Encarnado – Elisa Ribeiro

O espelho trincou do nada. Trinta anos pendurado na parede, trinta e um precisamente, desde que se instalara naquele sala e dois quartos.

Não acreditava em maus presságios. Olhos exagerados, rugas e sarda apagadas, polvilhou no rosto o pó translúcido, última etapa da maquiagem; o batom, só na hora de sair de casa. A flacidez das pálpebras e as bochechas caídas, não havia base com efeito lifting que conseguisse atenuá-las. Não mais.

Os peitos mal cabiam no sutiã e acima do elástico da calcinha a gordura abdominal sobrava formando dois pneuzinhos na lateral. Insistia em continuar usando a mesma lingerie da juventude – tamanho e modelos – na esperança de, por algum milagre, voltar a ter o peso e a forma de quando fazia homens e mulheres girarem os pescoços à sua passagem. 

Entrar no tubinho preto de vinte anos atrás exigiu algum contorcionismo, mas o espelho rachado, indiferente ao seu esforço, devolveu uma imagem aquém do esperado. Ou melhor, além — muito além — sobretudo na cintura e nos braços roliços espremidos nas manguitas arrochadas.

Trocar de roupa? Talvez, mas contra a vontade, era seu vestido matador, dava-lhe sorte. Resolveu tentar uma cinta modeladora por baixo. Desvestiu as meias elásticas, trocou-as por outras mais finas, sem compressão, os dedinhos dos pés livres, para contrabalançar o abafamento da cinta. Reprisou o truque do creme hidratante por sobre, como a Beyoncé, aprendido num blog, para disfarçar o efeito artificial da trama de nylon e tornou o pretinho justíssimo por cima, gotículas de suor na testa e no buço querendo estragar a maquiagem.

Dessa vez, seu reflexo trincado sorriu de volta. Os dentes pequenos, mas muito brancos, por trás dos lábios exageradamente inflados, na meia-ponta, simulando o salto alto, contorceu-se numa espiral para visualizar a retaguarda.  Gostosa!

O scarpin vermelho, companheiro das melhores horas, foi buscá-lo na sapateira atrás da porta do quarto de empregada. Com ele não havia surpresas, sempre calçava como uma luva, os pés haviam resistido à passagem do tempo incólumes, congelados no trinta e seis desde os treze.

Sentada na beirada da cama, calçou os dois pés ao mesmo tempo. O bico fino pareceu ligeiramente mais macio do que o normal. Desfilou uns passinhos, o salto nove e meio parecendo elevar em um palmo sua elegância duvidosa. Além de macia, a parte dianteira dos calçados parecia úmida, talvez untuosa. Retirou- os, examinou-os por dentro apalpando-os e com os olhos, nada de errado. Olhou o relógio, estava quase atrasada. Calçou-os de novo e voltou ao espelho para o batom cor de boca, mas bem brilhoso, efeito boca molhada.

A sensação foi de uma língua, sincronizada com o movimento de escorregar a barra do batom nos lábios, roçando por baixo e em torno dos dedos maiores dos pés, A cada repassar do batom, o movimento da língua em tono dos dedões se repetia provocando arrepios nos pelos da nuca, nas costas e nas partes internas das coxas e dos braços.   

Sentou-se na cama, os lábios entreabertos, a testa franzida tentando entender o que se passava enquanto dentro dos bicos finos dos sapatos a língua úmida começou um movimento leve de sucção nos dedos, tão deliciosamente cálido que a fez jogar a cabeça para trás — o peito apontando para o teto — soltando um gritinho de prazer antes de desabar sobre a colcha de cetim vermelho escorregadia e gelada.

No fundo negro das pálpebras cerradas, constelações multicoloridas alternavam-se ao ritmo do gozo que se irradiava a partir das pontas dos pés nus envolvidos pela lascívia da boca insaciável do stiletto.

Só abriu os olhos quando teve a certeza de que se apagara definitivamente o brilho da última estrelinha pálida. No antiquado relógio da cabeceira, outra certeza. Os ponteiros haviam deixado para trás a hora marcada. Com mais vinte minutos do deslocamento até o local combinado, o encontro estava irreversivelmente gorado.

Despiu a roupa lentamente, depois de descalçar os sapatos com todo o cuidado. Nua, o corpo completamente à vontade, embora ainda fosse cedo e não tivesse jantado, meteu-se entre os lençóis, satisfeita. Revirou-se um pouco na cama. Estendeu o braço querendo alcançar o calmante, um frasco na gaveta do criado, mas uma ideia melhor lhe ocorreu ao dar com os olhos nos rubros e lustrosos sapatinhos encantados jogados num canto do quarto, do lado esquerdo. Dormiu o melhor sono em muitos anos. Calçada, os dedos aconchegados no bico fino do stiletto vermelho.

12 comentários em “Encarnado – Elisa Ribeiro

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  1. Santa criatividade, Bátima! Quem imaginaria um enredo destes? Você, né? Bem legal. Pensei que ia ficar no drama da criatura se apertando para caber nas coisas, e aí VRAAAÁ! Aquele lance dos sapatos. Que coisa, véi, nunca esperei. Gostei foi muito. Já estava gostando e melhorou mais com a surpresa. Menina, como se diz aqui no Ceará, vc é mesmo FOGO NA ROUPA!

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  2. Ui! Elisa do céu, hahaha…
    Que conto sexy foi esse?! Agora me deu um calor aqui!
    Amei! Queria ter essa criatividade, mas acho que queria mesmo era ter esses sapatos!
    Parabéns, muito bom! Beijos!

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  3. KKKK sensacional. Um texto completamente inusitado. Já estava ótimo no começo, a cena muito bem descrita, eu já vendo a personagem lá no quarto. Depois a virada deixou o conto ainda mais criativo e interessante. Muito bom. Adorei. Parabéns, Elisa.

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  4. “Cada sapato conta uma história”, já dizia Imelda Marcos. E antes de atirar a primeira pedra, acredito que todas nós temos nossa porção Imelda. Afinal, os sapatos povoam o imaginário feminino desde a infância.E, encarnados… Seria então o sapato o elo perdido com a sensualidade?

    De início, pensei que o conto seria apenas mais uma história de fetiche por sapatos; mas ele se desdobrou em muito mais. Parabéns, Elisa, pela ideia e pela construção. Amei sua história. Beijos.

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  5. Olá, Elisa! Que conto inusitado!!! kkkkkk Uma reviravolta surpreendente. Só ficou uma dúvida: porque ela guarda esses sapatos tão longe!!!!! kkkkk Muito bom!

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  6. Querida Elisa,

    Uma bela fábula sobre a necessidade e existência do prazer além da idade e do manequim.
    Todas, todas as mulheres merecem (nem que seja a partir da relação com o sapato! Hahahahah).
    Beijos

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  7. Hummm…. erotismo sutil, mas derramado em palavras. O corpo pode ter mudado, o tubinho perfeito já não veste assim tão perfeito, mas os sapatos, ah, eles sabem de toda a sua história e são vermelhos como o desejo deve ser. Com a idade, a mulher sabe onde pisa e ninguém mais calça seus sapatos, é dona do seu destino… mesmo que seja estar só entre lençóis, mas tendo todo o prazer que merece . Adorei esse conto, inusitado e brilhante. Beijos.

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  8. Sapatos… Quem não os ama? Sapatos estão no imaginário feminino há muito tempo. Não é de hoje que mulheres calçam sapatos e sentem que compraram uma nova mulher, uma que está bem longe daquela que os comprou, mas que, ao mesmo tempo está, sim, bem dentro dela. Poder, elegância e sensualidade estão exatamente naquele exemplar que se compra, não é mesmo? Talvez com a idade, os sapatos nem exerçam tanto poder assim. Pessoas, de uma maneira mais geral, à medida que envelhecem, vão percebendo que a simplicidade não está exatamente em um par de sapatos. Mas enfim… Seu conto é lindo, sensual e muito sutil. Parabéns pelo texto.
    Abraços carinhosos.

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  9. Querida Elisa,
    Como já comentei com você, este conto deveria fazer parte de um livro com estas cenas femininas tão autênticas e dissonantes.
    Sensacional.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

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  10. Hahahah nem sei o que comentar rsrsrs. Só uso tênis, acho que não conhecerei esse sapato mágico kkkkkk . Bem criativo e ao mesmo tempo uma analogia de como é sentir-se satisfeita consigo mesma sem precisar caber nos padrões de outros. Adorei! bjs ❤

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