Cicatrizes na Alegria – Fheluany Nogueira

 A mãe, ditadora:

Vai ficar na casa de tia Rita!

Nunca fui lá! A menina pousava sólido, mas era toda líquido, quase se derramando. De seu território, só a boneca e a mochila. E continuava nele, atrasando-se em aceitar o lá, toda fiel ao aqui.

Deu-se, enfim, a hora dela e da tia. A velha mirava a pequena, miudamente, disfarçando, como se não visse o seu desencanto. E, já que ela não escolhera estar ali, quis lhe oferecer outras alternativas:

Azul ou verde?, a cor da toalha de banho.

A de solteiro ou no colchão, comigo?, a cama onde dormiria.

Pipoca ou cachorro-quente? o lanche da tarde.

A sobrinha-neta nas suas preferências, menos triste, mas ainda remota.

A tia na cozinha com a louça. A menina debruçou-se à janela: o jardinzinho, a rua vazia, o ar raro. Permaneceu ali, apartada, a alma encolhida, à espera da piora.

Estou lá no quintal, a velhota disse, e saiu pela porta da cozinha.

A garota voltou-se para a luz da tarde que se espichava pelo corredor e foi atrás. Espantou-se com as árvores e suas sombras no chão de terra. O interesse reacendia nas fagulhas do olhar.

Gostou da jabuticabeira?, a tia a atiçou, Venha, venha experimentar no pé. É uma delícia.

E ela foi disposta a resistir. Continuava aborrecida, mas a intolerância já não operava em máxima rotação e quase cessou, quando chupou o caldinho das primeiras jabuticabas. Doces as pequenas, chamativas as graúdas…

Dali, misturada à galharia, viu a tia a cavoucar um canteiro:  ervas, de diversos verdes. Foi até ela assuntar: já não era só menina-respostas, mas também menina-perguntas:

O que é isso?

Uma horta, meu bem

O que a senhora tá fazendo?

Afofando a terra.

É tudo alface?,

Não. Acelga, almeirão, escarola. A tia, sorrindo, e apontava as folhas. Ali, pertinho do muro, as plantas de tempero… E estendeu para ela um galhinho que apanhara: Cheira! Ela cheirou. E era a hortelã. E, outro: era alecrim. E depois era o manjericão.

A tia instigou o toque em cada folhagem, a aspereza de umas, a finura de outras; a morder erva-doce, salsa, cebolinha. De repente, o pesar dela se enfiava no canteiro, e lhe saía pelas mãos. Ao tocar as plantinhas nascia uma semente de alegria, enquanto os torrões de terra se infiltravam sob suas unhas.

Demorou a perceber que a tia pedia ajuda para levantar-se e nele se amparou até a porta da cozinha. A menina só olhos, não sabia ainda ir à raiz dos eventos; só via o que saía deles, o tronco, os galhos, as folhas, mas não o que lhes dava sustento.

Depois, seguiram para a sala, a pequena a fazer desenhos num papel, ainda se estranhando ali, menos contrariada; a dona-da-casa a ver uma revista, um olho nas páginas já manuseadas, outro na página viva a sua frente.

E veio o banho quente, o ruído dos insetos, o jantar, os vultos nas casas vizinhas, o coração espremido de novo, a saudade dos pais que o submetiam àquela provação. Diante da TV, a angústia vazava.

Sobreveio o sono. Adormeceu, em sobressaltos, escutando o relógio cuco na sala, uma confusão de imagens, só o canteiro de ervas em luz.

Ao amanhecer, viu-se atrás da tia Rita, para lá e para cá, sem notar que era tudo o que desejava e, no fundo, um jeito de desentristecer. Acompanhou-a ao mercado e, no caminho, vieram perguntas e respostas. De súbito, a menina já narrava umas coisas de sua vida, os amigos da escola, a professora, os jogos, a coleção de cards: Tá faltando só dez. E, tanto a velha a incentivava e o ouvia com atenção, que sentiu gosto em dizer o que dizia.

Na volta, carregando as sacolas, pisava com satisfação o sol entre as sombras da calçada, mirava a copa das árvores, o céu de azul lindo, sem entender direito a calma que o dominava. A idosa ultrapassava-se em alegria; a maior delas ali, o bonito de descobrir que o fruto se produzia em qualquer lugar:

Me espere, não vai tão depressa, ela pediu.

Tá bom, eu te espero…

Em casa, a tia ao fogão. A menina no quintal: tirou os sapatos, os pés na terra. Trepou na mangueira, ficou em seus galhos, empoleirado, sorvendo o frescor do vento. Nem viviam mais nela as querências de ontem. Assustou-se com os passarinhos; cortavam os espaços, coloriam o ar. E seus voos, repentinos, a cantoria…

Depois, quando a tia veio ao canteiro colher alface, correu até ela: Deixa ajudar, titia? E gostou de mexer novamente na terra, seca na superfície, úmida lá dentro.

E foi assim: aos poucos desabava o edifício do não-querer. Ela e o amor da tia fizeram umas tantas coisas juntas que o dia se encompridou: assistiram desenhos animados — a garota a explicar quem era quem, a Tulip, Steven e suas aventuras com as Crystal Gems, o mundo de Gumball.

Olha lá, tia, aquela Hilda. Tem cabelos azuis.  — e jogaram dama, e comeram bolo de fubá e riram e silenciaram. Não lhe doía mais estar ali.

Vieram os outros dias. E tudo se repetiu no variado da vida. O mais querido da menina era o quintal, o entre as árvores, os cuidados com a horta, e tão bom que a tia resolvera semear, ampliar uns canteiros, adubar as verduras. Num canto da sala, a boneca abandonada.

Descobria-se, de repente, a parte secreta de si, o leve do viver, e o mais leve era vivê-lo com alguém, falando de si e das coisas:

Vai demorar pra crescer os tomates, tia Rita?, Os passarinhos estão bicando as laranjas!, A senhora faz batata frita pra mim?

Tagarelando na varanda, a menina viu o carro. Era o tempo de voltar. Mas já? Tudo ia tão rápido quando a alegria vagava na gente…

A menina refez a mala, sem entender a iminência do fim. A alma, num minuto, reaprendia a sofrer. Recebeu o abraço da tia, e rápido se soltou. Não queria se entregar mais, apenas compreender o que acontecera. E, num clarão, compreendeu: sempre uma ida às coisas e sua sequente despedida.

Na mesma hora que ganhava a vivência, ela se perdia. Sorte que vinha outra, a cicatrizar a alegria ou a abrir nova ferida, também logo substituída. E as pessoas nesse renovar-se, envelhecendo.

O carro se moveu, vagaroso, e a menina acenou para a tia:

Tchau, tchau… Só não entendia por que, na tarde tão ensolarada, aquela garoa em seus olhos.

14 comentários em “Cicatrizes na Alegria – Fheluany Nogueira

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  1. Eu te amo por isso, mas não só por isso. Esse conto é lindo! Precisava de uma leitura para encher a alma de saudade boa nesse dia tão pesado. Ô coisa de abraço esse seu conto. esse conto é um abraço daqueles que não se quer largar. Como é leve e terno e de uma singularidade que só poucas pessoas conseguem passar na escrita. Obrigada.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  2. Olá, Fátima! Para mim, essa é uma obra-prima, um dos mais belos contos que já li. Além da delicadeza da situação e do tema, há um trabalho primoroso com a linguagem que merece destaque. A renovação da vida, a saudade, a infância, a velhice, tantos temas abordados num instantâneo da realidade, escrito com maestria estupenda. Arrasou!!

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  3. Tudo tão suave. Achei lindo. A sabedoria da tia avó soube deixar a menina à vontade e por vontade própria, ser conquistada. A ambientação bem moldada construiu telas de cores calmas em meus pensamentos. Obrigada e parabéns.

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  4. Que conto sublime!, Fátima!
    Desde a escolha do tema, a ambientação, o desenvolvimento – lento e suave como uma tarde dourada quando a gente é criança -, as sutilezas da relação construída entre as duas, até o final impecável: tudo perfeito!
    Um dos mais delicados textos que já li! Um presente lindo nestes dias tão sem poesia que vivemos…
    Parabéns!

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  5. Mas que conto maravilhoso!!!!!!! Fátima, me fez chorar aqui. Que sensibilidade. Que interessante esse sofrer constante por alternarmos sempre os momentos bons com os ruins, nos fazendo sentir medo do bom por sabermos que é finito. O readaptar. E assim vamos crescendo e aprendendo a aceitar. Que maravilha de final. Amei.

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  6. Que lindeza, hein, Fátima? Se eu fosse de chorar lendo textos, teria me desidratado. Muita sensibilidade para tratar de um encontro de gerações aparentemente distantes, que se afinam com o passar dos dias. A menina e a tia criam raízes no coração uma da outra. O final é de uma poesia sem explicação, só é e pronto. Lindo. Já disse que achei lindo?
    Observação: em alguns momentos, fiquei com a impressão de que a sua primeira escolha teria sido por um garotinho. Até fiquei pensando se não estava querendo introduzir a ideia de indefinição de gênero, porque na verdade, diante de tal narrativa, tanto faz.
    Vou repetir – achei lindo lindo lindo lindo lindo lindo.
    Beijos.

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  7. Querida Fátima,
    Delicado, delicioso, magnífico. Lindo demais, seu conto me fez chorar. Um choro de nostalgia, de admiração por sua sensibilidade.
    Maravilhoso, de verdade.
    Beijos
    Paula Giannini

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  8. O lado bom de quando essas situações nos fazem chorar é que as lágrimas carregam consigo parte da tensão. Obrigada pela leitura e comentário. Repito que sua opinião é importante para mim. Beijos

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