Por um segundo… – Sandra Godinho

Por um Segundo…

Por um segundo, escuta

O que já não cala,

O que já não cessa,

O que já é choro e

Ranger de mágoa

Por um segundo, vê

O que já não viceja,

O que já é vazio

A engolir o mundo,

tão vil

Que já não o alcanço

Tão vago

Que já não o habito.

Por um segundo, sente

A dor que grassa

A tristeza que enlaça

A fome que devora

O abandono que decreta

Os tempos insepultos

Das carnes já mortas.

19 comentários em “Por um segundo… – Sandra Godinho

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  1. Minha querida Sandra. Sua poesia é enigmática, então, mesmo assumindo o risco de fracassar miseravelmente e me armando da mais suicida coragem, eu resolvi cometer uma interpretação.

    Por um segundo, escuta

    O que já não cala,

    O que já não cessa,

    O que já é choro e

    Ranger de mágoa

    A indiferença ignora a dor do outro, mas, por um segundo apenas, consegue perceber, e talvez se incomode, com aquela voz que não cala, aquela dor que não cessa, o ranger da mágoa. Mas aí me ocorre que o seu eu lírico está ouvindo a si próprio, não conseguindo mais deter a mágoa que tenta desesperadamente conter em seu ferido coração.

    Por um segundo, vê

    O que já não viceja,

    O que já é vazio

    A engolir o mundo,

    tão vil

    Que já não o alcanço

    Tão vago

    Que já não o habito.

    Nesta parte, aquilo que incomodava já perdeu a força, mas ainda é lembrança. A pessoa desistiu, deixou para lá e colocou o preço desta desistência na conta da maldade do mundo.

    Por um segundo, sente

    A dor que grassa

    A tristeza que enlaça

    A fome que devora

    O abandono que decreta

    Os tempos insepultos

    Das carnes já mortas.

    Aqui a perspectiva se torna mais holística, estamos falando de um perceber do que está ao redor, que é terrível e inevitável. A dor do mundo,

    Obrigada pelo texto e isso foi o que consegui captar. Um beijo, querida.

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    1. Olá, Iolandinha!

      tenho visto e ouvido tantos descalabros, tantas mortes, tanto descaso que consegui por meu sentimento de desalento no poema. Quem não tem empatia diante de tantas mortes e absurdos ´´e porque já não é um ser humano, não é? Obrigada pela leitura!

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  2. Sandra Godinho faz da literatura forma de dialogar com o mundo. Vive a intensidade da palavra e sabe como poucos manejá-la, para criar o seu ouvir e o seu falar com a vida, o seu lamento pelos mais desafortunados.

    As palavras, aqui, são carregadas ao máximo de sentidos, de riquezas conotativas, abrindo para o leitor imenso campo de recriação, através das sugestões apresentadas. Há predominância, no poema, do denso, do pesado, da palavra dura, mas em ritmo leve e musical dos versos curtos.

    Parabéns pela autenticidade de suas expressões. Beijos.

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    1. Olá, Fátima!
      Como eu admiro o seu retorno, sua análise das nuances e das camadas de um texto e/ou poema, gênero que estou tateando ainda. É a minha revolta contra a insensibilidade de tantos diante de tantas mortes e descalabros. Obrigada por sua leitura e comentário! Bjos

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    1. Olá, Fernanda! É minha revolta contra a insensibilidade de tantos diante de tantas mortes. Que as palavras gritem, não é? Obrigada pelo seu retorno e leitura! Bjos

      Curtido por 1 pessoa

  3. Sandra, querida, seu poema me soou como um apelo à sensibilização para a dor do mundo. Ouvir e enxergar a miséria que tristemente nos cerca ainda que por um breve segundo. É um poema forte e contundente cuja dicção se insere no que eu vejo como seu projeto literário, engajado e aguerrido, que eu tanto admiro, sobretudo pela coerência. Sucesso sempre, querida. Um beijo..

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    1. Olá, Elisa!
      Vc conseguiu captar bem, minha amiga. É minha revolta contra a insensibilidade de tantas pessoas diante de tantas mortes e casos de corrupção que estão acontecendo à nossa volta. Arrisquei-me a escrever um poema. Obrigada pelo seu comentário certeiro e sua leitura. Bjos

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  4. Um poema sobre nossos dias, nossas desgraças, nossa desolação? A mim assim soou. E fez todo o sentido, e tudo foi sentido, já que sentir é o que nos resta fazer…
    Suas palavras, como sempre, mexendo comigo.
    Um beijo, querida, e parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Gi! Você disse bem, sentir é o que nos resta, lutar com as palavras é nossa arma diante de um mundo pouco empático. Obrigada pela leitura e comentário!

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  5. Querida Sandra,

    Diz um amigo meu que o tempo não existe, ele pode ser eterno em um segundo, ecoando em nossas memórias. Aprisionado em um momento de dor, seu eu poético fala do mundo, ao falar de si mesmo.

    Muito bom.

    Parabéns, sempre.

    Beijos

    Paula GIannini

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada pela leitura, Paulinha! Afiamos as palavras para o embate, para nos revelar, para nos confrontar com o que nos é imposto! Grata pelo comentário.

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  6. Um chamamento para que se olhe também para o lado mais sombrio, que se encare as perdas geradas pela indiferença. Um alerta para que não se negligencie vidas, nem se cale lamentos mesmo tardios. Versos fortes, tristes, dolorosos que conduzem a um misto de raiva e desesperança. Parabéns pela clareza e força dos seus versos.

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    1. Obrigada pelo seu comentário e leitura, Cláudia. O mundo anda muito triste e as pessoas, ainda mais, com tão pouca sensibilidade. Vamos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  7. Tempos de gente sem tempo para ser feliz, de gente sem tempo para dizer afetos, para sorrir abraços, para sentir o outro como a si mesmo. O mundo é um grande amontoado de infelizes e desavisados da vida – porque não há o entendimento do agora como presente, e do outro, perto ou longe também como alguém de carne e osso, de coração e verdade. O mundo virou um grande umbigo e o universo continua lá fora.
    Parabéns pelo poema. Um grande e carinhoso abraço.

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