De vento, farinha e água – de Paula Giannini

Primeiro movimento

Depois

O senhor pode se sentar… É assim que eu vou falar… O senhor fique à vontade que aqui a casa é simples, mas é um coração de mãe. Não… Ele vai perguntar cadê a mãe. Mãe? Cadê? Todo o santo dia as gêmeas me perguntam. Cadê a mãe? E eu sei? Não sei. E eu digo o quê? Que ela entrou por um buraco e sumiu? Que enlouqueceu? Que nossa Estrela virou estrelinha? A Thayanara? Que está vindo para cá? Que está voltando para casa a pé…  Ela está? Já não sei… A única coisa que sei é que não é fácil ver os olhinhos delas pedindo explicação que eu não tenho, mas que elas teimam confiar que eu tenha. E eu não tenho. Inferno… Cada vez que o cachorro da vizinha late, meu coração acelera. Eu penso que é ela, que ela vai afastar a cortina e entrar por ali sorrindo e fazendo graça. Dizendo que o diamante da sua vida sou eu e as nossas filhas. Mas não. É só a gata da rua, no cio… E a cortina que levanta, é o vento batendo e me lembrando que eu tenho que colocar é uma porta aí na porta. O primeiro dinheiro que entrar vai ser para isso. Uma porta simples, pode ser, mas com tranca na fechadura.

Segundo movimento

Da

O senhor se senta, por favor. Senta que eu lhe sirvo um café. Não. E café cadê? Café não tem. Se as garotas comem? Claro que comem. Sou capaz de tirar da minha boca para dar a elas. O senhor está pensando que sou o quê? Não. Assim também não posso falar. Ele vai se ofender. Vai pedir para ver a despensa. Vai perguntar se estou empregado. E estou? Estou nada. Emprego que aparece é só bico. E deixar as garotas aqui, sem porta… Aqui é perigoso, o senhor sabe. Não. Ele não sabe e não vai nem querer saber. É rapaz estudado. Eu para ele sou o quê? Povo. Povinho vagabundo e irresponsável. Não. Sou número. Estatística. Ele não vai saber… É assistente social, só isso. Ele não vai saber é de nada. E quem é que sabe? Quem é que conhece a história do outro dentro de casa? Da porta para dentro? Da cortina para dentro? Quem é que conhece as dores? As graças?

Terceiro movimento

Calmaria

O senhor fica à vontade. Eu vou dizer com um sorriso. Sorriso sem dentes, que é para também não assustar. Por aqui tudo vai bem. Aos poucos as coisas se ajeitam. Já passou do tempo em que as garotas diziam que a barriguinha roncava e eu, mal disfarçando a preocupação falava para elas irem brincar lá fora. Ou então para beber água. E dormir. A vizinha que ensinou… O sono alimenta, sabe? Mas ele vai saber? Sabe de nada. Vai olhar na minha cara e perguntar como foi que cheguei nessa situação… E eu sei? A vida nos leva, já dizia aquele cantor… Não sei. A vida vai nos guiando e quando a gente vê, já está aqui, ali… É destino. Acho. O senhor aceita uma água fresquinha? Água tem. E tutu. De feijão preto. Eu gosto do carioquinha. Mas hoje veio do preto. Aqui no Rio vocês preferem, não é? O senhor aceita? Tem, porque ainda tem gente boa nesse mundo. Gente solidária. O brasileiro é assim. Solidário. Amigo. Aqui, pelo menos, é. Será que conto a ele? Conto, porque vergonha é roubar e não poder carregar. Aceita o tutu? Tem, porque um professor lá da escola… Aqui é zona de risco, o senhor sabe, não é?  Deve saber, claro. Se não soubesse não estaria aqui fazendo a assistência social… O professor falou que ganha adicional para ensinar aqui. E o senhor? Ganha o quê? Porque ganha. Ganha, sim. Mas isso, claro, eu não vou perguntar. Só vou pensar. Eu não sou besta. O senhor aceita? Prova, porque garanto que nunca comeu um tutu assim. Lisinho, olha. Aprendi com a vizinha. Mineira danada. Ela e o marido. Gente boa, amiga. Ela me ensinou. Você pega o feijão, tempera com um refogado, o que tiver… Cebola, alho… Isso, por aqui é luxo… Mas o feijão da escola até que já vem bem temperadinho. Tem um caldo bom, grosso. Tem sustança. Dá para jogar água e a farinha, aos poucos, e vai mexendo… O resto é com a fome. Não há o que a fome não tempere. O professor percebeu que a criançada não tinha o que comer em casa. O senhor acredita que tinha uma, danadinha, que escondia o que dava na roupa? Na calça, embaixo do braço… E aí andava assim, se espremendo. O professor chamou, perguntou, a menina negou. Ele apertou, a pequena contou que em casa tinha irmão menor que ela. Que não aguentava merendar, sabendo que o caçula só comia farinha… Farinha tinha. Farinha sempre tem. Farinha e água. A de mandioca. Eu prefiro. Fica lisinho… Farinha sempre tem. Só sei que o professor ficou louco, que fez uma revolução lá dentro. Ele é danado, um baianão dessa altura. Também ele passou poucas e boas antes de virar professor. Este sabe onde o calo aperta. Passou o diabo… E ele fez o quê? Fez o povo todo levar potinho de margarina, sacola, o que tivesse. E na saída ele dava tudo o que sobrava. Tudinho. Ué, sobrava mesmo. Ia tudo para o lixo. Teve gente lá dentro que não gostou. Quiseram proibir. Tem gente que não tem consciência… Mas o professor é besta? Nada. Baianão dobrado. Só ele. Os outros professores faziam vistas grossas. Nem ligavam. A diretoria chamou para conversar… Sozinho. Mas ele é besta? Nada… Chamou o jornal. Fez a maior revolução. Falou que era o exército de um homem só. Fez um escarcéu. Veio político, ONG, jornal. Ofereceram alguma coisa para ele… Não sei o que foi, mas, ofereceram… Ele quis? Não. Ele disse que saco vazio não para em pé, que criança tem que ter comida… E falou mais… Ele disse que o que ia mudar o mundo, era outra coisa… Esse professor tem fibra. Eu não disse? Não. Melhor não dizer. Cada um, escuta as coisas como quer. Vai saber o que esse assistente vai entender…

