashes em um memorial interminável. 

− Adoraria que ele se chamasse Jorge e me amasse para sempre − disse a menina com o sorriso pleno de esperança e certeza.

Os olhos prontos para entornar a água do desapontamento, pois mesmo jovem demais para entender, Carla pressentia o fim sem começo, o ciclo “descomeçado” de quem sonha demais. Mesmo assim, sabia que a prima Daniela tinha muito mais chances de sucesso do que ela. Dani, ali ao seu lado, estampava uma crença imaculada de desilusões. Enquanto Carla encolhia-se ao ouvir a palavra “amor” como se pousassem sobre si aspas invisíveis a tornando irreal, a prima apenas aguardava a chegada de dias felizes.

Carla sentira, desde muito cedo, a obrigação de ser realista, de sobreviver à avalanche de sonhos inerentes a qualquer adolescente. O cinismo brotara no meio de poucas fantasias, projetando suas expectativas para longe. Longe demais para que qualquer ilusão lhe alcançasse.

As duas meninas, tão parecidas fisicamente e já tão distantes de alma, queriam ser apenas felizes, compartilhando seus planos e dúvidas. Uma talvez fosse atriz famosa, a outra uma jornalista consagrada. Os sonhos ali estavam, expostos à espera de alguém que os colhessem e acalentassem.

− Jorge? Como São Jorge do dragão?

Carla com os olhos bem abertos riu com a menção do nome e o amor eterno. Já a prima visualizava o seu Jorge sorrindo e lhe estendendo uma rosa amarela.

− O sonho é meu e ninguém tem nada com isso. – Soltou entre brava e sonhadora.

Carla apenas concordava com a cabeça, distraída demais com o vai e vem do balanço. O movimento acalmava suas ideias assim como riacho ao fundo, ditando um ritmo aos devaneios criados por Daniela. 

− Sim, ele se chama Jorge e me ama, somente a mim. Ama tanto que vale por duas vidas inteiras.

  Até mesmo a garota encolhida nos seus temores, de repente, esticou-se com a afirmação de Daniela. Entre ciumenta e admirada, sorriu, acatando as promessas do destino.

  − Ora, que seja Jorge então. Por mim, pode ser Pedro, Antônio, Paulo, Severino, tanto faz.

Que fosse por hora. Por aquele dia, ou no amanhã. Para quem não se arriscava no sonho, tanto fazia. Tanto fazia para Carla que nome tivesse os personagens. Não importavam as cores, a duração, o enredo do romance. Porque já estavam enterradas as chances de realização no fundo do poço do temor.

No entanto, havia esperança mesmo ali. Naquele parque de poucos brinquedos, naquelas águas minguantes. Embora Daniela fosse uma menina frágil, fortalecia-se ao defender seus erros e fantasias. Sabia que, cedo ou tarde, a vida revelaria à Carla um campo inexplorado onde a fé ainda faria morada.

Enquanto borboletas circulavam nos sonhos de Daniela, a outra menina calada suspirou e diante de tanta esperança começou a questionar seu céu sem estrelas. O resto da história, o tempo contaria. E contou.

Daniela, afinal, encontrou o seu Jorge, sem armadura, mas vestido de marinheiro. Moço alto, com a sombra fincada em duvidoso caráter, em poucos meses, estava dividindo contas e lençóis com Daniela. Nininha, como ele a chamava, sempre apaixonada, desdobrava-se em cuidados e carinhos. Se ela tivesse prestado atenção às tatuagens no corpo do amado, teria visto que o dragão expelia mais veneno do que fogo.

 Carla fora uma das madrinhas de casamento. Não entendia muito bem as razões daquele comportamento exacerbado da prima, mas ao se lembrar das conversas de menina, encontrou os vestígios de pólvora.

  ─ Ele me faz tão feliz, prima! ─ Dizia Daniela com exclamações no olhar.

Os anos seguintes trouxeram alguns lampejos de felicidade, um casal de filhos e vários hematomas. Daniela confidenciava à prima seus desentendimentos com o marido, sempre justificando seus ataques de ira. Para ela, tudo era só uma fase que passaria e o “happy end” continuaria garantido. Já Carla não tinha certeza alguma a não ser de que um dia o fim chegaria.

