O Apagão – Fheluany Nogueira

Um grito ecoa e a escuridão engole a vizinhança de uma só vez.

Mastigo a última garfada de comida que havia levado à boca, enquanto Mário corre para desligar a televisão. Sorte não existir nenhuma mesa ou cadeira que lhe tornasse o caminho perigoso.

 Assim não dá pra comer! (Ele)

Nossas noites sempre são sossegadas. Meu marido devia antes agradecer essa quebra de mesmice, mas reclamar é do humano.

Será que vai demorar?

Eu que sei? Não vejo nada. (Ele, voltando ao sofá.)

Por um momento, aguardamos o milagre. Como se o blecaute fosse um piscar de olhos: a luz nem bem sumiu, já reapareceria.

A escuridão continua.  Os olhos vão se habituando. O silêncio se debate, como um coração, ou dois, entre as paredes.

Meu celular está descarregado. #@**$%! (Ele)

Ih, o meu também. Vou buscar uma vela.

Sobra-me serenidade, para acalmá-lo. Mas, se ele tem pavio curto, a quantidade de pólvora é mínima. Furioso num instante, resignado no outro. Nesta noite, ele tem um pouco de razão, ninguém fica satisfeito com o inesperado.

Não precisa. Perdi a fome. (Ele)

A luz dos faróis de um carro na vidraça revela um vulto que olha a massa de purê e brinca com pedaços de carne. Eu, aproveito para esgueirar pelo corredor, medindo os passos, como uma equilibrista, olhos abertos, mas vendados, o prato em uma mão vacilante.

As duas faces ansiosas, já de volta ao escuro.

Na cozinha, coloco o prato sobre a pia e, busco pela caixa de fósforos, tateando. Não a encontro, e o que me toma é a lembrança de lápides, a sensação de morte. Ele reclama na sala:

Diabo! ≈∆≠¨*#!

Eu, sim, deveria me impacientar. Com a privação da luz, não poderei arrematar as costuras do Natal para o dia seguinte.

Sei o que falta e o que sobra em casa.  Logo acho a caixa de fósforos, risco um palito. Abro uma gaveta do armário. Ali há um maço de velas, não para emergências como a de hoje; para louvar Santa Rita, de quem sou devota, desde menina.

Antes que o palito se queime inteiramente, passo o fogo para o toco de vela. Atenuam-se as sombras. O escuro é detido, não dominado.

Estamos os dois, marido e mulher, novamente sentados no sofá, o prato nas mãos. A comida não esfriou, embora seu sabor tenha se alterado, para melhor: jantamos à luz de vela.

Mário, mais sereno. Eu levo o garfo à boca e o observo furtivamente. Há pouco assistíamos tevê, distantes um do outro e, de súbito, eu posso sentir a respiração dele, escutá-lo mastigando comida, os dentes afiados. Apesar do mau humor, ele come com prazer. Uma atmosfera acolhedora.

A vela, grudada a um pires, feito uma coluna em ruínas, derrete. A chama projeta na parede duas sombras, estremecidas, que a um gesto parecem se fundir numa única.

Há muito não ficamos assim, juntos e quietos, um a medir o silêncio do outro, jantando sem a interferência das notícias, voltados um para o outro, não para uma tela.

A gente comendo à luz de vela. É até engraçado!

Não vejo graça nenhuma. (Ele resmunga.) Se a luz não voltar, vamos tomar banho frio. M**#$!

Vai voltar. Tenho encomenda pra amanhã.

Pode esquecer. (Ele)

Às vezes a luz vem rápido. Quem sabe dá até pra pegar o finzinho do jornal.

Outro carro irrompe. Recolho os pratos. Deixo a vela para meu marido, acendo outra na cozinha. Lavar louça é tarefa difícil à meia-luz, mas poderia realizá-la de olhos fechados.

A vela da sala logo se junta à da cozinha. Sem o que fazer, Mário vem me ajudar. Para minha surpresa, ele pega do pano e vai enxugando talheres e louças.

