Alter Ego Segunda Parte – Iolandinha Pinheiro

A visão daquele líquido nojento flutuando sobre a água do sanitário me causou um asco imediato, e uma preocupação que, em pouco tempo ocuparia de forma constante os meus pensamentos.

Saí do banheiro angustiado, e pensando se seria prudente procurar um médico. Considerei os problemas que surgiriam desta revelação e achei melhor aguardar os desdobramentos vindouros. Deitei-me, mas não conseguia dormir. Fiquei um tempo olhando para o teto, até que o cansaço me venceu.

Assim que acordei, no dia seguinte, fui direto para o banheiro para observar a cor da minha urina. Estava amarela e completamente normal e pensei que o problema do dia anterior se havia resolvido sem maiores percalços.

Fiquei tão feliz que resolvi sair para passear na praia com Adelaide. Preparamos alguns sanduíches leves, levamos champanhe e duas taças. Sentamo-nos próximos à parede de rochas, observando o respingo da espuma que as ondas lançavam. Era um lugar muito bonito. Bebíamos e brindávamos à nossa felicidade quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair molhando o que sobrara da comida. Juntávamos tudo, para embrulhar na toalha quando um pequeno cachorro se aproximou de nós. Não havíamos percebido a sua aproximação, talvez porque fosse amarelo, no tom exato da cor da areia.  

Saímos levando as coisas e ele nos acompanhou. Chovia bastante quando chegamos à casa. A tempestade se aproximava e o céu rapidamente ficava escuro. O vento batia as portinholas das janelas laterais e seu silvo me dava a impressão de ouvir o gemido dos amaldiçoados. Entramos, mas o pequeno cão permaneceu um pouco além das tábuas da varanda, olhando para a porta. Como se esperasse um convite.

Era uma figura tão vulnerável diante daquele enorme mundo escuro, que foi impossível para mim deixá-lo ali fora.  Adelaide fez uma sopa para todos nós. O cãozinho acomodou-se no tapete da sala e logo dormia enrolado e satisfeito.

– Vamos ficar com ele?

– Vamos sim, respondeu Adelaide, passando os dedos na cabeça do bicho. – Vai se chamar Tito.

Choveu durante toda a semana e só saíamos quando era mesmo imprescindível. Tito ficava olhando para fora pelo vidro da janela e não se interessava por ir vadiar pelo pátio, ou pela praia. Talvez pensasse que o seu ingresso em nossa família fosse algo ainda provisório, e que se saísse da casa não permitiríamos que lá entrasse novamente. Era um cachorro carinhoso e obediente.

No dia em que estiou, saímos os três felizes com aquele sol brilhando e colorindo tudo com a sua luz sagrada. Adelaide aproveitou aquela manhã radiante para ir ao mercado comprar algumas coisas para casa. Deixei a porta aberta enquanto abria correspondências no escritório e verificava cartas de cobranças e depósitos dos inquilinos.

Ouvi latidos cada vez mais altos lá fora e saí para verificar se alguém havia chegado e por isso Tito estivesse agitado. Assim que abri a porta vi, horrorizado, o meu cachorro cavando com empenho a areia no exato local onde eu havia enterrado aquele homem igual a mim. A raiva que senti na hora me provocou uma forte vertigem e minha vista escureceu. Não me lembro do que fiz neste espaço de tempo mas quando minha consciência retornou eu estava ajoelhado no chão ao lado de vários equipamentos e materiais de construção, passando uma última mão de cimento no local onde havia enterrado o morto.  

Adelaide já chegou perguntando o que estava acontecendo. Sorri para ela e falei que aquele piso era para colocar a casinha de Tito em cima.

– Mas ele não tem casinha.

– Vamos comprar uma para ele.

– E por que exatamente aqui? Com tanto lugar já coberto de concreto, porque neste pedaço do terreno com areia?

– Notei que ele gostava de ficar deitado aqui.

– Sério? Nunca percebi isso. Onde ele está?

– Está por aí pela praia. Saiu correndo para o lado das pedras, logo voltará.    

Terminei a pequena obra duvidando muito que Tito fosse reaparecer, Depois  subi para o banheiro e só então retirei a blusa de manga comprida que estava vestindo. Para minha surpresa havia uma larga ferida por onde minava aquele odioso líquido negro. Talvez Tito tivesse mordido quando eu o agarrei.

Pequenos flashes de luta voltavam para minha memória. Não podia deixar que ele continuasse cavando. Depois me vi nas pedras gigantes da praia, e o mar ameaçador lá embaixo, mas não era Tito que eu segurava. Era a mim mesmo.

Os dias passavam e Tito não voltava. Ainda assim comprei a casinha na cidade, e até coloquei uma plaquinha com o nome dele. Estávamos, eu e Adelaide sempre andando pela beira perto da muralha de pedra à procura dele. Eu realmente torcia para que ele estivesse ainda vivo, que tivesse apenas fugido de mim. Depois de um tempo, porém, comecei a sentir uma dor nas minhas pernas, e Adelaide ia sozinha.

O tempo agora trabalhava contra mim. Primeiro aquele líquido escuro que saía do meu corpo, depois as articulações falhando, e aí meu cabelo começou a cair. Para que Adelaide não percebesse, passei a usar chapéus, bonés, gorros e sempre apagava a luz antes de dormirmos. Mas ela acabou passando a mão na minha cabeça no escuro e percebeu o quanto os fios haviam rareado sobre o crânio. Adelaide insistia em irmos ao médico, mas eu me negava e dizia que era normal para os homens, a calvície.

Ela aceitava, mas nós dois sabíamos que eu era jovem demais para isso. A degeneração do meu corpo seguia implacável. Com a desculpa de sentir dores nas pernas eu saía cada vez menos de casa. Ao longo dos dias a carne perdia firmeza, os dentes amoleciam, e pequenas manchas apareciam sem que eu tivesse levado pancada alguma. Com o tempo as manchas intumesciam ao ponto da pele se romper e formar pequenas chagas sempre úmidas que se colavam no tecido da roupa que eu usava.

Vendo aquilo, minha esposa se apavorava e sem me avisar trouxe com ela um médico da cidade. Foi a primeira vez que brigamos seriamente. Estava saindo do banho com um dos muitos pijamas que agora usava o dia inteiro, quando o homem chegou. A primeira reação foi me trancar no quarto e esperar que o estranho fosse embora. Mas logo eles estavam batendo na minha porta e me mandando abrir.

Não abri e tive a minha primeira briga séria com Adelaide. Para evitar outras surpresas iguais àquela, mudei-me para outro quarto no qual ficava a maior parte do tempo trancado, com pacotes de biscoito e garrafas de água. No início ela ainda insistia, mas acabou se cansando e fazendo tudo em casa sem a minha ajuda. A solidão a fazia ficar mais tempo fora, com a própria família, com amigos. 

Peguei o hábito de espiá-la pela janela. Não me interessava o que ela fazia em casa. Mas sempre que saía ficava imaginando para onde ia e com quem conversava. Minha pele ficava cada vez mais esticada o que favorecia o rompimento de novas feridas. Meu corpo fedia. Mesmo tomando muitos banhos, o cheiro vinha de dentro, vinha da pasta preta que saía pelos poros, pelas chagas, que saía de mim cada vez que usava o banheiro. Estava me desfazendo em caldo escuro e ódio.

Numa destas vezes, vi um carro chegando lá embaixo. Era o carro preto e elegante de um vizinho nosso. O homem era um policial ainda jovem que havia ficado viúvo. Vi quando Adelaide saiu do carro e sorriu para o rapaz, despedindo-se demoradamente. Até aquele momento eu estava vivendo todo o processo de transformação com desespero e dor, isso é certo, mas todo o resto continuava ali, passando alguma segurança para mim, eu ainda acreditava que todo aquele pesadelo poderia ser revertido e eu voltaria a ser feliz com aminha esposa e o Tito. Ver o sorriso de Adelaide para outro homem foi como derrubar o castelo de cartas que eu mantinha a custo diante da realidade tempestuosa que eu insistia em não enxergar. 

