Rendição – Giselle Fiorini Bohn

Quando eu tinha quinze anos eu gostava de roer as unhas. Adorava tirar cada pedacinho, contorcendo minha boca até que não sentisse mais nenhuma farpa teimosa, até que meus dedos latejassem de dor. Mas eu não ligava, e eu os apertava uns contra os outros até que ficassem amortecidos. Roer as unhas era uma infantilidade, uma prova da minha ansiedade. Já aos trinta, eu me sentava com todos meus pequeninos vidros de tinta colorida, e com seus pequeninos pincéis eu pintava minhas unhas cada dia de uma cor diferente, pois não era mais criança nem ansiosa, e precisa mostrar isso pra todo mundo.

Quando eu tinha quinze anos eu gostava de barulho. Adorava música alta, o vozerio de conversas, gargalhadas ruidosas. Nunca havia silêncio na minha vida, e a quietude soava como um castigo. Aos trinta, o silêncio era um intruso que se tornara meu companheiro de todas as horas. Estava lá quando eu acordava e lá quando comia e lá quando descansava e lá quando me deitava. O silêncio, porém, nunca fora tão ensurdecedor.

Quando eu tinha quinze anos eu gostava do calor. Adorava vestir pouca roupa e sentir o cabelo grudado pelo suor em meu rosto me deixando mais bonita – ao menos eu pensava que sim. E o sol era tão bem vindo e escurecia minha pele e deixava marcas que eu amava ver surgir em lugares estratégicos. Aos trinta, o calor me irritava e eu amaldiçoava, entre dentes cerrados, o sol que um dia fora tão desejado. Pois ele agora me açoitava e novamente me deixava marcas, mas essas se chamavam rugas e ficavam naqueles pontos do rosto que a preocupação e a amargura teimavam em riscar.

Quando eu tinha quinze anos eu gostava do frio. Adorava sentir o vento gelado, que deixava minha face rosada e meus lábios vermelhos. Eu amava esquentar minhas mãos colocando-as sobre minha barriga quente e sob as roupas pesadas que aguardavam meses dentro do armário pela chance de sair. Aos trinta, o frio me doía nos ossos e meus pés pareciam não ter sangue algum. Eu colocava minhas mãos sobre a pele que agora tremia todo o tempo, mas nem todas as roupas do mundo pareciam esquentar aquela alma gelada.

Quando eu tinha quinze anos eu gostava das pessoas. Adorava festas, encontros, aquelas rodinhas que se formavam em qualquer lugar. Queria estar sempre cercada de gente, e ninguém me aborrecia. Aos trinta, as pessoas me decepcionavam e me maltratavam sem nem perceber, e eu, confusa, me retraía e me protegia de ser ainda mais magoada, e meu isolamento confundia e magoava as pessoas que eu decepcionava e maltratava sem nem perceber.

Quando eu tinha quinze anos toda manhã era um deleite. Eu pulava da cama já sorrindo por tudo o que aquele dia e todos os outros à frente me trariam. Meu presente era êxtase, e meu futuro a promessa de muitos mais. Aos trinta, toda manhã era um flagelo. Eu abria os olhos e percebia que ninguém, de novo, atendera às minhas preces, e eu mais uma vez despertava. Meu presente era punição, e meu futuro a ameaça de muitas mais.   

Passaram-se trinta e cinco anos desde meus quinze, e vinte desde os meus trinta. E hoje não olho para aquela garota e para aquela mulher com a sabedoria que os anos me trouxeram, pois não a tenho. Se posso ofertar-lhes algo, que seja o único tesouro que guardei, ao qual dei o nome de rendição. Talvez seja isso o que chamam de sabedoria, afinal. Rendição. Venha, vida, venha me fazer rir pra depois me fazer chorar, venha me dar pra depois de mim tirar, venha me fazer crer pra depois me fazer duvidar, venha me fazer sangrar pra depois meu sangue estancar, venha, venha, venha. E depois comece tudo de novo. Eu me rendo, eu me submeto, eu aceito. Não, mais do que isso: eu quero, e eu quero tudo. Porque só hoje eu entendo que receber apenas o que eu consigo desejar é muito pouco perto do que eu preciso.