Onde ponho isso? (Ele, escumadeira nas mãos, sem saber a utilidade.)

Ali, naquela gaveta. Aponto com as mãos ensaboadas.

É. Acho que a luz vai demorar…

Já me conformei. Vou perder o jogo do São Paulo.

O escuro me lembra a infância. Faltava luz quando chovia. Minha mãe queimava ervas pra Santa Rita.

A minha contava histórias. Mexia as mãos e na parede saía tudo quanto é bicho.

Eu morria de medo.

Eu também.

Parecia o fim do mundo.

A gente ia pra cama mais cedo.

Tomava banho de bacia.

Ele sorri, eu também.

Faltam só duas panelas e a cozinha logo estará em ordem; com um ajudante, mesmo desajeitado, vai-se mais rápido.

Se quiser banho quente, posso ferver um caldeirão de água

Mário fica calado. Com o pano de prato entre os dedos, ele abre a porta dos fundos e o pendura no varal. Eu vou em sua direção. O ar úmido é como seda no rosto. Uma luminosidade se insinua acima do muro e, só quando ergue os olhos, ele descobre, admirado, as estrelas pulsando no espaço:

Deus! (Ele)

Nossa! Nem sonhava mais com isso.

 As duas velas queimam na pia, nós observamos os astros.  Mudos, crianças girando a cabeça para ver as estrelas.

A última vez que vi um céu assim, a gente tinha começado a namorar. (Ele)

Lembro bem. Foi na varanda de casa. Você declamou um poemaVi uma estrela tão alta, / Vi uma estrela tão fria!…

Conheço bem meu marido. Está me recordando aquele que despertou minha atenção no passado.

Voltamos para a cozinha. Ele fecha a porta, eu vou enchendo o caldeirão de água. Mário apanha uma das velas e se enfia pelo corredor. A chama vai desenhando nas paredes, que já retornam à escuridão.

No quarto, escuto-o abrir o guarda-roupa e algo que se desprende lá do fundo. Vai cair no assoalho, penso. Dito e feito. Ao ruído da madeira contra o piso sucede o alegre retinir das cordas do seu Gianinni.

Em boa hora vem este violão. Se o dono não vai até ele, eis que o próprio se move.Imagino meu marido recolhendo o instrumento, a vela ardendo apoiada no pires sobre o criado.

Eu, à beira do fogão, zelo pela água. Há quanto tempo ele não me canta uma música?  

Esqueço-me da costura para o dia seguinte. Controlo a fervura no caldeirão e em outra panela que levei ao fogo. O terceiro pires, com um toco de vela a arder, vai da mesa na cozinha, para a borda da banheira. Vou misturar as duas águas, a fria primeiro, jato de torneira e, em seguida, a fervente, do caldeirão.

Tá pronto!

No quarto, Mário recosta o violão na cabeceira da cama. Ele se despe devagar. Três velas clareiam suas espáduas. Eu, refletida no espelho, tanto quanto as chamas que tremulam, vejo-o deslizar pela banheira. Contração na face, a água a lhe ungir o corpo.

Muito quente?

Não.

Vou ferver mais um caldeirão!

Desde que compramos a casa, ele reclama da banheira. Quer substituí-la por um boxe. E, com certeza, agora experimenta nela uma inesperada sensação de abandono, como se a solidão lhe cutucasse, pois:

  Lina!

Inclinada sobre o fogão, ouço o chamado, mas me mantenho imóvel: sabia que seria chamada de novo, e de fato ele o fez:

Por que não vem?

Fui. Três chamas tremulam juntas, sombras por todos os lados, mais parece um altar esse banheiro silencioso.

Desnuda, ligeira, entrei na banheira, pela extremidade oposta, para não incomodar, e ficar à frente dele. Apesar da leveza dos gestos, a água morna rumoreja. Mário, mesmo com os olhos cerrados, afasta as pernas para que eu me encaixe.

Sinto cócegas nos pés e os movo com suavidade, roçando-lhe o ventre sem querer. Ele abre os olhos: sob a água que esfria, as minhas coxas apertadas.

Começa outra noite: o desejo cresce, os braços se apertam, os corpos se entendem, e o chão se molha.

Depois Mário me ajuda a arrumar o banheiro — segunda cortesia da noite.

Duas velas já agonizam e, antes que se apaguem, cumpre acender outra e levá-la à sala. Envolvida numa camisola, sento-me no sofá. A casa permanece em ordem, cada coisa em seu lugar, exceto a costura, mas até onde vai minha culpa se faltou luz?

Segurando um pires, ele se enfurna pelo quarto, volta metido em seu pijama; na outra mão, o violão. 

Vai tocar? Nem no claro se descobriria que meus olhos sorriem.

Em boa hora vem este violão. A última vez que ele tocou foi há um ano, mais pelo ócio que pela paixão.

Vacila a silhueta de Mário com a luz das velas, mãos apoiando o violão na coxa. Por alguns minutos, ele se ocupa em afinar o instrumento. Gira as tarraxas, estica uma corda, afrouxa outra, inclina-o, recoloca-o na posição inicial, braço contra braço. O toque agora é diferente, não como antes do banho. Depois de percorrerem meu corpo, os dedos se tornaram mais habilidosos.

Ao longe, a sirene de uma viatura. Mais um automóvel rasga a rua ao lado. A sombra na parede revela apenas um homem e seu violão. E ele o dedilha, compenetrado; é a abertura de uma canção de Jobim. Sofrível, diriam os entendidos, essa performance, mas não teria graça nenhuma se em seu lugar estivesse Djavan.

Uma nota puxa outra e outra. De uma, o homem vai a outra. A primeira, só melodia. A segunda, acrescida de canto, mas voz única. A terceira, e as seguintes, duas vozes desafiando o apagão.

Os dois cantamos, esquecidos do jornal, do futebol, das agulhas, do blecaute. Percebemos, mas não nos importamos, que uma das velas se apaga, as sombras crescem ao redor, ameaçando engolir tudo. Delícia o torpor!

A segunda vela está quase no fim. Eu poderia ir à cozinha apanhar outra. Mário para beber água. Mas não, uma canção natalina já foi iniciada. As posições no instrumento ele conhece de olhos fechados. Eu sei a letra. Ele me ensinou, tantas.

E, então, submersos no escuro, continuamos a cantar…

  • Da série EPIFANIA.

20 comentários em “O Apagão – Fheluany Nogueira

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  1. Olá, moça bonita. Tudo bem com você? Gostei do seu conto, mostra uma face das pessoas que geralmente não vemos, o momento de conviver com a falta de energia. Agora mesmo, para fazer este comentário estou usando três coisas que necessitam de energia: Meu ventilador, meu computador, minha internet. Mas o casal de sua história percebe ou se lembra que há formas interessantes de usar este tempo fazendo coisas que há tempos não faziam. Um texto que mostra o quanto somos dependentes de estímulos externos mas não nos damos conta disso, até que eles desapareçam em face do apagão. Bom texto para refletir.

    Beijos, amiga e parabéns.

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    1. Grata pelo retorno e, sobretudo, pelo carinho. Já passei muitas noites sem eletricidade e nem faz muito tempo. Rsrsrs. Esta história é inspirada em fatos reais: um casal de tios, moravam na roça e viviam com problemas de luz elétrica – então, cantavam modas de viola. Beijos.

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  2. Que lindeza! A narrativa fluindo devagar, conduzindo a gente por essa casa, nos fazendo voyeurs desse casal que nos é tão familiar: poderia ser eu e meu marido, minha mãe e meu pai, minha avó e meu avô…
    Para mim, a literatura só encanta quando cria algum tipo de identificação, ainda que sutil, e aqui a identificação foi total. Realmente precisamos às vezes do silêncio para apreciar a música, da distância para apreciar a presença, da escuridão para apreciar a luz que o outro emana. Gostei demais, obrigada por este presente de Natal! 🙂

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  3. Olá, Fátima. Gostei demais do ritmo do seu conto. Soa até mais lento do que a história narrada. Muito interessante o efeito. Faz por tornar a observação desse casal tão comum algo especial pela intimidade com que dele nos acercamos. Você sempre surpreendendo, a mim pelo menos. Parabéns! Um beijo grande.

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    1. “A poesia / tem tudo a ver / com tua dor e alegrias, / com as cores, as formas, os cheiros, / os sabores e a música / do mundo.” Todas as vezes que escrevo tenho em mente as palavras do professor Elias José, da época da faculdade. Obrigada pelo feedback positivo. Beijos carinhosos.

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  4. Aqui sempre acaba a luz quando chove e é uma dificuldade entreter as crianças sem internet. Mas é bom por um lado, porque a família se reúne nem que seja para reclamar rsrsrs. Incrível a capacidade que você tem de relatar de forma tão bonita e verdadeira coisas simples do cotidiano, parabéns! Bjs ❤

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    1. Minha irmã botou fogo em nosso armário embutido ao buscar roupas com uma vela. Foi ruim porque foi muito perigoso e ficamos sem roupas; foi bom porque ganhamos um monte de roupas novas. Bem, isso é outra história. Grata pelo retorno e gentileza. Beijos.

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  5. Gente! O que foi isso!? Criatura… comecei a me arrepiar e não teve jeito. Essa foi a história de amor renascido na escuridão forçada mais romântica que li nos últimos tempos. Fez pensar nos distanciamentos nos quais mergulhamos sem nos darmos por conta. Tanto sentimento perfeito pela nossa pura falta de visão. E que contraponto! O amor que é luz de vida crescendo na escuridão; se fazendo notar, revivendo em corações quase esquecidos. Eu amei! Obrigada por trazer para nós esse conto maravilhoso.
    Beijos e abraços carinhosos.

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    1. “A poesia / – é só abrir os olhos e ver – / tem tudo a ver / com tudo”: versos de Elias José, meu professor de Literatura, cinquenta anos atrás. E, busco isto até hoje. rsrsrsrs Obrigada Evelyn pela atenção e carinho. Arrepiada fiquei eu ao ler seu comentário. Beijos.

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  6. Quanta sensibilidade para transferir para as palavras a profundidade de um momento a sós, às cegas. Belíssimo trabalho de composição, o retratar de um recorte cotidiano. Às vezes, precisamos da escuridão para que a luz se faça presente. ADOREI.

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  7. Querida Fátima,

    Tudo bem?

    Que ótimo texto sobre a maturidade e as verdades da vida em meio, A metáfora do apagão é perfeita. Um momento de reaproximação do amor na maturidade. Lembrou-me um conto da Lígia Fagundes Telles em que ela fala de quando o marido traz peixes para casa, querendo falar de amor.

    Muito bom mesmo!

    Parabéns e Feliz Ano Novo!

    Beijos
    Paula Giannini

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  8. Nossa, que delicadeza seu conto Fátima! A cadência que vc dá no texto, com as frases curtas, que ainda assim dizem tanto sobre os personagens. Muito bem construidos, as imagens, os silêncios. Frases muito bem lapidadas, esmeradas na construção, como “Há muito não ficamos assim, juntos e quietos, um a medir o silêncio do outro, jantando sem a interferência das notícias, voltados um para o outro, não para uma tela.”. Isso diz tanto. Eu gostei demais mesmo!

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  9. Olá, Fátima!
    Menina, que conto cheio de encanto é esse? Ele me arrebatou de verdade. Com uma cadência ritmada vc vai nos apresentando os personagens, a situação e vai nos fisgando para dentro desse enredo primoroso com a maestria de uma grande escritora.

    É preciso nos perdermos de nós para nos acharmos, não? É preciso a escuridão para se fazer a luz. É um conto excepcional, uma epifania retirada de um cotidiano comezinho, à la Clarice. O amor que é reencontrado à custa de um blecaute. Magistral, Fátima! Parabéns efusivos!

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