A ameaça estava ali, na minha frente, surrupiando a chance de retomar minha vida. Passei o resto do dia pensando. Enquanto ouvia Adelaide cantarolar pela casa, feliz como não a via há muito tempo. Era preciso eliminar o concorrente. Não sabia ainda como, mas daria um jeito.

Aguardei um dia em que Adelaide passaria o dia inteiro fora. Não foi surpresa vê-la saindo com o vizinho, sabe-se lá para onde. Esperei alguns minutos e tomei um banho demorado, vestindo uma roupa de sair, para variar. Peguei ainda um velho sobretudo, calcei meus sapatos e parti para a casa de Roberto. Não era longe.

Ao chegar lá, entrei pela porta que ele costumava deixar só encostada. Morávamos todos em um lugar muito calmo. Revistei tudo tendo o cuidado de colocar cada coisa no lugar antes. Não havia nenhum vestígio da passagem de Adelaide naquela casa. Talvez eles não estivessem tendo nada mesmo. A surpresa que tive foi quando abri a porta novamente para sair, e dei de cara com meu vizinho que havia acabado de estacionar. Ao lado dele, o inimaginável. Encontrei Tito balançando o rabo e querendo pular em mim todo feliz.

Nem tive tempo de abrir minha boca, e ele já foi gritando comigo.

– Saia da minha casa! O que veio fazer aqui?

– Solte o meu cachorro!

– Para você bater nele de novo? Não! Vá embora!

– Eu não bati no cachorro, que história é essa?

Foi então que ele sacou o celular do bolso da calça e me mostrou imagens que me deixaram perplexo.

Continua

Link para a primeira parte: https://ascontistas.wordpress.com/2020/11/28/alter-ego-primeira-parte-iolandinha-pinheiro/

22 comentários em “Alter Ego Segunda Parte – Iolandinha Pinheiro

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  1. Que maldade, Iolanda! Quero saber mais, rsrsrs. Esperarei ansiosa. Ótima história, lembrei-me do livro “Os invasores de corpos” que li qdo era criança. Bjs ❤ ❤

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    1. Obrigada, Vanessinha. Deus abençoe vc e toda a sua linda família. Vou fazer o resto bem rápido e vejo quando poderei postar. Eu não queria fazer um final corrido Beijos e feliz natal.

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  2. Iolandinha, que suspense maravilhoso, não da para imaginar onde isso tudo vai parar. O que posso dizer é que está muito bom e que venha muitos capítulos para que eu possa assimilar um pouquinho da sua genialidade. Parabéns querida amiga e desejo felicidades.

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    1. Pelas minhas contas, só vai haver mais um capítulo. E eu prometo que serei breve. Muito obrigada, mais uma vez por vir aqui ler. Sabe o quanto aprecio a sua amizade. Tudo de bom e desejo felicidades.

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  3. Suspense e mistério cresceram. A escritora se vestiu de seus personagena, sentiu por eles, viu o mundo para e por eles; aprisionou o pensamento na magia, no sobrenatural e construiu uma trama diferenciada. Vamos aguardar, ansiosamente a continuação… Beijos.

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    1. Obrigada, minha querida. Suas análises são as mais esperadas aqui. Estou me decidindo sobre quem será o vilão. Tenho dois finais na cabeça e ainda não sei qual escolher. Uma coisa é certa, o final tem que ser muito trabalhando para não ficar corrido ou com uma solução mágica qualquer. Mais uma vez agradeço às suas lealdade, amizade e bondade.

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  4. Estou adorando a sua história, mesmo com nojo desta transformação tão bem descrita e com pena do coitado do Tito. Seu conto me fisgou logo no primeiro capítulo e eu quero mais. Você manda muito bem Iolandinha. Ansiosa pelo próximo. Parabéns.

