O Melhor Lugar do Mundo – Giselle Fiorini Bohn

No meio da noite ele vem. Abre a porta devagarinho, os pequenos pés se esforçando em não quebrar o silêncio na transgressão. No meio de nós ele se aninha, a cabeça roubando um cantinho do meu travesseiro. Ele me beija o rosto enquanto uma das mãozinhas quentes procura a minha. No meio da noite e no meio de nós, ele adormece novamente.

Pela manhã, eu reclamo. Faz parte da farsa; você precisa dormir na sua cama, já está grande. Mas eu gosto tanto daqui, ele diz, a sua cama é o melhor lugar do mundo.

O melhor lugar do mundo.

Eu simulo um desagrado, bufo, viro o rosto pro outro lado e escondo o choro. Pois lembro que antes dele vieram os outros dois. Ele e ela.

O primeiro também vinha com passos leves e movimentos lentos, e também procurava minha mão. Mas já faz tanto tempo, tanto, que quase me esqueci. Só mais esta noite, por favor, deixa, só hoje. E eu quase sempre deixava. Mas teria deixado mais, se soubesse que um dia precisaria mais dele do que ele de mim. Pois agora ele dorme muito longe, e beija outra face e procura outra mão; sua própria cama é o melhor lugar do mundo.

A segunda não vinha em compasso nenhum; era ela quem me chamava, noite após noite, e nem faz tanto tempo assim. Deita aqui, não quero dormir sozinha, fica aqui comigo. E eu quase sempre ficava. Mas teria ficado mais, se soubesse que logo precisaria mais dela do que ela de mim. Pois ela dorme aqui pertinho, mas é como se estivesse em Vênus. Não saem mais beijos dos seus lábios; só resmungos, e, vez ou outra, uma declaração de desprezo. Isso vai passar, como foi com o primeiro, mas, quando esse dia chegar, será também sua própria cama o melhor lugar do mundo.

Só restou ele. E não virá mais ninguém quando ele não mais vier. Eu gosto tanto daqui, ele diz, deixa eu ficar aqui com vocês. E eu deixo, porque já preciso dele mais do que ele precisa de mim.

E não digo, mas sei, que só quando ele vem e se deita ao meu lado e me beija o rosto e coloca sua mãozinha macia sobre a minha e fecha os olhos, é que minha cama se torna o melhor lugar do mundo.

22 comentários em “O Melhor Lugar do Mundo – Giselle Fiorini Bohn

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  1. Texto lindo, sensível, emocionante. É incrível a sua capacidade de condensar emoções em um texto curto, porém imenso em seu alcance. Só tive um filho e ele já está adulto. É raro ele querer dormir na minha cama, mas quando eu menos espero, acontece. Ele diz que é muito melhor que a dele. Deve ser, e fica muito mais confortável quando ele está aqui, tão entregue, tão cheio da singular inocência do sono, que iguala todos nós em uma serena docilidade. E então ele volta a ter dois anos, volta a ser meu bebê querido, aquilo que eu mais amei e amo em toda a minha vida. Seu texto alcança corações e transmite essa ternura inata que vc traz dentro de si, e espalha tão generosamente entre amigos e familiares. Acho que me apaixonei por este texto. Parabéns.

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    1. Oi, minha querida!
      Que bom que você gostou, fico muito feliz! 🙂
      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário tão doce!
      Beijos!

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  2. Um texto em que o espírito criador revela seus mecanismos na percepção dos relacionamentos com os filhos. É difícil ser fiel aos filhos, e você é. As suas palavras me fizeram ver o complexo universo da educação das crianças que tentam viver nesse mundo que nós, adultos, estragamos dia a dia. O texto é um propulsor para olharmos o mundo com mais investigação.

    As repetições são um recurso valioso ao retratar a circularidade da vida e você as usou com mestria, ao produzir iconia, criar regularidade, ritmo, atmosfera, ênfase que enriquecem o texto. Gosto deste olhar cuidadoso e sensível que você, Giselle, tem com o mundo.

    Parabéns pela forma inteligente e delicada com que disserta acerca de questões corriqueiras. Beijos.

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    1. Olá, Fátima!
      Fico sempre muito feliz com sua leitura tão atenta aos detalhes!
      Muito obrigada pelo comentário tão querido!
      Beijos!

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  3. Ah, que texto lindo. Quanta sensibilidade, Giselle. Fiquei imaginando o rostinho desta linda criança vindo todas as noites no quarto dos pais buscando aconchego. Este texto também me fez lembrar da minha infância e de como era bom deitar na cama dos meus pais, sentir o cheirinho deles. Amei! Parabéns.

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    1. Oi, minha amiga querida!
      Que alegria é ver você sempre me apoiando, esteja eu onde estiver!
      Muito obrigada! Te amo! Beijos!

