Conforto – Giselle Fiorini Bohn

– Eu ouvi dizer que existe uma coisa chamada conforto…

– Você acredita em tudo.

A coragem na voz da menina apagou-se por um momento. Por que ele sempre fazia isso? Não que seu tom fosse rude ou prepotente; podia-se dizer até ser terno. Mas, com poucas palavras, tinha o poder de fazê-la sentir-se tão menor, tão boba. Sequer notava que ela se ressentia; apenas divertia-se com sua inocência, e quem o ouvisse pensaria tratar-se de alguém mais velho e mais sábio, e não apenas outra criança.

– Eu acho que pode ser verdade, sim… – a menina se empertigou, e a sua voz acompanhou o movimento  – e sei até como é sentir isso.

Ele focou os olhos que mantinha perdidos no nada, virou a cabeça, e os colocou sobre ela com espanto.

– Sabe?

– Sei.

Ela percebeu que o agarrara agora, e sentiu-se mais forte. Endireitou-se ao seu lado, virando-se de frente para ele.

– Escute, você gosta da sua cama, não gosta?

– Gosto.

– Então, sabe quando está frio, e você fica na cama, e se cobre até o pescoço, bem enfiado embaixo do cobertor? Quando fica parado lá, quietinho, não dormindo, só quieto… Sabe como é, quando fica tão quentinho, e seu corpo fica tão solto que parece que você não consegue mexer nada, nem os pés, ou os dedos… não consegue nem mesmo abrir os olhos?

– Sei… – ele começou a vislumbrar o que ela estava dizendo, e sua respiração se suspendeu – sei…

– Agora imagine se sentir dessa maneira o tempo todo, sempre, em qualquer lugar. Sentir que está no exato lugar em que quer estar, sentir que não precisa fazer nada que não quer fazer; ser, apenas. Já imaginou sentir-se aí, dentro de você, como se estivesse sempre na sua caminha, o corpo solto, poder trazer o cobertor até as orelhas, em um dia frio, ouvir o vento soprar gelado lá fora, e ficar no quente e no macio…

Ela parou de falar, suas costas se curvaram e ela abaixou o olhar. Com uma mão abraçou os joelhos junto ao corpo e com a outra mexeu nas pedrinhas no chão, entre seus pés.

– Tenho certeza de que isso é o que chamam de conforto.

– Conforto…

O garoto fitava o vazio novamente, seu pensamento nos dias de inverno.

Ela percebeu que o impressionara e que também o entristecera. Colocou um braço sobre seus ombros. Ele agora parecia mais frágil, mas, da mesma maneira que não gostava de se sentir menor, ela odiava sentir-se maior.

– Bom, pelo menos a gente tem a caminha, e os dias frios…

– É… – ele voltou o olhar para ela por um segundo que se estendeu longo demais, e armou um sorriso desbotado –  é…

Ela deitou sua cabeça em seu ombro, duas crianças em compartilhado desconforto.

20 comentários em “Conforto – Giselle Fiorini Bohn

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  1. Sabe quando você lê um texto e depois fica com a impressão de que perdeu algum detalhe? Pois é. O texto em si é lindo. As duas crianças sozinhas ali, a menina perguntando sobre o conforto e o menino cético. Pensei imediatamente que aquele menino não sentia conforto algum. Estariam em uma situação de abandono? Ele seria doente? Como um menino, uma pessoa tão jovem tem este descrédito em relação às coisas boas da vida? Aí a menina encontra um exemplo lindo para falar sobre o conforto. E discorre sobre isso com muita segurança. Crianças de uma profundidade maior que o comum. O menino compreende então que a irmã o ultrapassou com aquela explicação e os dois continuam constrangidos. A menina fala em conforto como alguém fala em Papai Noel. Acho mesmo que perdi alguma coisa no seu texto. A sua descrição sobre a sensação de estar deitado em um dia frio, ficou muito bonita, deu até para sentir conforto. Excelente conto, Gi. Beijos.

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    1. Obrigada, querida! A ideia era mesmo de algo semelhante a uma fábula, uma metáfora onde as crianças representem todos nós, que ao longo da vida apenas procuramos por conforto, serenidade, paz.
      Um beijo!

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  2. Olá, Gi!
    Eu confesso que esse texto me capturou de um modo especial. Na verdade, se mudarmos a idade das crianças e deslocarmos para a vida adulta, a explicação continua valendo. Conforto é apenas ser, no exato lugar em que quer estar, sentir que não precisa fazer nada que não quer fazer, nem para se adequar às convenções sociais, cortesias ou costumes sociais, das quais a mentira é apenas uma delas. Um texto soberbo, escrito com uma sensibilidade atroz. Amei.

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    1. Olá, Sandra!
      Ei, você, sempre dona das palavras perfeitas!
      Você capturou exatamente minha intenção: as crianças simbolizando nossa própria busca, aquela que se estende por toda a vida – a busca por conforto em um mundo cheio de arestas.
      Obrigada pela leitura e pelo carinho! 🙂

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  3. Mas a caminha, ficar escondido debaixo dos lençóis, seria a zona de conforto? O menino incomodado com a situação em que vivia desacreditava que o conforto realmente existisse. A menina já tinha certeza de saber o que era o tal conforto. Pelo menos, tinham a cama e os dias frios. A cama é o esconderijo, onde poderiam buscar o conforto… e o frio, bem o frio era o inimigo a lhes roubar qualquer possibilidade confortável. Triste, mas muito lindo. Amei.

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    1. Olá, Claudia!
      Muito obrigada! Sim, o conforto é o que todos procuramos, de algum modo, durante toda a vida, e as crianças que fomos um dia já tentavam encontrá-lo… e a busca continua.
      Um beijo!

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  4. Oi, Giselle. Desde a primeira leitura que fiz do seu conto, feita, creio que assim que você o postou, foi dessa menina que não gosta de se sentir nem maior nem menor do que seu companheirinho. Uma imagem muito tocante ao menos para mim de uma espécie de relação fraterna desejada por ela. Parabéns pelo texto sensível e delicado. Beijos

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    1. Oi, Elisa!
      Sim, não há conforto em sentir-se menor ou maior; é na igualdade que reside o alento.
      Muito obrigada pela leitura e pelo carinho!
      Beijo!

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  5. Querida Gisele,

    Sabe aquele conto que a gente gostaria de ter escrito? É esse. Muito bom, acima de tudo, muito humano.
    O texto permite algumas interpretações, mas, fico com a da triste privação por que passa grande parte do nossa infância.

    Esse texto me pegou de jeito.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  6. A sensação deixada para mim é a de que se trata de dois irmãos órfãos que não sabem o que é o conforto de estar na presença da mãe… Talvez seja por causa de dias difíceis que tenho passado em relação a isso, mas essa leitura levou-me às lágrimas… Bjs ❤

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