Poucas vezes, Carla conversara com Jorge algo além de um cumprimento educado. Havia nele algo que quase a entristecia, alguma coisa que não se encaixava no papel de herói que Daniela reservara para ele. Os olhos pareciam esconder algo, sempre piscando e não se detendo em ponto algum. Era um homem alto, forte, bonito para os padrões rústicos dentro do romance que lhe cabia. No entanto, existia um enigma, um desconforto rondando seus gestos e palavras.

 O ano 1988 chegou com novidades assustadoras. Foi quando o destino marcou Daniela com um corte na palma da mão e desfez sua linha da vida. Seis meses após completar quarenta anos, a mulher doce e sonhadora descobriu-se gravemente doente. Contaminara-se pelo amor, de uma forma que, até então, só a morte lhe prestaria juras. O médico pedira muitos exames só para confirmar a suspeita. Nada ainda confirmado, dizia Daniela com os olhos baixos.

Carla foi a primeira a reconhecer o destino. Soube antes mesmo de qualquer exame realizado. HIV, as três letras negando qualquer possibilidade de recomeço, de remake daquele filme sombrio. O dragão desfazia-se nas próprias cinzas, atormentado pelas sombras de uma vida paralela.  Sob o comando do vírus, que lhe atingia corpo e alma, Jorge não mais ostentava as armas e vestes do seu santo protetor.

O orgulhoso oficial abandonou tanto o mar quanto a vida pouco depois da confirmação da doença. O estigma de portador do HIV, lançou cavaleiro e dragão ao fundo de uma cratera sem fim. Não era mais um passeio na lua, era o fim. Desenhou-se, nos seus últimos dias ainda consciente, o cenário de uma vida engavetada em mistério. Não fora um homem feliz, talvez por não aceitar o que sua natureza lhe exigia. Carla percebeu o demorado olhar do Tenente Andrade sobre o corpo no caixão. Quem diria que os brutos também amavam!

Apesar de muito doente, Daniela manteve-se fiel à memória do marido e em nenhum momento comentou algo que sujasse as belas memórias que só ela guardava como reais. Carla deixou que a prima acalentasse seus sonhos, mas pôde notar uma mudança em Daniela. Passara a desconfiar dos motivos da frequente ira do marido. Por quanto tempo, ela ainda levaria aquele enredo de contos de fadas a sério? Os olhos de Daniela, poços azuis de tristeza, revelavam ainda a esperança de ter sido a única mulher na vida de Jorge.

 Assim, como em uma história narrada às pressas, naquela manhã, Carla seguira o caminho torturante para o enterro da prima.  Seus passos lentos e incertos camuflavam o luto aberto, misturando-se à multidão que chegava para prestar a última homenagem à mulher do Capitão Jorge dos Santos. Pessoas anônimas, desconhecidas e desimportantes, pareciam entoar uma canção silenciosa. E tudo o que Carla conseguira ouvir era o vento soprando as palavras: ele me faz tão feliz!

E agora, lá estava ela sentada no mesmo balanço do parque em que dividira risos e segredos com a prima. O vai e vem lento do brinquedo servia de consolo ao corpo que começava a sacudir-se em soluços. Tomando ar e coragem, Carla levantou-se, enxugou as lágrimas com as costas das mãos e ajeitou o vestido escuro que trajava.

Deixou uma rosa amarela sobre as águas do riacho que corria em sussurros, em respeito ao momento de luto. Observou a flor ser carregada, misturando-se ao líquido mágico da nostalgia.

Carla conseguiu, por alguns segundos, imaginar Daniela sorrindo e repetindo o quanto Jorge a fazia feliz. Despediu-se do olhar da prima, dos seus sorrisos e da sua vida encurtada pela doença. Segurando o choro e a bolsa com força, Carla abandonou o parque sabendo que ali não voltaria. Nunca mais teria o riacho para lhe lembrar dos sonhos escondidos no passado.

