Como fazia a cada dia… (Fheluany Nogueira)

Detive o olhar sobre a imagem: a última da família. A mãe saudável, o pai desconfortável. Entre os dois, Íris e eu, sorrindo em uma fotografia domingueira

Brincamos tanto naquela casa. No sótão, ainda restavam bonecas, livros de aventuras e lápis de cera ressecados que nos pertenceram.

 Ouvi um rápido tum-tum-tum de passos. Olhei para a escada, para o segundo andar. Alguém na casa? E, o único aviso era o ranger das tábuas do chão?

Voltei-me no exato momento em que a sombra avançou em minha direção. O impacto atingiu-me com força no peito e fui arremessada para trás, imobilizada pelo peso dos meus fantasmas.

Estendi a mão e toquei meu rosto de doze anos. Sou um ser diferente, agora. Não o mesmo que via ao me olhar no porta-retrato sobre a antiga cômoda. Não me lembrava daquela menina. Apenas da outra, um pouco mais velha. E pensei, como fazia a cada dia:

O que Íris estaria fazendo agora?

A mala rosa lembrava um daqueles filmes da Disney. Mamãe tirava as coisas de Íris, arrumando-as como arrumava tudo o mais. Dobrava as roupas, fazia pilhas perfeitas e as colocava dentro do armário, como se o que acontecesse com as roupas tivesse alguma importância.

De pé ao lado da cama, a menina queria que a mãe parasse com aquilo:

Não faz isso, ainda não, queria dizer. Quando eu quiser faço do meu jeito. São as minhas coisas. As palavras estavam lá, atravessadas na garganta, se avolumando.

Pronto. O armário cheio de pedaços de vida, todos bem arrumados e escondidos atrás das portas. Mamãe, olhando em volta do quarto como se quisesse digerir aquilo tudo. Talvez estivesse apenas pensando no que fazer ou dizer e odiando ficar parada.

Se pelo menos seu pai estivesse aqui – ela disse, do nada. – Ele queria vir, para estar aqui com você.

Foi o suficiente para desatravessar tudo:

Não! É o trabalho dele. Ele vai ligar, vai mandar email. Olha o computador aqui. Íris parou ao perceber que estava gritando. Lançou um olhar de revolta para o quarto: Eu não quero que ele venha.

Não perca o controle agora, pensei. Eu, ali do lado, torcendo pela minha irmã. Mas, com a inspiração e a expiração, toda a força dela parecia ter ido embora. Os olhos cheios, pesados. Ela queria que o pai viesse, eu acreditava, queria tanto que chegava a doer…

Ele trabalhava longe, normal. Vinha para casa quando tinha licença, normal. Tinha que fazer tudo do mesmo jeito de sempre, normal.

Desse jeito, só desse jeito, eu vou melhorar. Ela o tinha feito prometer. Jurar que não faria nada diferente.

Se ela pudesse dizer que estava bem, pudesse mostrar que era verdade, papai se sentiria melhor. Ele, mamãe, vovô, e todos que andavam preocupados com ela se sentiriam melhor. Só estavam tentando seguir em frente.

Não seguiriam em frente, não sem ela. E era assim que as coisas ficariam, assim que seriam, até Íris dar o toque, fazer o sinal. Ela tinha que deixar o mundo entrar.  A decisão estava nas mãos da menina.

O ar parado. Nem uma folha se mexia. Nada de pássaros nem de ruídos. Era estar dentro de uma bolha, com o mundo ao redor implorando para entrar.

Não era tão difícil ir a uma festa, comemorar. Não era tão difícil postar um desenho no Facebook.

Não era tão difícil trocar mensagens com Vítor, agradecendo por ter se dado ao trabalho de mandar as tarefas escolares.

Ela poderia fazer tudo aquilo. O ar a sua volta se mexia, como se tivesse recebido permissão para isso. Uma brisa sacudia as cortinas, fazendo as irmãs voltarem à vida.

Só tinha uma coisa: nada poderia acontecer até ela falar com Bruna, contar tudo. Precisava começar por aí.

Íris pegou o celular. Foi o primeiro número que apareceu. Sempre foi assim. Sempre seria.

Bruna?

Houve um instante de silêncio. Um intervalo entre relâmpago e trovão: o instante em que se fica esperando o estrondo não ser tão assustador. Fiquei imaginando se a amiga dela não ia simplesmente se recusar a atender. Íris não a culparia, não ficaria surpresa. O que mereço além disso?, pensaria.

Oi! A voz de Bruna saía baixinha no viva-voz. Então você já está em casa? Parecia uma acusação.

Cheguei a pouco. Precisei desfazer as malas e tudo, mas… Um motor de carro rugia e, em seguida, uma nuvem de pássaros explodiu na árvore que se via da janela. Nunca tínhamos visto tantos pássaros voando de uma vez. Ficamos os observando se derreterem no céu.

Você ainda tá aí? Íris?

Desculpa. Tô sim. Eu queria perguntar… se eu posso ir aí. Bem rapidinho? Quando eu terminar de arrumar minhas coisas.

Tá… Bruna não parecia ter muita certeza, como se aquilo pudesse ser uma piada de mau gosto. Logo ela.

É que… eu preciso contar uma coisa.

Então minha irmã começou a chorar, porque se deu conta, tão de repente quanto aqueles pássaros saíram voando, de que Bruna teria entendido se ela tivesse contado antes.

Dias antes.

Semanas antes.

Então, saberia o que dizer.

Não tinha nada a ver com ter câncer ou fazer quimioterapia. Aquelas coisas das quais tinham medo. Tinha a ver com um menino, simples assim. E elas poderiam ter rido juntas com a história do Vítor, de todas as coisas que ele disse e fez, e de todas as encrencas em que ele se metia.

E, teriam chorado juntas.

Ela teria se sentindo melhor.

Mas agora estava ali, sozinha. Chorando.

Íris? O que que foi? Estou indo aí. Já. Magoada e esquecida se apressou Bruna, que não suportava ver ninguém chateado, muito menos sua melhor amiga.

Não, tá tudo bem… eu preciso… falar para você de alguém que eu… beijei. Íris passava a mão devagar sobre os olhos. Alguém, no hospital.

Mais um instante de silêncio. Como se fosse Bruna quem estivesse tentando montar um quebra-cabeça impossível e tivesse encontrado agora a peça que faltava.

Qual o nome dele? Um tom gentil. É claro que ela sabia que tinha a ver com Vítor, mesmo que ninguém tivesse contado.

O mundo pareceu se mover naquele instante, como se tivesse sido tirado do lugar por algum terremoto. E, voltava, devagarinho, ao lugar onde deveria estar. Mas nunca seria exatamente igual. Como poderia ser? Por algum motivo, aquilo já era o suficiente.

Ruídos normais, do dia a dia, tomavam conta da rua. Crianças brincavam, um cachorro corria atrás da bola. As amigas batiam papo como se nada tivesse acontecido. Ou tudo. Dentro de mim, nada parecia normal. Uma estranha olhando para dentro.

Ou talvez o contrário.

Outros momentos vieram nos chamar à vida, cada um, abastecido do outro. Podíamos fazer, sem culpa, o que a ocasião nos pedia: tomar banho, ler a bula de um remédio, ir à sacada, ligar para uma amiga, mamãe pagar contas pela internet, o pai chegar em casa, Íris escolher um filme, e, todos nós, lado a lado, acompanhar as cenas; papai sobrevoando os olhos pela página do jornal.

Chegou o dia, em que o sol se foi da cidade quase sem pássaros, quando a lua, crescente, apontava no céu, para que nós nos despedíssemos, misturando as vidas, as palavras de baixo ocupando o lugar das de cima.

A noite veio com o medo, o cansaço; não uma longa e escura hora antes de um novo dia. Não mais continuaríamos realizando nossos pequenos feitos, juntos. Ou individualmente.