E assim estendo a mão àquela menina e àquela mulher, e lhes falo ao ouvido que fechem os olhos e sintam tudo isso que vocês estão sentindo. Já que não estamos no controle de nada mesmo, sintam tudo, tudo, sem medida. Porque você, aquela garota tão feliz em sua ignorante expectativa de incríveis realizações, nunca poderia imaginar as aflições que viriam pela frente. Ainda bem. Como também você não tinha ideia, minha amiga, da felicidade que ainda a aguardava, quando padecia ali, no auge de seu desapontamento com a árvore dos grandes feitos que então apenas forrava de frutos podres o chão. Ainda bem também. Tudo foi como deveria ser. Os risos excitados e ingênuos daqueles primeiros anos não foram menos imprescindíveis do que o pranto bruto e avassalador dos que viriam depois. Tudo foi magnífico e terrível exatamente como deveria ser. Sim, porque a vida é assim mesmo, não é? É gozo puro, é dor lancinante, é confiança plena, é traição sorrateira, é sentir que finalmente tudo está bem, é tapete puxado por debaixo dos pés. Ad infinitum.

E agora eu olho para os últimos cinquenta anos e para os quem sabe quantos mais virão, com uma xícara de café nas mãos, em absoluta rendição. O corpo cansado, sim, mas forte e cheio de cicatrizes, os olhos que não veem mais tão bem e veem melhor do que jamais viram, as rugas fundas que vieram dos dias doces ao sol e dos dias atormentados no escuro. E agora, quando ouço todos dizerem que a incerteza jogou seu manto sobre os nossos mundos, quando ouço todos questionarem o que será e o que não será de nós, eu emudeço. Eu não sei. Mas então me lembro que nunca soube, rendo-me, e fico em paz.

9 comentários em “Rendição – Giselle Fiorini Bohn

Adicione o seu

  1. * Crônica publicada na antologia Enquanto Estamos Aqui (2020), disponível como e-book na amazon.com.br, cuja renda é revertida integralmente à ONG Ação da Cidadania.

    ** Crédito da imagem: Toa Heftiba (Unsplash)

    Curtir

  2. Quando eu fazia faculdade, descobri que ao mesmo tempo em que a vida nos muda, nós também a mudamos com as nossas ações. Sua crônica me lembrou esta aula de hermenêutica jurídica. Nada consegue ficar incólume à tempestade de acontecimentos, que caem incansavelmente sobre nós. Você e você e você nos oferecem perspectivas da sua vida, considerando a passagem do tempo e a ocorrência dos fatos, moldando-a, construindo e desconstruindo a sua personalidade, e o faz de modo muito cativante, gostoso de ler e interessante de imaginar. Como sempre um ensinamento não apenas da arte de escrever, mas de emocionar. Beijos, querida.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Duas histórias contadas simultaneamente, que correspondem a dois momentos distintos na vida da protagonista principal, uma oposição ou um paralelo entre passado e presente e um arremate fechando com o agora.

    As frases dedicadas à juventude são compostas de breves, mas intensos, episódios. A vida adulta, ao contrário, traz outra sequência de experiências mais maduras. Interessante que a leitura poderia ser feita em qualquer ordem, sem alterar a compreensão ou os sentimentos — um fluxo de leitura ininterrupto, assim como a vida do personagem.

    Parabéns, Giselle, por esse trabalho comovente e reflexivo. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  4. A vida é constante mudança. Impermanência. Tudo muda, o tempo todo. O tempo muda tudo e com eles também vamos alterando os gostos e as percepções do que vemos e vivemos. Muito bom o seu texto que nos leva à reflexão sobre a passagem do tempo e da necessidade de nos redescobrirmos a cada etapa. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Olá, Giselle!
    Seus textos são muito comoventes, muito humanos e muito reflexivos sobre a vida. Aos quinze, essa menina vê o mundo com olhos para fora, aos trinta, a mulher vê com olhos para dentro de si e, aos cinquenta, a mulher de mais-idade vê com os olhos do mundo, que gira e faz girar, tirando-nos do eixo para fazendo-nos voltar a ele com a sapiência que o tempo dá. Perfeito!

    Curtido por 1 pessoa

  6. Ah… Quem pode dizer o que a vida é senão a tiver vivido? E mesmo assim, como se pode dizer se só se viveu aquela em definitivo? Aos quinze, aos trinta, aos cinquenta… Tantas coisas não? Nós somos esse amontoado de coisas. São sentimentos em tempos diferentes que colorem cada segundo do respirar. E só se vai entendendo no final, afinal, qual o sentido de nascer sabendo?
    Parabéns pelo texto belíssimo!
    Abraços carinhosos.

    Curtido por 1 pessoa

  7. Querida Gisele,
    Como lhe disse, a cada dia admiro mais a sua escrita. Muito bom. Seu texto causa empatia, sentimo-nos como a narradora. Bom demais.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: