Quanto falta? – Fernanda Caleffi Barbetta

Estava chegando, mas ela não entendia distâncias. A idade tão pouca, a vida tão tenra. O ar ficando pesado, a respiração mais difícil, o corpinho se molhando de suor. Sim, estava chegando, mas ela não entendia o tempo. Era difícil aquietar um corpo ansioso por viver.

Inclinando-se para frente, tentou encarar a mãe, mas viu apenas seu perfil, não alcançou seus olhos. Refez, mais uma vez, a pergunta que parecia não lhe garantir uma resposta justa: “falta muito, mamãe?”. A mãe nem precisou responder. Naquele exato instante haviam chegado à praia.

23 comentários em “Quanto falta? – Fernanda Caleffi Barbetta

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  1. Oi, moça bonita! Parabéns pelo microconto. Você nos vai conduzindo para algo muito dramático, pensei numa situação limite, numa doença, num acidente, na luta pela sobrevivência, mas era apenas a ansiedade da pequena. Normal, quem nunca ficou atacada por alguma coisa quando era criança? Lembro do quanto enchia o saco do meu pai quando queria coisas banais como uma caixa de lápis de cor, daquelas de 36 cores. Criança é o fute. Ninguém pode com elas. Você é uma escritora maravilhosa, e uma pessoa sensacional. Sou fã. Beijos.

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    1. Oi, Iolandinha, que delicia seus comentários. Sim, a intenção era justamente essa, criar um ambiente pesado e acabar com uma brincadeira. Os sintomas dela lembram sim uma ansiedade de criança, mas a intenção era que tb lembrassem o que o corpo sente quando nos aproximamos da praia. Muito obrigada por ter vindo aqui tão rapidinho e com palavras tão doces nas pontas dos dedos. Tb sou sua fã. Beijos.

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      1. Vc deixou pistas: o corpo suado, e só ver o perfil da mãe que é a visão de uma criança olhando da parte de trás do carro. Você consegue esconder coisas num texto muito pequeno, isso é talento.

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  2. Que coisa mais delicada, li três vezes – sempre leio repetidamente uma coisa quando gostou muito!
    Lindo conto, Fernanda, delicado, ambientação perfeita e o clímax maravilhoso no final! Amei, tudo perfeito!
    Parabéns!

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  3. A ilustração e a primeira parte do texto conduzem o leitor para uma cena melodramática, de angústia e suspense. Trata-se de uma doença? Estão a caminho do hospital? Mas não, claro, é só uma menina ansiosa pela praia. Atitude comum de uma criança contada de uma forma original.

    A autora optou por “pregar uma peça”, o que implica em envolver o leitor antes de entregar a brincadeira. Como micro, o texto está perfeito. É engraçado, e tem uma reviravolta verossímil. Emociona e faz rir, o que é quase a mesma coisa, só que do outro lado da moeda.

    Parabéns, Fernanda, pelo texto simples, direto, impactante. Amo o seu estilo. Abraços.

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    1. Felizona aqui com seu comentário, Fátima. Era esse mesmo o clima que queria criar para “enganar” o leitor. Que bom que deu certo rsrs. Muito obrigada e adorei isso: “Emociona e faz rir, o que é quase a mesma coisa, só que do outro lado da moeda.” Bjs

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  4. Seu texto é daqueles que se lê com cuidado, com medo de assustar os pássaros da inspiração e eles escaparem em revoada. Também fiquei com receio de descobrir o véu e me deparar com um final triste. Aí está a habilidade da escritora: conduzir o leitor por um caminho, que apesar de breve, tem tanto a mostrar, sem perder a magia e o suspense tecido com palavras escolhidas com maestria. Lindo recorte cotidiano desenhado em pura poesia. Adorei.

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  5. Minha filha costuma fazer essa pergunta o tempo todo! Falta muito? Hoje, a resposta é sempre mais precisa, porque ela tem noção de tempo em horas, minutos, mas antes, era algo complicado. Apesar de a ansiedade continuar pulsando entre um segundo e outro.
    Parabéns pelo texto.
    Abraços carinhosos.

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  6. Que graça de conto, Fernanda. Li ouvindo-o na sua voz, rs. Um delicioso impacto de alívio no final. Adorei! beijos

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  7. Olá, Fernanda!
    Como é agradável as interpretações, não é mesmo? Eu entendi que se tratava de um feto sendo submetido ao aborto. Julguei – pelo primeiro parágrafo – tratar-se disso, quando então, ao fim do segundo, surpreendo-me com a ‘enganação’.
    Mas ainda assim, a praia poderia ser uma metáfora, de modo que fiquei entre cá e lá. KKKKKKK. Muito bom. Sua escrita é cheia de sutilezas e isso engrandece seu texto! Muito bom!

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    1. Sempre generosa, obrigada. Sim, várias interpretações possíveis, mas o principal era justamente a “enganação”. A minha ideia era a criança no banco de trás do carro, sentindo a proximidade da praia em seu corpinho, perguntando pela chegada, fazendo parecer que ela estava doente, perto da morte… Obrigada e beijos.

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  8. Querida Fernanda,

    Ótimo texto!

    O temo para uma criança e a frase que, certamente todo leitor já disse e ouviu. Empatia certeira, surpresa coroando o miniconto. Bom demais. Como sempre, não é?

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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