Quarto movimento

Vem

Olha isso… Era o vento. Tem hora que eu chego a sentir o perfume dela… Disse que vinha até aqui a pé. Que pegava carona… Faz mais de três meses que não recebo notícias. Nada. Nem o dinheiro das gêmeas, o de todo o mês, ela mandou. Estou estranhando. Com um aperto no peito… A vizinha falou que é para eu não perder a esperança. Mais dia, menos dia, ela aponta ali com aquele jeito dela, que parece até que passou um furacão. Aí, tudo vai melhorar. As garotas perguntam. Eu desconverso. Digo que ela chega logo. Ela chega. Um dia… Ou então, não digo nada… Mando ir brincar lá fora, dormir que o sono alivia. Elas obedecem, são boazinhas. As duas… E eu? Eu fico é aqui pensando no que é que ia mudar esse mundo. O que o professor falou na televisão… É dinheiro? Não… Dinheiro não traz felicidade. Mas, traz comida… A Thayanara é que falava assim… Dizia que dinheiro traz comida e da boa.  Olha as duas! Olha as pernas, dois cambitos correndo… Mais cinco minutos, hein! Já está ficando escuro. Vocês entrem e lavem as mãos, o tutu já está na mesa. São boazinhas. Entram, comem e depois, eu não preciso nem mandar, vão fazer a lição. Sozinhas. Puxaram a mãe, são responsáveis. Puxaram em tudo. Menos no gênio, que a mãe delas é um furacão. Um furacão… Em todos os sentidos… Eu brinco que ela só queria o meu corpinho. É quando a vejo sorrir. Só nessa hora… Nessa hora, ela volta a ser uma menina de olhinhos luz. Os olhos dela são duas estrelas… Dois faróis pretinhos… Que nem esse feijão. Chega a sair faísca.

Quinto movimento

A

O senhor chegou em boa hora. Acho que assim é melhor… Tem tutu, aceita? Ele vai ver que as garotas estão de banho tomado, comendo, fazendo a lição… A mãe? Trabalhando… A porta? Consertando, foi o vento. Comida? Tem todo dia sim senhor. Aceita água? Farinha? É de mandioca. Fininha… É casa de pobre, mas sempre cabe mais um. Coração de mãe. A vizinha falou para eu não me preocupar, que ninguém tira criança assim da família, do pai… Que isso de assistente social é só porque o professor colocou esse Caixa Prego na televisão. Aí, eles querem mostrar serviço… O senhor pode se sentar… Por que elas andaram gazeando a escola? Eu conto. A culpa foi minha. Uma garota andou sumindo aí na Maré e eu tinha arranjado um bico… Fiquei com medo de elas voltarem assim, sozinhas, tão pequenas. Aqui tem tiroteio, bala perdida… Não… Já voltaram a ir à escola normalmente. Foi só três. Isso, três meses. Mas já está tudo normal. Eu sei… É o futuro delas. Eu já saí daquele trabalho. Elas vão à escola. A mãe já vai chegar. Comida? Tem todo dia. Água? Claro. Não está vendo? Luz? É gato. A vizinha empresta. Não. Isso não vou falar. A santa da vizinha ainda vai levar a culpa. E gato emprestado é proibido? Não sei… Trabalho? Tem bico. Às vezes. Fazer o quê? Nada. As garotas precisam ir à escola. É o futuro delas em jogo. E o meu futuro? Não sei. Mas quem é que sabe? O senhor? Duvido. Não. Isso não digo. Eu digo assim… Futuro? Quem tem? O senhor?

Sexto movimento

Tempestade

O senhor pode entrar… Fique à vontade. Chegou em boa hora.              

****

Este conto originou a cena “Jesus da Silva” do espetáculo “De Esperança, suor e farinha” – Prêmio CCSP 2018 – Dramaturgias de Pequenos Formatos Cênicos.     

Na foto – Amauri Ernani

Clique de Arô Ribeiro

9 comentários em “De vento, farinha e água – de Paula Giannini

Adicione o seu

  1. Não conhecia este texto e achei maravilhoso como tudo o que você escrevi. Li os atos , ou melhor, movimentos com a voz do Amauri na cabeça… ahaha… imaginando a cena no teatro. Muito lindo, profundo, tocante, o que dizer? Fiquei presa ao espetáculo das palavras que iam se apresentando sem covardia. Adorei. Já disse que adorei? Beijos.

    Curtir

  2. O texto, no seu conjunto, pareceu-me um discurso não pronunciado em que o protagonista faz uma confissão emocionada, ou tenta tomar uma decisão importante, ou apenas faz uma reflexão ou até mesmo discute consigo mesmo.

    O monólogo (interior ou com um ouvinte desconhecido, ou, simplesmente ensaios de falas para receber o assistente social), aqui, revela a incompletude das relações, que provoca um definhar, sem o alimento (do corpo e da alma). A desnutrição e a solidão são retratadas no marido e nas filhas que se ressentem pelas perdas (a mulher/ mãe e a porta. O pai ainda procura fornecer amor, da forma que pode; o tutu de feijão simboliza o alimento da resistência.

    Os segmentos não são lineares e tampouco abordam um tema por vez. O pensamento vem como um fluxo poderoso de ideias, de lembranças, de dúvidas, de sensações e tudo é transferido para a escrita — esse é o grande trunfo na construção deste texto.

    Linguagem, técnica e assunto se fundem e registram a situação da família em constituintes prosódicos sensíveis, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação das visões do personagem.

    Parabéns, Paula, pela sua sensopercepção, pelo relato direto que busca aproximar-se o quanto possível para expor com detalhes a problemática em questão.

    Emoção, pura e simples. Além de uma bela reflexão sobre a vida. Não me canso de repetir que sou sua fã. Beijos.

    Curtir

  3. Olá, Paula. Um diálogo em que só o homem fala. O pai das meninas. O tempo inteiro a gente percebe que nem a miséria o faz desistir de ser um pai responsável. Mesmo morando em uma casa sem porta, colocando a ele próprio e às filhas em perigo. Um conto sobre o dia a dia das pessoas invisíveis e das suas dificuldades. Coisas mínimas que ignoramos e que são essenciais para a sobrevivência destas pessoas. Enquanto ele conta tudo para o assistente social ele nos apresenta os pilares de sua vida: a mãe das crianças que sumiu, as filhas, a vizinha, o professor baiano, a diretora da escola. E assim vamos delineando a vida e os víveres deste homem. A farinha é o amálgama sempre presente entre todos, o amálgama que junta todos em um mesmo barco, neste mar de verdades incômodas. Beijos.

    Curtir

  4. Já conhecia a passagem da leitura do Farinha. Adoro esse narrador que nos conta a história em uma interlocução com um assistente social que não se manifesta. Aqui, o personagem, um invisível, tem voz, mas aquele que o escuta não se mostra no texto. Você é realmente incrível. Não havia percebido assim na leitura anterior que fiz da peça. Vida longa à sua inteligência e a sua capacidade criadora, minha amiga. beijo grande.

    Curtir

  5. Olá, Paula.
    Já conhecia o monólogo e eu o reli com a imagem e a voz do Amauri na mente. O que falar de uma obra como essa, tão pungente? Tão doída e profunda que trata das misérias humanas. Sua maestria é impressionante e sua sensibilidade para transpor ao papel um discurso oral faz com que a gente já o visualize. Parabéns mais uma vez!!!

    Curtir

  6. Um texto incrível que fala de pessoas, de vidas. A falta da porta, que parece um detalhe, é tudo em significado. Que marailha deve ser ver esta peça no palco. Texto envolvente que vai nos prendendo em cada ato. Amei, como tudo o que vc escreve. Bjs e parabéns.

    Curtir

  7. Uau, Paula, sem palavras! Eu amo esse tipo de narrativa, um personagem imaginando a conversa com seu interlocutor. E você não só a executou de maneira brilhante, como ainda teve a sensibilidade ímpar de contar uma história tão pungente. E os detalhes?! Incrível!
    Quero ler mais coisas suas! Só agora me dei conta de que mal conheço essa grande escritora! Que erro terrível!
    Parabéns e beijos!

    Curtir

  8. Meu Deus, eu confesso que não sei o que comentar… é tanto sentimento que passa pela gente que a garganta fica apertada. Acabei de assistir um vídeo do canal Freak TV intitulado “JOÃO VITOR E IGOR GIOVANI – CASO DE RIBEIRÃO PIRES” e eu queria muito que o pai desses meninos tivesse a visão e o pensamento do pai dessa texto. Infelizmente, as cenas reais são bem piores que as ficcionais. Bjs cheio de angústia. ❤

    Curtir

  9. Um texto primoroso como sempre! A vida é mesmo dura, mas o homem desse texto é tudo de bom, apesar da miséria sabe o que é ser pai. Acho que o mundo precisava de um bocado de gente assim, mas precisava mesmo é de justiça social pra ontem.
    Parabéns pelo texto. Beijos e abraços carinhosos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: