Quem realmente é você? (Vanessa Honorato)

Era uma manhã de domingo bem chata e por isso Rafael resolveu visitar seu amigo. Não que fosse o único motivo da visita, não era só por tédio, mas havia muito tempo que não via Estevão. Eram amigos desde a faculdade e o tempo corrido estava afastando-os. Tomou banho, colocou uma roupa leve para enfrentar o calor da rua e saiu com sua bicicleta, era uma boa hora para se exercitar. Parou na feirinha da rua de Estevão e comprou peras suculentas, lembrando-se do quanto seu amigo gostava. Deixou a bicicleta no jardim da casa e bateu à porta. Uma mulher alta abriu. Não se lembrava de Estevão comentar que estava namorando.

— Pois não? — ela perguntou.

— Oi, tudo bem? Eu queria falar com o Estevão — respondeu sorrindo.

— E quem é você?

— Rafael.

A moça afastou-se e retornou pouco tempo depois.

— Estevão disse que está ocupado e pediu para perguntar do que se trata.

Rafael sorriu nervoso, como assim seu amigo estava ocupado para ele?

— Só vim fazer uma visita para meu amigo. Tem muito tempo que não nos falamos pessoalmente. Aconteceu alguma coisa? Por que Estevão não quer receber o melhor amigo dele? — Rafael perguntou meio irritado.

— Melhor amigo? — disse ela com cara de surpresa. — Estevão nunca mencionou nenhum Rafael.

Ele não respondeu. Ficou ali na porta, sem saber se esperava mais ou se ia embora.

— O que você quer? — Estevão surgiu ao lado da mulher. Seu olhar estava raivoso e Rafael não sabia o porquê.

— Trouxe peras pra você. — Rafael ergueu a sacolinha da feira.

Estevão olhou de soslaio para a sacola e não pegou.

— Eu perguntei o que você quer.

— Como assim, Estevão? Vim te ver e bater um papo, só isso. O que aconteceu?

— Mas quem é você? — Estevão perguntou e Rafael ficou branco, sua fisionomia denunciava a surpresa daquela pergunta.

Rafael voltou o olhar para a moça ao lado do amigo.

— Ele sofreu algum acidente? Perdeu a memória, foi isso? — perguntou.

— Você está louco, cara! Sai fora daqui, não conheço você. — Estevão bateu a porta na cara de um atônito Rafael.

Voltando para casa, Rafael se perguntava o que poderia ter acontecido com seu amigo. Chegou em casa e colocou as peras na geladeira. Almoçou e assistiu filmes a tarde toda comendo pipoca. Adormeceu no sofá.

Na segunda despertou com as costas doendo e foi para o trabalho de ônibus, como sempre. Chegando na empresa o porteiro pediu sua identificação.

— Senhor, o senhor não pode entrar — disse o porteiro.

— Como assim? Eu trabalho aqui e não posso entrar?

— Esse crachá deve ser falso. Não temos ninguém aqui com seu nome.

Rafael começou a gritar pelo chefe, deveria estar enlouquecendo, não era possível. O porteiro tentou segurá-lo, mas levou um soco no nariz e Rafael adentrou o prédio.

Correu até a sala do chefe e entrou sem bater.

— Seu Jair, não estavam me deixando entrar. Não sei… — Rafael estava ofegante e tentando alargar a gravata — o que está acontecendo.

— Mas quem é você? — o homem gordo de paletó sentado atrás da mesa olhou com estranhamento para Rafael.

Mais estranho ainda se sentiu Rafael.

— Como assim, seu Jair? Sou eu, o Rafael, seu assistente. Não se lembra? sexta-feira mesmo saímos para beber depois do expediente. O que está acontecendo? — Rafael sentia como se a gravata estivesse apertando seu pescoço com força e não o deixava respirar.

— Não sei do que você está falando, garoto. Meu assistente chama-se Gaspar e ele já está aqui. — Só então Rafael percebeu a presença de um rapaz magro e de olhar assustado sentado em sua mesa. Em sua mesa. — Acho melhor você sair daqui antes que eu seja obrigado a chamar a segurança.

Rafael desceu as escadas sentindo-se tonto e fora do ar. Passou pelo porteiro que o olhava com estranheza. Caminhou em direção a casa de sua irmã, mas quando estava no portão, lembrou-se de que ela havia se mudado com o marido e a filha havia um mês. Para onde mesmo? Ele não recordava. Seria ele quem tinha perdido a memória? Sem ter o que fazer, voltou para sua casa. Se morasse em apartamento será que não o deixariam entrar em sua própria residência?

Com raiva e medo pegou seu celular. A agenda estava apagada. A caixa de e-mail, vazia. As mensagens, em branco. No mundo digital no qual ele se afundou, não sabia nenhum número de cabeça, tudo estava em sua agenda. Lembrou-se que anos atrás anotava tudo em uma agenda de papel. Revirou a casa até encontrá-la. Correu o dedo pelos números até achar o nome Maria. Discou com dedos trêmulos. Depois de tocar três vezes uma voz fina e cansada atendeu.

— Pois não?

— Oi — Rafael respirou fundo. — Que bom que atendeu. Como a senhora está?

— Quem está falando? — a vozinha fraca perguntou e Rafael temeu responder.

— Sou eu, vovó. O Rafael.

A ligação foi interrompida de forma abrupta. Rafael não teve outra alternativa se não abrir uma cerveja.

Quando Rafael retornou ao prédio onde supostamente trabalhava pelo terceiro dia consecutivo, disseram que a polícia estava a caminho e Rafael não voltou mais. Alugou um carro e foi em direção a casa de seus avós, há mais de duzentos quilômetros de distância. Alguém precisava ajudá-lo a descobrir o que estava acontecendo.

Quando o asfalto foi ficando para trás e Rafael adentrou pelas colinas, sua memória foi vagando para o passado.

— Mamãe, ainda estamos longe? — um menino franzino e curioso questionou a mãe ao volante. O barulho constante da chuva na lataria do carro estava deixando-o sonolento.

— Sim, querido. Mais meia hora chegamos à casa da vovó e você poderá dormir. — A moça loira sorriu para o garoto enquanto olhava pelo retrovisor.

O rosto de Rafael foi banhado por lágrimas enquanto as lembranças voltavam à sua mente. A chuva começou a cair fininha e uma névoa tomou as estradas. Rafael diminuiu a marcha e continuou devagar até avistar a casa antiga cercada por exuberantes árvores no meio de uma fazenda.

Parou o carro ainda na estrada e foi caminhando o resto do caminho. Olhou pela janela e viu uma senhorinha sentada na cadeira de balanço, cabelos brancos presos em um coque mal feito. Suas costas estavam curvadas e ela segurava um porta-retratos nas mãos. Rafael sentiu um nó na garganta ao ver sua avó. Há quanto tempo não a visitava? Em suas lembranças ela estava mais jovem.

Bateu à porta, ia ficando enxarcado pela chuva que caía. Não foi atendido. Bateu de novo. Continuou sem resposta. Olhou pela janela novamente e percebeu que a avó não se mexia. Correu e chutou a porta, arrebentando a fechadura.

— Vó? — perguntou enquanto agarrava as mãos da velha senhora.

— Ra… fael? — ela disse, com a voz fraca.

— Sim, vovó, sou eu. Estava com saudade, vim ver a senhora — ele apresentava lágrimas nos cantos dos olhos.

A velha senhora ergueu com dificuldade a cabeça e sorriu um sorriso banguelo para ele.

— Você se tornou um anjo. Eu sabia que você era um anjo… — Maria sorriu para o neto — eu te amo, filho. Sempre esperei por este momento — a senhora o beijou na face e escorou na cadeira. Rafael fechou seus olhos.

— Também te amo, vovó.

Depois do enterro em que só ele compareceu além do coveiro, Rafael voltou para sua casa. Chegando lá havia um homem o esperando.

— Rafael…

— Sim, sou eu.

— Será que pode vim comigo?

— Para onde?

O rapaz de terno branco sorriu.

— Você sabe muito bem.

— Eu não sei de nada. Aliás, tudo anda muito estranho por aqui.

— Digamos que alguém quer te ver.

— E quem seria?

— Vem comigo que você descobre. — O homem entrou em um táxi e ficou esperando por Rafael. Sem ter nada melhor para fazer, ele o acompanhou.

Chegaram a um grande prédio.

— Me acompanha, por favor.

Rafael seguiu o homem. Subiram pelo elevador e Rafael teve a impressão de que nunca chegariam. Finalmente pararam e as portas se abriram. Rafael saiu do elevador e pisou em um tapete carmim felpudo. As paredes eram tão brancas que seus olhos doeram. Havia um corredor grande com várias portas da mesma cor do carpete, contrastando com as paredes.