Meu coração se atiçava com o futuro que eu construía na névoa entre a vigília e o sono. Experimentava, ansiosa, o que não era a vida na sua certeza; era só a promessa, o desejo que iria depois conferir.

De olhos fechados, no escuro, fico pensando em nossa Íris.

Esteve tão perto, no quarto ao lado. Podia ouvir o som suave de sua respiração.

Agora a saudade continua crescendo, crescendo como a Lua lá fora. Então foi que entendi, e, mais do que entender, eu senti… o que era partir.

16 comentários em “Como fazia a cada dia… (Fheluany Nogueira)

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  1. Oi, Fátima. Seu conto me fez lembrar de um filme, cujo nome eu não me recordo agora. Um filme sobre uma mãe que luta para que uma filha doe medula para outra. Uma mãe que teve uma filha para salvar a outra que estava com câncer. Leucemia. E essa menina, a doente, também se apaixonou por um garoto. O filme conta estes dramas que vão além da doença. Porque a vida é muito mais do que a doença, embora a doença interfira em todas as relações da vida. E da morte. E da saudade. E da vida de quem ficou. Parabéns pelo conto, querida. Sempre explorando situações relevantes. Abraços.

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    1. Que gratificante é o seu comentário! Fico feliz que tenha gostado, eu acho que vi este filme sim, mas me inspirei mesmo foi na vida real – cheguei a vivenciar fatos assim. Obrigada pela leitura e pela sua pronta atenção, amiga! Beijos!

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  2. Ah, Fatima, que linda e triste história você trouxe, em lágrimas, aqui☺
    A recordação da irmã de Íris, tornada tão vívida, tão real em cada detalhe, a então menina (pres)sentindo cada segundo, diria, que antecedia o dia mais temido por ela.
    Triste pensar nas saudades, principalmente quando elas envolvem as possibilidades: e se a pessoa estivesse aqui, o que estaria fazendo?…nossa, eu sei como é essa sensação.
    Você dá ainda beleza e poesia nas imagens singelas de cotidiano, nas esperanças de uma adolescente, na realidade de tudo que já não é, não será, mais.
    Muito bom ler seus contos…gosto muitíssimo, às vezes deixo para comentar e o tempo passa, mas estou mudando isso😍
    Bjokas!

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  3. Oi, Fheluany!

    Gostei muito do seu conto.Cheio de construções que evocam emoção. Aos poucos vamos mergulhando no acontecido sem deixar de sentir por meio das descrições da personagem. É bonito, apesar de triste, pois a morte é triste de fato.
    Parabéns!

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  4. Você tem o dom de tratar de assuntos delicados com beleza, usando as palavras certas, o sentimento na dose exata. Não é um texto simples, é um texto que exige mais do que atenção, exige um envolvimento do leitor com a história, que apesar de trsute, é linda. Muito bom. Parabéns.

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  5. Fátima… Que conto triste, mas que conto lindo. Eu sei que o amor é grande e forte, mas a memória é o que nos mata. É ela que vai nos carregando pela mão e nos fazendo reviver momentos preciosos do que vivemos. Nesses momentos não creio que existam palavras cabíveis para falar do que nos comove.
    Parabéns pelo texto.
    Beijos e abraços carinhosos.

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  6. Olá, Fátima!
    Quantas lembranças guarda uma casa? E quantos segredos as portas fechadas? A menina volta à casa e ao seu passado, à irmã, à doença, ao pai distante, à morte. Tudo contado com muita delicadeza no seu conto. O suspense, aos poucos, vai se revelando com muita dor e a cumplicidade de irmãs que não mais existe. Muito bom. Obrigada por nos brindar com uma história comovente.

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  7. Que lindeza de texto, Fátima! Encantada com sua escrita: delicada e forte ao mesmo tempo! Uma narrativa onírica e imagética! Adorei!
    Parabéns!

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  8. Querida Fátima,
    Neste conto (como em vários outros seus) me encanta a voz narrativa tão crível, tão autenticamente capaz de criar empatia em seu leitor.
    Parabéns.
    Adorei.
    Beijos
    Paula Giannini

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