Chove (Renata Rothstein)

Chove

E eu, que já não sei chorar

Deságuo desato e derramo

Nas ruas de cetim, o sonho

Último, escasso, quase laço

No fim, eu sei, melhor assim

Canções ao breu. E eu? Luar

Parte é perda, parte é ganhar

Parto – calo, e violo as regras

E cega, mutilo, sigo as setas

Todo inverso, do que pretendo

Aprendo,  choro, chove, relento

Lentos fluem sangue e sombra

Eu. Poeira, madrugada e silêncio

É tudo que eu tenho e é quase bom

Recolha suas minguadas escolhas

Feche os meus olhos, aceite e siga

Eis tudo o que se pode conter, ater

Ilusão. Sob o sol, nada há de novo

Sufoco. Sacrários. Sacrifícios.

Estranhamente canto o fim, e sim

A chuva de neon purifica, incendeia

Sem auxílio – hesito – o exílio exaure

Une as gélidas mãos e ora o que temia

Transcende as suaves palavras e louca

Louva excede intercede e é só.

Heresia.

10 comentários em “Chove (Renata Rothstein)

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  1. Olá, querida Rothstein. Linda poesia, forte e intensa, assim como vc, que nessa fragilidade aparente, joga e derrota seus obstáculos. Eu vivo dizendo que poesia é de difícil interpretação. Digo isso não para me furtar a ler, mas por acreditar que cada pessoa que lê, vai ter uma visão muito própria e independente do resultado que o autor ou autora quis dar. Digo isso porque ao escrever poesias, recebo toda sorte de comentários, e muitos deles ou não compreendem o que escrevi, ou vão além e descobrem significados que nem eu enxerguei. Gosto da sua poesia, assim como da sua prosa. Você é grande, menina.

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  2. Querida Renata,

    Poema intenso que passa a desconstrução permanente e intensa do eu-lírico.

    “Eu. Poeira, madrugada e silêncio”

    Quero te parabenizar porque percebo que a própria desconstrução está fazendo com que teus poemas estejam cada vez mais nítidos – e não me refiro à compreensão sólida e fixa, porque isso não existe na poesia – no sentido de que remetem a símbolos e alegorias de um jeito menos internalizado e, por isso, cada vez mais próximo do leitor.

    Um beijo

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  3. Assim como na sua prosa, na poesia, as palavras chegam com força, com vida, intensas. Gosto muito de te ler pq vc tem uma escrita visceral. O poema não tem rima mas tem movimento porque as palavras, muito bem escolhidas, se completam. Parabéns. Bjs

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  4. Renata, querida, que coisa mais linda esses versos que abrem seu poema:

    Chove

    E eu, que já não sei chorar

    Deságuo desato e derramo

    Nas ruas de cetim, o sonho

    Último, escasso, quase laço

    a imagem dessas ruas molhadas de cetim onde os sonhos se enlaçam me encantou. No final do poema o encanto ecoa na chuva de neon que purifica. Belíssimo, querida. Um beijo.

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  5. Olá, Renata!
    Concordo com a Iolandinha sobre o fato de cada leitor ter uma interpretação sobre os versos que um/a poeta escreve.
    Dito isso, eu arrisco a minha interpretação. Há um encanto incomum nas escolhas das palavras nesse poema que trata de uma interpretação do eu-lírico, que se expõe diante dos reveses da vida e, apesar da ‘ poeira, madrugada e silêncio’, ela segue com o que tem, com a pessoa que é, com suas escolhas e sacrifícios. Assim, o eu-lírico segue, segura de si e do caminho que escolheu. Muito obrigada por esse poema grandioso! Amei. bjos

    Curtido por 1 pessoa

  6. Oi, Renata!
    Não ouso interpretar o que talvez nem ao poeta se explica… não sei se é assim com você, mas há poesias que vão para o papel antes mesmo de se organizarem na mente.
    Adorei a sonoridade, a sensação, a sutileza. A mim é muito.
    Parabéns!
    Um beijo!

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  7. O poema propicia uma leitura ampla e crítica dos valores vigentes, como espaço de revelação e reconhecimento do prazer e da realidade circundante. Traz um tema bastante caro para nós, o ponto mais forte que temos enquanto comunidade. Que é sermos por nós mesmos.

    A desumanização ou a desconstrução do eu é criada pelas imagens recorrentes da água (chuva, lágrima) que lavam e arrastam tudo o que é encontrado pelo caminho, os obstáculos. Mensagem densa e tensa, mas de esperança, pois o eu-lírico segue o seu trajeto
    .
    Versos curtos, sonoros, repleto de aliterações e conotações multissignificativas, estilo de quem realiza um trabalho especial.

    Parabéns, Renata, pelo texto sensível, pelo olhar desassossegante que buscou explicar as questões tangentes da vida, em um diálogo com a poética perturbadora.

    Beijos.

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  8. Querida Renata,

    “Chove e eu já não sei chorar…” Não há necessidade de interpretação para esta poesia-oração. O inviolável já se rompeu de forma tão vil… Este eu poético, não é apelo, não é desabafo, é constatação de braços largados na chuva enquanto as lágrimas teimam em não mais cair.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  9. A chuva e sua simbologia. A água que representa o emocional, o eu lírico que também deve chover por dentro, dissolvendo-se e misturando-se às águas que o rodeiam. Tudo é emoção, sentimento, fluidez de pensamentos. Seus textos sempre são marcantes, densos, profundos, que nos puxam como areia movediça para contemplemos o belo e o escuso também dentro de nós. Parabéns.

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  10. Ah… Sei lá. Às vezes acho que é isso mesmo, uma volta para a esquerda e outra para a direita, um sair, um ficar, um não sei que na alma. É uma volta e uma revolta, é uma quase esperança e o cansaço no fim. Gosto do que leio, aqui. Porque tem movimento, tem força e meio que dá uma bofetada e um alento ao mesmo tempo.
    Parabéns.
    Abraços carinhosos.

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