Uma noite de Insônia – Fernanda Caleffi Barbetta

Abro os olhos, e o quarto ainda está escuro. Olho para o rádio-relógio. São 3 horas da manhã e o sono já foi embora. O Paulo dorme placidamente. Sinto inveja. Viro pro outro lado. Começo a pensar nas coisas que preciso fazer quando acordar. Isso se eu acordar mais uma vez ainda hoje. Espanto os pensamentos porque dizem que se a gente ficar pensando nas coisas que tem pra fazer a gente não pega mais no sono. Deus me livre. Preciso dormir. Melhor contar carneirinhos. Dizem que é infalível. 1, 2, 3, 20, 50, 200. Quebram a cerca e saem em disparada. Filhos da puta. Viro pro outro lado e, mais uma vez, dou de cara com o Paulo dormindo. Lembro-me daqueles filmes românticos em que a pessoa acorda antes e fica admirando o parceiro, que logo abre os olhos (sem remela), dá um sorrisinho maroto e pergunta: você estava aí me olhando dormir? Brega, muito brega. E o Paulo não parece que vai abrir os olhinhos remelentos agora.

Viro para o outro lado e tento tranquilizar minha mente. Dizem que pensar em um lugar calmo, com natureza, ajuda. Resolvo tentar e penso em um gramado verdinho, pássaros voando. Ouço até o som dos pássaros. Penso em um riachinho e ouço o barulho da água caindo calmamente. Sinto vontade de fazer xixi. Saio da cama com todo o cuidado para não acordar o coitado do Paulo que tem que levantar cedo amanhã. Ou melhor, hoje. Volto para a cama e penso no que preciso comprar no mercado, no que vou fazer para a janta. O gramado, volta 27 pro gramado. Verdade, o gramado. E se eu pensar que estou meditando? Quem sabe eu medito mesmo e durmo? Tento me concentrar, mas acabo não meditando nem dormindo. Viro para o outro lado. Talvez se eu der uma olhadinha no celular, posso ter likes no Facebook, coraçõezinhos novos no Instagram. Mas mudo de ideia antes de arruinar completamente minhas chances de adormecer antes do Paulo acordar. Dizem que se pegar no celular de madrugada, pode esquecer. É o fim. Não dorme mais de jeito nenhum. Viro de novo e me vejo como aqueles frangos que vendem na padaria todo domingo. Girando, girando. Hum. Sinto fome. Penso em descer pra beliscar algo na cozinha, mas logo desisto. Dizem que se a gente come de madrugada o organismo se acostuma e começa a pedir comida toda a madrugada. Já pensou? Vai que o meu se acostuma logo na primeira vez. Melhor não. E se eu lesse um livro? Mas aí teria que acender o abajur o que, muito provavelmente, acordaria o Paulo. O coitado do Paulo que tem que levantar cedo pra trabalhar. Penso em ir para a sala assistir algo na televisão. Mas nessa hora não vai ter nada de bom. Talvez uma série na Netflix? Mas se eu for para a sala agora, tchau-tchau sono. Melhor tentar mais um pouco porque dizem que se a gente ficar quietinho o sono vem. Vou ficar aqui quietinha. Mas o que será que tá passando na televisão? Nessa hora, filme pornô, claro. Hum, e se eu acordar o Paulo pra uma meia horinha de sexo? Ele sempre fala que se eu tiver vontade de noite é só cutucar que ele acorda preparado. Mas acho que é brincadeira dele. Vai acordar irritado. Coitado, tá quase na hora dele levantar pra trabalhar. 28 Olho para o relógio. Já são seis horas. Que hora será que o Paulo colocou pra despertar? Às vezes ele acorda um pouco antes do despertador. Olho para o Paulo e seu semblante calmo me diz que ele vai esperar a merda do despertador tocar. Já são 6h15 e nada do despertador. 6h29, agora vai tocar. Nada. Será que o Paulo se esqueceu de colocar para despertar? Acho que vou dar um chacoalhão nele. 6h45 o bip do despertador soa como música para os meus ouvidos. O Paulo acorda resmungando. Choraminga alguma coisa e se levanta. Bem feito, quem manda dormir. Agora levanta que tá na hora de ir trabalhar.

Texto publicado no livro 30 Textos para Descontrair

12 comentários em “Uma noite de Insônia – Fernanda Caleffi Barbetta

Adicione o seu

  1. É terrível despertar no meio da noite e ter dificuldade em voltar a dormir. Você, Fernanda, compôs um recorte do cotidiano, bem verossímil. Como leitura, uma situação divertida, mas se acontece com a gente… que angústia!

    Parabéns pela narrativa calcada na emoção e no susto do acaso ou da coincidência feliz. Calou fundo. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Hahaha, eu ri. Amiga, é bem assim mesmo. A vantagem de dormir sozinha é poder ligar a tv e deixar o sono vir. Outra coisa que faço é ler um livro beeeem chato. Aí o sono chega ligeirinho. Adorei seu texto. Ele é ao mesmo tempo bastante realista, mas é leve e divertido. Amei o mau humor da sua protagonista. Mas como não ficar mal humorado se você não consegue dormir? Um texto muito bom que gera imediata identificação do leitor. Parabéns. Fernandinha. A leitura de sua obra é isenta de arrependimento. Sempre agrada. Selo 100 por cento de aprovação. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Sabia que esse texto foi meu primeiro contato com você, e foi amor à primeira vista? Eu vi um vídeo seu no Facebook, fazendo essa leitura, e amei – virei sua fã!
    É um dos meus favoritos no seu livro, que também amo!
    Adoro o tema, a cadência, o humor; você acertou a mão em tudo! Parabéns, querida!
    Beijos!

    Curtir

  4. Olá, Fernanda!
    Seu livro, 30 Textos para Descontrair, é um sortilégio de bons textos, geralmente tirados do cotidiano com uma pegada de humor que é de uma qualidade rara, que deixa no leitor o gostinho de quero mais. Eu amo seus textos! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Que bom que tenho o seu livro com esse texto. Insonia é coisa complicada, pior ainda se vem junto com um ataque de ansiedade, aí que não se dorme mesmo e se teme a hora de dormir, um ciclo vicioso e torturante. Adorei o toque de humor na narrativa. Meu namorado é pior do que o Paulo, dorme direto e nem se abala, pode tocar samba, acender a luz, e ele continua dormindo. Inveja, mas que ele continue assim.
    Parabéns por mais um texto certeiro. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  6. Pura agonia. ô coisa triste de acontecer. Mas o bom é ter sempre algo para fazer quando isso acontece. Nesse texto, a cama parece uma prisão. A companhia parece uma prisão. Na minha cama dormem mais quatro junto de mim. Um gato grandão da raça humana, um gato adorável da raça felina e duas peludas da raça canina. Se eu levanto, sequer se mexem. Eu faço um chá, circulo pela casa, abro a porta da sacada, olho a rua, e é estranho e ao mesmo tempo fascinante viver esse silêncio da madrugada, quando tudo dorme, quando a casa sonha, onde só eu percorro os espaços, só eu respiro aqueles cômodos. Não sei se me considero sortuda ou sortudos são os que dormem tão profundamente.
    Amei o texto. Parabéns.
    Abraços carinhosos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: