A tarde é outra… – Fheluany Nogueira

Acordam às sete da manhã. A menina vai arrumando a cama, estendendo os lençóis, ajeitando a colcha.

O quarto do pai não é tão diferente dele mesmo há três anos. Só mais desorganizado. A cama continua um redemoinho de lençóis e papéis. Debaixo dos móveis, diferentes embalagens de salgadinhos, sobras de batatas fritas e roupas sujas.

Estão ainda sonolentos, não querem conversar. Café solúvel no leite esquentado no micro-ondas, pão amanhecido com manteiga. Alex lê, no celular as manchetes de notícias, com o firme propósito de continuar a leitura à noite. Sabe que não vai ler depois, mas mantém viva essa ilusão.

Algum comentário sobre o tempo. Nada têm a dizer, mas não podem viver calados. Nem tristes nem alegres. Estão numa zona de sombras.  Receiam conversar novos assuntos. Nunca vão além do permitido.

Alex chuta a porta semiaberta e se acomoda na cadeira, design de alto padrão. Fones nos ouvidos. O computador supermoderno está posicionado a um canto, de forma que, do outro lado da tela, não se possa ver nada além do rosto bem barbeado e da parede recém-pintada, que contrasta com as outras, desgastadas. Atiçado pelo novo jeito de trabalhar, outros são seus dínamos, outra a cor de suas farsas. Parte da máquina.

Martina aponta no umbral:

— Pai! Pai!

Quando ele vai perguntar o quê?, vê o celular, ouve o jogo de monstros matando mais monstros. Suspira um ahh!, recoloca os fones e se vira para a tela. A garota estala a língua, gira e gira derramando o silêncio; volta para a sala, sem tirar os olhos do aparelho.

Cinco minutos depois:

— Pai! A Kika derrubou o …

— Psiu!!!! — volta-se apressado e gesticula para que Martina saia do quarto.

Pouco depois, a garota entrando de supetão:

— Pai! Onde está a minha caixa de lápis de cor? —

Seguem-se mais meia dúzia de pais e cadê alguma coisa até o final da manhã.

E, mais uma intervenção:

— Pai! Quando é o almoço?

Ele move a cabeça em sinal negativo e levanta. Dá uns passos em direção à filha. Tem que segurar a calça de pijama com o elástico frouxo e tropeça nas pantufas. Segura-a a pelos ombros, com cuidado para não amarrotar a camisa social de mangas longas e com a outra mão segura a ponta da gravata:

— Florzinha, precisamos conversar.

Então, um longo discurso:

— Temos que aprender a conviver. Isso tudo me enlouquece! E eu que achava o home office um paraíso.

— Pai, é que…

— … veja! Papai acorda, toma café, trabalha, almoça, trabalha, mais café, trabalha, janta, trabalha de novo e dorme. O dia todo sem sair de casa nem ver outra alma viva. Bem, tenho essa cachorra barulhenta e você a cada quinze dias. Tenho que pagar sua escola, o seu notebook novo, a escrivaninha e…

— Pai! O almoço? — era, afinal, o que a menina queria saber.

— Já pedi! Vá pegar na portaria. Melhor, peça ao porteiro para pôr no elevador — desistindo do sermão.

— Aqui tá ficando igual na casa da mamãe… Aquela é outra que só trabalha.

Enquanto almoçam, o pai tenta retomar sua fala:

— Filhota, cê gosta do seu XBOX?

— Sem ele não dá para viver, papai!

— E de suas roupinhas fashion, calças jeans skinny, tênis descolados? Do iPhone novo? Da escola bi… ou trilíngue? — e foi enumerando: as lives, os serviços de Streaming, comida sei lá das quantas… e isso e aquilo.

— Já entendi, pai! Já entendi por que trabalha tanto… Tá bom! Desculpa! Não vou mais amolar, não vou mais atrapalhar. Já entendi que está em casa, mas é como se não estivesse.

(Martina recorda a época em que ele voltava à tardinha da empresa e brincavam juntos até a hora de ir para a cama. Saíam para um cinema e jantar aos sábados. O parque na manhã do domingo. Segura as palavras antes de cometer um erro, plantar mais mágoa.)

— Mas, você sabe como é home-office! Você tem aulas online! É a mesma coisa.

— Sinto tanta falta de você — é uma atitude tão inesperada que Alex se assusta, como se a filha estivesse a sua espera desde o início dos tempos. Ele abre os olhos. O vazio parece se mover, à sua frente, a cortina do nada vai se abrindo.

A tarde declina lá fora. Em outro plano, dentro do apartamento, a tarde é distinta. Tem-se a impressão de que entre as paredes, onde apenas as duas silhuetas respiram, pousou a harmonia do silêncio com sua hierarquia de anjos. A água escorrer pelo ralo da pia, o tilintar de uma colher o rosnar da cachorrinha.

O sossego se amplia sem o ruído que escapava, contínuo, do computador. Num dueto, o pai escuta o riso da menina: o jogo de xadrez, os comentários durante o episódio da série, o lanche preparado por eles.

E, como se vendo a filha, saltasse dentro do homem, o menino que sempre houve. Eis que ele atira miolo do pão nela, que recua com um grito, surpresa. Riem ambos daquele nada que experimentam.

A paz pode ser rompida a qualquer instante, por isso é paz, por sua fugacidade, pelo cristal de suas asas. E se outras mil vezes a menina chamasse o pai, fosse qual fosse a hora, dia ou noite, ele atenderia a sorrir.

A tarde é outra…

18 comentários em “A tarde é outra… – Fheluany Nogueira

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  1. Que triste. Um texto super atual sobre as relações do novo normal. Como eu trabalho em home office desde 2017 essa pandemia não mudou muito a minha rotina, mas estabelecemos horários para o cachorro e meu filho está sempre por perto. Conversamos, comemos juntos, passeamos com o Ralph e assim tudo fica suave.

    Muito boa sua crítica sociológica familiar. Acredito que existam homens assim, pais assim. Beijos e parabéns.

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  2. Que lindo, Fáima. Muito verdadeiro seu texto. Que sirva de aviso a todos nós que sempre reclamamos, deixamos passarem orportunidades importantes com os nossos. Ás vezes um minutinho de atenção é o que a gente e os outros precisamos. Adorei. Parabéns. Bjs

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  3. Olá, Fátima. Você nos traz aqui um texto bem contemporâneo que reflete sobre os novos conflitos domésticos decorrentes das mudanças nas rotinas familiares com o modelo de trabalho em home-office. Eu gostei bem do retrato que você nos trouxe e do comentário crítico presente no seu conto. A despeito das promessas em contrário, o home-office acaba roubando ainda mais o tempo dos trabalhadores. Gostei muito das inserções poéticas na sua prosa. Um beijo, querida.

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  4. Olá, Fátima.
    Ainda estou impactada com a sua sensibilidade desde o último conto, O Apagão. Esse segue mais ou menos na mesma linha, da nossa rotina comezinha dos dias, das relações familiares. Aqui, vc pontua bem a modernidade e o tempo roubado por ela, como as novas mudanças afetam as relações com aqueles que mais amamos. Ao final, o desfecho positivo que nos acena um alento. Amei. Vc tem escritos verdadeiras pérolas. Amei.

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  5. Oi, Fátima!
    Ah, esse é daqueles que me falam direto ao coração. Amo esses recortes do cotidiano, que retratam a vida e revelam dilemas e redenções, como também fez seu último conto de forma igualmente bela.
    Parabéns pela delicadeza e pela mensagem, esse chamado à atenção em meio a este caos nosso.
    Beijo!

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  6. Querida Fátima,

    Ótimo texto sobre o não dito nas relações. O abismo que permeia cotidianos entre pais e filhos, entre amores, entre pessoas tão próximas e distantes ao mesmo tempo.

    Com ares de crônica, sem apelar para melodramas, seu conto emociona pela identificação e empatia certeira do leitor.

    Muito bom, mesmo.

    Beijos
    Paula Giannini

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  7. O pai já errou ao dar Xbox para a filha em vez de PlayStation, rsrsrs. Brincadeira à parte, é muito triste essa realidade. O pai só fica com a filha a cada 15 dias e mesmo assim não aprecia este momento, não pensa que em poucos anos não terá mais nem este pouco tempo e depois, na velhice, vai reclamar que a filha não o visita… É a realidade do mundo moderno…

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  8. Que bom que o pai despertou para a importância do convívio com a filha. Afinal, o tempo é tão raro para se desperdiçar só com obrigações materiais. Chegando ao fim, senti até um alívio no peito pela redenção paterna. Tão bom quando há chance de se rever posturas e posicionamentos. Conto muito bem escrito que fala sobre um tema tão atual. Parabéns.

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  9. O que enche uma casa é o que move o coração: a conversa com os filhos, a troca de olhares com o marido, gatos e cães correndo com bolinhas de borracha ou papel, aquele elogio sobre a comida do almoço, o jantar preparado a quatro mãos… Um texto para se pensar na importância de se estar presente. Parabéns pelo texto. Beijos e abraços carinhosos.

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