— Onde estamos? — questionou ele.

— Por aqui, Rafael. — O homem abriu uma porta para que Rafael passasse.

Rafael adentrou o cômodo de forma desconfiada, olhando ao redor. As paredes tinham a cor creme e o piso era de madeira. Uma grande mesa estava no centro do cômodo e um homem sentava-se atrás dela com as mãos cruzadas e olhar profundo.

— Sente-se, Rafael — pediu ele.

Rafael sentou-se e encarou o homem. Seus olhos não conseguiam definir a figura ali diante, por mais que ele tentasse forçar os olhos a reconhecê-lo.

— Então, dessa vez está pronto para deixar o curso da vida seguir? — perguntou.

— Como assim, senhor? — Rafael, por mais que tentasse e quisesse, não conseguia sentir medo nem temor daquele homem à sua frente. Mas também não conseguia reconhecê-lo nem se lembrar nada sobre ele.

— Rafael, filho teimoso… lhe darei uma última chance de aceitar a verdade. — O homem levantou-se e colocou sua mão sobre a cabeça de Rafael que de imediato fechou os olhos.

Quando Rafael acordou estava em sua casa e era um domingo. Sem nada interessante passando na televisão, resolveu visitar seu amigo Estevão.

11 comentários em “Quem realmente é você? (Vanessa Honorato)

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  1. Coitado do Rafael. Recusando-se a aceitar a verdade, ficava voltando para a vida fabricada por sua vontade de não suportar os fatos. Dizem que o inferno é a repetição. Gostei muito do seu conto insólito, Vanessa. Gosto muito deste estilo e o seu conto ficou super legal. Acho que deve investir mais em contos com esta pegada. Beijos e bom dia, querida.

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  2. Nossa, que suspense! Conto muito bem escrito, que prende a atenção do começo ao fim. Fiquei atenta aos nomes dos personagens – Estevão = Santo Estêvão é o primeiro mártir do cristianismo, sendo considerado santo por algumas das denominações cristãs. Maria = Nossa Senhora, mãe de Jesus. Rafael = que significa «Deus curou», arcanjo. Era Deus no final o chamando de filho?
    Enfim, um belo conto, muito bem elaborado e com desfecho em looping . Adorei.

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  3. Olá, Vanessa!
    Mas que suspense, hein? Vc aguçou minha curiosidade do começo ao fim! Achei muito interessante esse seu novo estilo (será?). A vida nos exige demais às vezes, nem todos conseguem seguir, alguns empacam. Seria bom se todos tivessem uma segunda chance. Muito bom. Parabéns!

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  4. Ah! Se pudéssemos reescrever a vida…É uma narrativa daquelas para ler sem pressa, degustando as palavras. Gostei do tom empregado, que explora sentimentos sem resvalar na pieguice. As descrições estão bastante convincentes, o ritmo é bom, e as informações são dadas na medida certa, dando espaço ao leitor para pensar. Não tenho muito mais a acrescentar, gostei bastante.

    A história também prende o interesse, com suas descrições precisas. Achei que a moral seria diferenciar ficção e realidade, mas me surpreendi ao constatar que, de alguma forma a vida é um loop . Resta, então, esperança e solidão,

    Muito bom conto! Parabéns. Beijos

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  5. Oi, Vanessa!

    Que conto incrível! Você realmente conseguiu manter o suspense do início ao fim! Admiro muito quem tem essa capacidade de criar uma expectativa sempre crescente!

    E fica a pergunta: a vida segue seu curso através da nossa interferência ou apesar dela?

    Muito legal mesmo! Parabéns!

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  6. Que conto incrível, Vanessa. Concordo muito com o que a Iolandinha disse acima, você tem uma pegada muito boa para o insólito. Aguardo os próximos. Beijos

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  7. Um conto espírita! A dificuldade está no apego às coisas da vida física, das pessoas. Quanto mais leve é a bagagem, mais fácil é o caminho.
    Parabéns pelo texto.
    Um abraço carinhoso.

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  8. Querida Vanessa,
    Tudo bem?
    Li seu conto há algum tempo, mas, ando muito atrasada nos comentários.
    Gostei demais de seu conto. Ele tem uma pegada sobrenatural em looping que me fisgou demais. Talvez a vida seja assim, um terno retorno até que acertemos de fato. No conto, porém, você acertou demais.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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