No adeus sem palavras, Carla despediu-se da prima, eterna menina, repetindo o seu refrão preferido: Ele me faz tão feliz!

9 comentários em “ÚLTIMAS ÁGUAS (Claudia Angst)

Adicione o seu

  1. Olá, Cláudia!
    Que história triste e tão semelhante a tantas que aconteceram naquela época, de início de uma nova doença para a qual não havia cura. E como há pessoas que buscam a felicidade de acordo com seus próprios olhos, encegados de uma verdade só delas. E nessa aposta de felicidade, tudo arriscam, a própria vida se preciso. Ouvi muitos relatos parecidos com sua história, por isso ela me remete a uma certa melancolia. Mas o texto está bem conduzido e o leitor segue desejando que ao menos depois de morta, Daniela tenha encontrado sua tão desejada felicidade. Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  2. Olá, Claudia. O texto é ambientado naquela época em que tantas, tantas histórias terríveis povoaram nossas vidas. O seu texto me falou mais sobre essa imprevisibilidade da vida que faz o que parece ser uma desvantagem acabar se configurando como uma enorme vantagem nas nossas vidas.. É um belo texto em que como sempre sua linguagem e estilo fazem toda a diferença. Beijos, querida.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Olá, Claudia! Lindo conto, com sua costumeira elegante assinatura. Seus contos a gente lê como se fossem bombons variados e preciosos: devagar, saboreando, cada parágrafo trazendo uma nova e delicada sensação.
    O tema, tão triste quanto verdadeiro, traz lembranças e até mesmo identificação: quantas de nós também não criaram ilusões que o tempo e a realidade destroçaram?
    Maravilhoso! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Uma história sensível de viva aderência com o mundo de autora madura, consciente, que vaga por estranhas sensações e condições de vida. Carla é a chamada da realidade; Daniela representa o sonho, a ilusão e, na ponta de suas palavras, Cláudia, vai nascendo o cenário estalante de seus personagens, que como uma ampulheta, vão se conduzindo para um final de filtrações, onde sentimentos e filosofias sobrepõem-se aos personagens.

    Uma história dura com estilo elaborado faz toda a diferença. Parabéns pelo texto. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Olá, Claudinha.

    Sua história é sobre três pessoas infelizes, todas as três por não admitirem a verdade. O epicentro que precipitou esta rede de enganos é Jorge, ao não assumir a sua orientação sexual, viveu uma relação ilusória com a esposa eternamente insatisfeita. Do outro lado a prima Carla, como um observador passivo de toda a situação, não conseguia revelar a própria paixão pela prima Daniela, e assim vive a solidão dos que amam em segredo. Sei que isso não está escrito no texto, mas eu juro que pensei que no fim do conto seria revelado.

    Um texto sensível e muito verossímil porque todo mundo já testemunhou uma história semelhante na vida. Parabéns pela sua história tão triste e cativante.

    Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  6. Triste não seguir o coração e a natureza inegável de nosso ser. Nessa vida, tão breve, tão passageira, tudo o que se deveria seguir no entremeio – entre a vida e a morte – é a felicidade. É uma história triste e tem seu motivo de ser. Parabéns pelo texto.
    Abraços carinhosos!

    Curtido por 1 pessoa

  7. Que triste… “A vida é muito curta para ser pequena” e mesmo assim, conseguimos a façanha de sermos infelizes e ainda acreditar que estamos perto da felicidade, através de desejos e fantasias de plenitude e perfeição, quando seria tão mais fácil apenas… ser. Bjs ❤

    Curtido por 1 pessoa

  8. Querida Cláudia,

    Tudo bem?

    A felicidade é um instante, o tempo presente, o aqui e o agora, e talvez por isso criemos tantas ilusões e fantasiamos sobre algo que poderia ser tão simples. Este conto de vida x morte, felicidade x desilusão, leva o leitor à reflexão acerca daquilo que realmente importa.

    Com sua verve sempre poética, você nos leva por muitos caminhos, obrigada.

    Feliz 2021.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: