Sonhos de Natal – Vanessa Honorato

Nem sei quantas vezes peguei essa mesma rodovia em véspera de Natal. Todo ano a mesma coisa. Meus avós viviam no interior e era na fazenda que todos os anos nos reuníamos. Contando com meu pai, eram seis irmãos, quatro mulheres e dois homens. Cada um deles tinha dois filhos, totalizando doze primos, mas eu só gostava da Clarisse. Talvez por termos quase a mesma idade sempre nos demos bem. Ítalo vivia nos perseguindo e irritando. Estragava as brincadeiras de esconde-esconde quando ficávamos no mesmo armário, interrompia nossas conversas confidenciais, vivia tentando beijá-la. Delatei-o várias vezes para vovó que o colocava de castigo, mas no fim terminávamos todos correndo e brincando de novo.

Esse ano as coisas estavam diferentes. Eu acabara de completar vinte anos, mudei-me para um apartamento e pela primeira vez vivia só. Meus pais e meu irmão foram para a fazenda alguns dias antes, para ficar mais tempo com meus avós. Eu já saí em cima da hora, e quando estava perto de chegar, começou uma chuvinha fina, mas constante. Estacionei o carro e desci carregando as sacolas com os presentes de todos. A família já estava reunida ao redor da lareira, tomando vinho e contando as novidades. Cumprimentei todos e recebi muitos abraços.

Então eu a vi. Clarisse estava de pé, segurando o bebê de Ítalo que havia se casado há um ano. Meu coração bateu acelerado, como sempre acontecia quando eu a via. Deixei as sacolas no chão, perto da árvore de Natal e fui caminhando lentamente, sem tirar meus olhos dela. Então ela me viu. Clarisse sorriu. Seus olhos demonstraram a alegria de também me ver. Devolveu o bebê para a mãe e veio em minha direção com os braços abertos. Ela me abraçou e eu fechei os olhos, inspirando o cheiro maravilhoso de seus cabelos. Queria que o tempo parasse ali, que eu pudesse permanecer assim, sempre junto dela. Mas Clarisse me soltou.

— Como vai você? — perguntou. — Nossa, como eu estava com saudades!

— Estou bem, na luta de cada dia. Também senti saudades, Clarisse. Você ficou de me visitar e nunca apareceu. — Aproveitei para dar uma alfinetada.

— Muitas coisas aconteceram, no fim não tive tempo. Acabei deixando aquele emprego horrível que eu tinha e estou me dedicando à pintura.

Clarisse e eu nos sentamos na varanda e ficamos meia hora contando as novidades e mudanças de nossas vidas. Quando suas mãos tocavam as minhas, um frio percorria meu estômago e eu sorria sem graça, com medo dela perceber. Havia algo diferente nela, em seu olhar. As vezes começava a dizer alguma coisa e se calava.  

Vovó nos chamou para a oração e ficamos todos de mãos dadas. Sentir os dedos de Clarisse entrelaçados aos meus levou-me de volta ao passado, quando nos escondíamos no armário e ficávamos trocando carícias silenciosas, sem malícia, apenas crianças que se gostavam. Todavia agora eu entendia o que sentia, mas não podia dizer. O medo nos paralisa, nos entorpece, mas também nos protege.

Sentamos todos à mesa e ceamos. Na hora da troca de presentes, dei a Clarisse um conjunto de pincéis e tintas. Não sabia que ela havia retornado à prática, mas sabia muito bem que amava pintura. Ela ficou muito feliz e me beijou a bochecha, um beijo mais demorado que o costume. Clarisse me deu um livro antigo de filosofia, ela também não havia se esquecido do que eu gostava. As crianças foram comer bolo e doces, enquanto os adultos começaram a beber e a falar cada vez mais alto. Clarisse disse que queria me mostrar uma coisa e subimos para o quarto de hóspedes onde estava sua mala.

Entramos e ela fechou a porta, finalmente silêncio para conversarmos. Sentei-me na cama enquanto Clarisse mexia em sua mala. Retirou um embrulho e me entregou sorrindo.

— Pensei muito em você nos últimos meses — disse.

Abri o embrulho e havia uma imagem minha pintada à mão.

— Nossa, Clarisse. Isso é lindo. Quer dizer, a pintura, não a figura nela representada — sorri. — Há tantos detalhes, meus cabelos no lugar certo de cada fio despenteado, meus olhos, sobrancelhas, até a pintinha no canto da minha boca! Você realmente é uma boa artista, se lembrou de tudo!

— Na verdade não é porque sou boa artista, é porque não me esqueci de nenhum detalhe seu. Contei cada dia dessa semana para poder te ver novamente.

Ela me pegou de surpresa e a olhei sem ter certeza do que falar.

— Também senti sua falta. Quis te ligar muitas vezes, mas não tinha certeza se você queria conversar comigo…

Clarisse se jogou em meus braços e me beijou. A primeira vez que seus lábios tocaram os meus. Senti o cheiro doce do seu perfume e o macio de sua pele. Ela sentou-se no meu colo e me abraçou apertado, puxando meus cabelos recém cortados.

— Eu te amo, sua boba. Sempre amei. — Clarisse disse e percebi que seus olhos se enchiam de lágrimas.

Afastei-a e segurei firme em seus braços.

— Você tem certeza do que está falando? — perguntei.

— Sim, Melissa. Eu não entendia isso que sentia por você. Relutei por muito tempo, mas hoje não sou mais aquela criança. Sei bem o que eu sinto, e sei bem o que você sente. — Clarisse sorriu e eu não pude evitar as lágrimas que já caíam em meio ao meu sorriso.

Tudo mudaria dali para frente. Sabíamos que não seria fácil viver esse amor. Decidimos descer e não dizer nada a ninguém por enquanto. Mas na manhã seguinte, voltaríamos juntas para casa.

10 comentários em “Sonhos de Natal – Vanessa Honorato

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  1. Olá, meninas. Tentei trazer um conto leve para esse fim de ano terrível. Não sou de escrever romance, espero não ter entediado muito vcs. Bom 2021 e boas festas (em casa!). Abraços ❤

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  2. Olá, Vanessa! Como você foi habilidosa em ocultar o gênero do narrador! Perfeito! Uma leitura fluida, delicada, que mais sugere do que mostra… tudo muito bem construído e arrematado lindamente! Adorei! Parabéns!
    Toda a felicidade – e força, nestes tempos difíceis! – às suas personagens!
    Beijos!

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  3. Que delicadeza em cada detalhe. Suspeitei da revelação desde o começo, mas não vou dar spoiler. Muito lindo este conto de amor, em que a relação, o entendimento sobre o que acontecia foi sendo construído com suavidade e vc sabendo esconder com muita inteligência um detalhe que torna tudo diferente, não é? Parabéns pela destreza e pela escrita impecável. Beijos e obrigada pelo conto de natal doce e lindo.

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  4. “Então é Natal / E o que você Fez? / O ano termina / E nasce outra vez” É a vida a cada ano renovada… E, na sua história, Vanessa,é explorada a temática do homossexualismo, entretanto sem a primariedade dos clichês. Até assusta, a princípio, mas não passa disso. A narrativa se firma com perspicácia, desenvolvendo o sentido do conto com leveza. Dando ao assunto a aura de grandeza que o tema carece e o espírito dos milagres de Natal.

    O texto traz algo de intimista e convida o leitor a vislumbrar a premissa a partir do ponto de vista da protagonista, personagem forte, cheia de nuances e criada com a segurança de quem sabe o que faz.

    Muito bom trabalho. Um grande abraço. Boas festas para você e os seus. 💖

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  5. Seu conto é delicado e nos remete ao quão espiralado o universo é: cheio de idas e vindas, e apesar das voltas, acabamos no mesmo ponto: no sentimento que não morre, que se intensifica no encontro. É isso é lindo e vale tudo!
    Parabéns pelo texto.
    Abraços carinhosos

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  6. Um lindo conto de amor natalino. A narrativa leve e doce prende a atenção e o desfecho me fez sorrir. Muito bom!

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  7. Querida Vanessa,

    Tudo bem?

    Que escolha perfeita para o ponto de vista narrativo. O que há aqui de diferente? Nada. E tudo. Você descontrói as imagens criadas pelo seu leitor no final do texto e o obriga a voltar para reviver o romance. Perfeito.

    Parabéns.

    Beijos e Feliz 2021, amiga querida.

    Paula Giannini

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  8. Que inteligente, Vanessa. E tão eficaz. Ainda por cima com um subtexto, ao surpreender-nos ao final com a revelação dos gêneros dos primos enamorados, uma mensagem sutil: amor é amor, o resto não importa. Muito bom, querida. Um Feliz 2021 para você. Beijo carinhoso.

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  9. Olá, Vanessa!
    vc nos brinda com um texto de recomeços, tão significativo em momentos difíceis como esses que vivemos. Vc engana o leitor até revelar o gênero do narrador ao final. Belíssimo! Parabéns!

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