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    1. Oi, Fernanda!
      Então não fui a única a chorar! Pensei que não ia conseguir terminar, porque quando olhava pro texto já começava a minha choradeira…
      Obrigada, minha querida, por tudo! 🙂
      Beijos!

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  4. A sincronia dos fatos. Hoje mesmo, minha filha (18 anos e mais alta do que eu), estirou-se na diagonal da minha cama. Disse que minha cama é melhor do que a dela (claro, a dela é de solteiro, e a minha tamanho Queen) e mais gostosa. E eu falei – cama de mãe é sempre melhor – porque lembrei que eu também me estirava na cama dos meus pais (mas na ausência deles).
    Acho que é isso, cama de mãe é uma volta ao útero, um ninho que sempre nos acolhe. Seu texto traz lembranças que mais uma vez se mesclam com as de quem o lê . Talento de entrar na sintonia da alma do outro, da outra, de todos… Parabéns!

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    1. Oi, Claudia!
      Perfeita sua analogia: cama de mãe é uma volta ao útero… amei isso!
      Até num simples post você tem essa sua elegância característica com as palavras! Admiro demais!
      Muito obrigada pelo comentário tão rico e delicado!
      Beijos!

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  5. Olá, Giselle!
    Uma das coisas que admiro em você, como escritora, é sua capacidade de criar uma epifania com o cotidiano, tal qual Clarice Lispector, dando aos atos comezinhos do dia a dia de uma mulher a singularidade que faz um escritor grandioso.
    Seu texto é sensível, criando entre nós, mulheres, empatia imediata, principalmente por se tratar desse universo feminino que conhecemos tão bem. O lar, os filhos, a cama que é útero, tal qual a Cláudia afirmou, o que é bastante preciso. A cama que é aconchego, que é proteção, que é recolhimento do mundo, que é ninho. Ainda que eventualmente, acabe vazio. Parabéns!

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    1. Oi, Sandra!
      Incrivel esse seu dom de usar as palavras de forma tão poética:

      A cama que é aconchego, que é proteção, que é recolhimento do mundo, que é ninho. Ainda que eventualmente, acabe vazio.

      Só isso já poderia ser um poema. Maravilhoso.
      Muito, muito obrigada pelo carinho!
      Beijos!

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  6. Ah, mulher… seu texto é um poema de amor profundo e é difícil não se emocionar, porque o tempo leva, às vezes, nosso tempo de amar com mais intensidade. Pensamos que o voo para longe é coisa que acontece é deve acontecer, mas o sentimento de ter os amores debaixo de nossas asas fica sempre aí, cutucando o coração e trazendo as memórias mais doces, bem como aquela coisa de pertencimento. Obrigada por nos brindar com essas palavras. Eu amei!
    Beijos e abraços carinhosos.

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    1. Olá, Evelyn!
      Eu que agradeço pelo comentário tão doce!
      Sim, o voo é necessário, mas o ninho vazio às vezes dói…
      Um beijo!

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  7. Que linda história de amor, Giselle! A clareza da sua escrita nos faz compreender tudo sem precisar do óbvio, apenas as sensações, flashes de imagens, dizem tudo, em frases curtas. Trabalho de quem é fera, poxa, parabéns! Eu amei!

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    1. Olá, Juliana! (Posso chamar de Ju? Adoro uma contração rsrs)
      Muito obrigada pelo comentário tão querido! Fico muito feliz que tenha gostado!
      Um beijo!

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  8. Que texto mais lindo, Giselle. A verdade que há na sua escrita é realmente tocante. Em cada pequeno texto você entrega emoção e sensibilidade e é isso que faz das sua escrita tão especial. Um beijo, querida.

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  9. Querida Gisele,

    Chorei com seu texto, lembrando da infância dos meus filhos…
    Texto impecável. Sensível, meio crônica, meio conto, e com uma organização que faz as palavras deslizarem por nossos olhos. Lindo, lindo, lindo.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Olá, querida!
      Se serve de consolo, chorei horrores escrevendo isso… acho que não serve de consolo, não, né? 🙂
      Muito obrigada, de coração!
      Beijos!

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  10. Engraçado, essa noite mesmo dormi em um colchão ao lado da cama do meu filho pq ele me pediu para dormir com ele. Ele não vai ao meu encontro, tem medo do escuro, tem medo do pai ralhar. Mas me chama, e eu vou, eu durmo no colchão duro ao lado de sua caminha, pq ao lado dele “minha cama se torna o melhor lugar do mundo” e ele já tem oito anos, sei que não demora para não me chamar mais… pq minha primogênita não me chama mais… e esse texto me levou às lágrimas… Bjs… ❤

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    1. Oi, Vanessa! E só de ler seu comentário já fiquei com um nó na garganta.
      Ter filhos é realmente ter o coração fora do peito…
      Obrigada pela leitura e pelas palavras!
      Um beijo!

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