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    1. Revelações e reviravoltas esperam por vocês em meu próximo capítulo. Acho que vcs vão curtir e se surpreender com o final que talvez eu escolha. Isso não foi definido ainda então tudo pode acontecer. Obrigada sempre.

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  5. O que ele é? Um metamorfo? Espero que Tito não volte para ele. E que a companheira escape do pressentimento que tenho. Ótimo suspense e nas suas mãos hábeis, nos deixa apreensão e dúvidas com relação ao próximo capítulo.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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    1. Olá, Evelyn! Talvez ele seja uma outra coisa que nem passa pela cabeça de vocês. Talvez ele nem seja o vilão, quem sabe? Vamos aguardar pelo próximo e quem sabe último capítulo que virá com muitas emoções, beijos.

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  6. Ah, mas isso não se faz mesmo! Já me deixou ansiosa lá atrás, e agora de novo?!
    Estou esperando uma reviravolta, será?
    Muito bom, intrigada aqui pra saber o que vai acontecer!
    Parabéns, beijos!

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    1. Já defini o final e vai ser um plot twist grande, espero que gostem. e a novidade é que vou correr para publicar esses dias, e não deixar para janeiro, que nem eu aguento esperar tanto. Beijão. Obrigada pela sua simpatia. Você é ótima.

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  7. Oi, Iolandinha!
    Você é fantástica escritora de suspense e terror, soube disso desde a primeira vez que li um texto seu (e poesias também, enfim, gosto de tudo que vc escreve rs).
    É, o protagonista parece padecer na pele (literalmente) o “mal” que acomete seu alter ego, ou vice-versa, mas com certeza essas necroses têm origem imagino onde e como…
    Pobrezinho do Tito, porém, mais uma vez, desconfio do óbvio e aguardo pelas surpresas do impensável…
    Aguardando o 3º….beijinhos!! ❤

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    1. Querida, posso garantir a você e a todos os demais leitores, que o final será surpreendente. Nada é o que parece ser. Ah, também já amo o Tito. Tiro era como eu chamava o Petit, meu cachorro que morreu, algumas vezes. Petit – Petito – Tito. Ele entendia e vinha para mim. Obrigada pela leitura atenta e para o comentário tão generoso. Sempre uma alegria receber meus amigos aqui.

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    1. Pois é. É difícil concluir meus contos. Começo e depois fico doidinha para criar a trama e o final. Tem que sem impactante, nem sempre é, mas eu morro tentando. A notícia boa é que não vai custar muito para o desfecho que já está sendo produzido. Muito obrigada por pular as meninas lindas e vir direto para cá. Essas coisas me devolvem a fé que estava abalada na minha capacidade de escrever algo que as pessoas gostem.

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  8. Ufa, ainda bem que a última parte já está disponível para leitura. Só assim não vou morrer de ansiedade para saber o que aconteceu com os personagens incluindo o Tito. Ainda bem que o doguinho não morreu. Vou lá ler tudinho até o final. Parabéns pela capacidade de criar uma trama de suspense tão bem amarrada. ❤

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    1. Obrigada, meu docinho de quindim. Que bom saber que está gostando. Suas visitas são muito bem vindas. Sua generosidade é encantadora. Não vou falar muito para não dar spoilers. Só tenho a agradecer e abraçar. Feliz natal.

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  9. Querida Iolanda,

    Aqui estou eu na parte 2. 😉

    Agora, já nem tanto quanto ao duplo, a sensação que restou foi a mudança comportamental do personagem com seu cão. Cena forte na condução de uma história que segue muitíssimo interessante.

    Parabéns!

    Feliz 2021.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Pensei em matar o doguinho, ou fazê-lo sofrer, mas seria muita sacanagem. Vou parar de matar bichinhos para arrancar lágrimas das pessoas, isso não se faz.

      Menina, poderia falar muito mais, mas estou ficando com sono. Beijos e Deus abençoe vc pelo ano todo.

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