Sem Saída – Fernanda Caleffi Barbetta

Construi uma casa
com todas as janelas para
dentro,
do banheiro via a sala
do quarto via a cozinha.
Não deixei portas para o
exterior
para que ninguém entrasse,
e eu não conseguia sair também.
De fora,
faziam buracos nos tijolos,
que eu tapava,
apressada, ansiosa, nervosa.
Hoje, quebrei as paredes
internas
até derrubar a que dava
para fora.
Mas a rua estava
deserta.

14 comentários em “Sem Saída – Fernanda Caleffi Barbetta

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  1. Um poema cadenciado, sonoro que mostra a situação do preso, voluntário e “sem saída”, sem como se comunicar com outrem (uma condição do isolamento social imposto pela pandemia?) e que, mesmo quando o eu-lírico consegue romper as barreiras, é tarde, “a rua estava deserta”. Quanta desolação!

    Parabéns pela concisão vocabular, espontaneidade e hábil uso das palavras que caracterizam essa elaborada alegoria para a incomunicabilidade. Beijos.

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  2. Li algumas vezes. A princípio achei que era a metáfora da depressão, uma vez que o isolamento era voluntário. Uma pessoa que constrói meios de enxergar o que está dentro, a sua própria solidão buscando companhia, na ilusão de pessoas inexistentes. Sempre à procura. Depois pensei na situação que vivemos. Um isolamento forçado, mas voluntário ao mesmo tempo. Por fim pensei nas janelas para dentro. Num autoconhecimento, numa auto punição, em perder. O arremate do poema é a solidão exterior. O eu -lírico se vê sozinho de verdade. O tempo passou e ele foi esquecido. Ficou para trás. Não era mais importante para ninguém. Sozinho na multidão. Invisível. Achei lindo, Fernanda. Parabéns.

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  3. OI
    Legal! Trágico! Quem muito se esconde acaba não fazendo mais falta. Gostei do tom, da epfania final. Vc se veda de tudo e de todos e os momentos vão passando, até que resolve agir, mas algo se perde.
    Parabéns!

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  4. Agora me lembrei de Mario Quintana… ““Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas”. Porque no meu entendimento, nossa primeira casa é em nós mesmos. Quanto mais olhamos para dentro de nós, quanto mais nos conhecemos, mais nos afastamos do que não nos cabe. Talvez o deserto da rua não seja tão ruim. Quanto nos conhecemos conseguimos a nossa melhor companhia – nós mesmos. Eu sei, eu sei. É preciso interagir, é preciso conhecer o mundo, o outro… Mas para tudo existe um tempo. Talvez o tempo dessa moça, aí, seja o agora. Agora ela vai sair, agora ela vai caminhar por aí. Se a rua está deserta, quem sabe os outros estejam também fechados em si, esperando por um bater de portas. Amei seu poema.
    Abraços carinhosos.

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  5. Olá, Fê!
    Esse poema dá o que pensar. Nele, cabem muitas reflexões, conforme as ‘devolutivas’ das colegas acima. Acredito que, aquele que se fecha em si, acaba se isolando dos outros. Mas também existem aqueles que buscam um autoconhecimento. Seguindo seu verso final, quase epifânico, quando o eu-lírico se acha pronto para enfrentar o mundo, encontra uma rua deserta. Pode ser que não encontre ao redor mais pessoas cujas relações pessoais possam ser resgatadas, de fato, mas pode ser também que para encontrar quem valha a pena, ele tenha que caminhar um pouco mais, bater com delicadeza numa casa para dentro ou quebrar um tijolo para que a conexão se estabeleça. Acho que vivemos meio assim, tão enclausurados em nós mesmos que não nos arriscamos mais a buscar. Um belo poema, com cadência, com emoção e o verso final, arrebatador.

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    1. Quando o coemntário fica melhor que o poema: “mas pode ser também que para encontrar quem valha a pena, ele tenha que caminhar um pouco mais, bater com delicadeza numa casa para dentro ou quebrar um tijolo para que a conexão se estabeleça.” demais isso, minha amiga querida. É isso mesmo, podem ser todas estas interpretações que você apresentou tão bem. Muito obrigada pelo carinho com meu poema. Bjs.

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  6. Fui lendo o seu poema e imaginando ao invés de uma casa, um casulo onde a pessoa foi aos poucos se fechando, de tanto olhar para si mesma, alimentar seus medos e escuridões, desacostumou-se com o lado de fora, com os outros. Pensei também na casa do João de Barro, lacrada, sem saída… e no caso, os bem intencionados, que tentavam abrir pequenas frestas na muralha criada, eram logo desestimulados… pois a dona da casa, do casulo, fechava cada pontinho de luz, de contato com o exterior. No dia em que acordou e achou que poderia sim, sair para a rua, ver pessoas, ser parte do todo, percebeu que o mundo já desistira também dela. Foi assim que interpretei… Parabéns.

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  7. Oi, Fernanda!..
    Adoro esse poema, adoro! Acho que porque tenho uma grande identificação com essa temática, como você, que já me leu, pode certamente imaginar…
    Lindo mesmo!
    Parabéns, e nos presenteie sempre com essas joias!
    Beijo!

    Curtido por 1 pessoa

  8. Querida Fernanda,
    Este poema é um de seus grandes momentos. Um convite à psicanálise, com um e-lírico quase confessional, ainda que não.
    Incrível.
    Parabéns.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

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