Dicas imperdíveis de beleza de Dona Marica – Catarina Cunha

Conheci Dona Marica só de bom-dia, boa-tarde e boa-noite; nisso vamos há mais de meio século. Recentemente, com a ajuda do isolamento compulsório,  começamos a trocar inusitados papos virtuais sobre padrões de beleza. Daí surgiu a ideia de documentar as dicas imperdíveis de beleza de minha amiga nada ortodoxa.

Com vocês a 1ª dica de Dona Marica:

Cabelos

Por que tê-los? Por que não tê-los? Como conviver com esse ser superior independente e indomável? Quanto a cores, conheço duas mulheres capilarmente complexas. Ambas cultas, belas, independentes, professoras e ligadas às artes.  As semelhanças param por aí. Uma mora em Caxias do Sul e faz experiências com todas as palhetas de cores em suas madeixas, harmonizando o branco natural com destaques coloridos em diversas áreas da cabeça, dando força ao seu rosto sereno. Não me lembro de tê-la visto mais de uma vez com os cabelos das mesmas cores. A outra mora no Rio de Janeiro e mantém seus cabelos, antes naturalmente louros e lisos, coloridos com variações alaranjadas beirando o ruivo, mas sempre com uma cor quente, que combina terrivelmente com sua pele branca e sobrancelhas negras. Ambas dominam sua identidade através da própria imagem.

Quanto à textura há quem alise cachos com chapinha, enrole lisos com bobes, use apliques gigantescos, perucas, dreads, black power, cortes dignos de um quadro de Picasso ou simplesmente raspem a cabeça. Várias ficam maravilhosas, outras nem tanto, algumas esquisitas, quando não assustadoras. Pois bem, se esse sentimento de estranhamento vem dos outros, que esses outros façam terapia, fechem os olhos ou fure-os, você não tem nada a ver com isso. Mas se você se olha no espelho e não gosta do que está no topo da sua cabeça, você é quem precisa de terapia ou mude, mude até conseguir uma boa relação com o espelho.  

O ponto principal é escolher e assumir a própria beleza como um trunfo único. Mas saiba que toda escolha tem o seu preço em tempo, muito tempo, dinheiro, muito dinheiro  e autoestima ondulante entre tentativa, erro e acerto. Não desista.

Eu escolhi ser maravilhosa gastando pouco tempo, pouco dinheiro e mantendo minha autoestima ondulante sem relações intensas com meus cabelos, só com os hormônios. Não dou muita atenção para eles, ou vão se achar mais belo do que eu; o que é impossível. Nunca os pintei, eles que se virem em mudar de cor, seja com o cloro da piscina, sol, frio e, mais recentemente,  fios brancos. Eles pensam que eu não reparei, finjo que não e continuo lavando-os diariamente com shampoo infantil, sem perfume, e me encantando com novos albinos recém-nascidos. Após o banho cedo um pingo de creme para não tortura-los na única penteada do dia, só para os nós não brigarem entre eles. Depois eles que se sequem como bem desejarem. Por mim eles podem se ajoelhar sobre minhas sobrancelhas implorando por uma escovada, não tem conversa, ganham só um arquinho fino de plástico ou um coque minimalista. Têm dias em que ficam ressabiados, mais lisos que fio dental, em outros acordam indecisos, meio ondulados de um lado, meio cacheados do outro e lisos em cima. Na lua cheia gostam de ficar destrambelhados; rebeldia que admiro, já que arrumadinho só combina com caixa de remédio. Respeito seus momentos íntimos e não interfiro.

Quanto à tesoura não tem conversa, eu decido quanto e quando. Não aviso nada para não ter chororô. Mas eles se recuperam rápido do susto e logo-logo se ajeitam como bem querem. Então eu levo a minha vida de boa e eles a deles. Assim a gente vive de forma mais leve a relação. Nunca rolou uma DR; nem vai rolar.

  Não perca, em breve, a próxima dica de Dona Marica: pele.

12 comentários em “Dicas imperdíveis de beleza de Dona Marica – Catarina Cunha

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  1. Olá, Cat.

    Esse lance de cabelo eu só passei a me preocupar quando eles se cansaram da minha pessoa.. Passei a maior parte da vida com meus cabelos naturalmente fartos e lisos, que cresciam como bicheira em pé de mendigo. Mas, ultimamente, resolveram me abandonar e o que é pior: na parte da frente. Já estava desesperando em estar ficando calva, quando acertei nos tratamentos e se não tenho ainda um topete de respeito, também não tenho mais buracos constrangedores mal cobertos pelos cabelos que sobraram. Também só penteio quando tomo banho, mas tomo uns quatro banhos porque aqui é quente para cacete. É isso, gostei da sua crônica. Abraços.

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  2. Adorei, Cat! Sabe, faço o que quiser com meus cabelos também e esse negócio de ter que ficar indo pra salão, passar horas lá, fazer isso e aquilo não é comigo… Aprendi a pintar, descolorir e cortar, em casa faço o que dá, que fica bom para os dois lados… Mas os brancos vão esperar um pouco. =D

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  3. Oi!

    Essas duas professoras aí, quem são, hein? Desconfio 😀

    Gostei do texto, é humorado, ao mesmo tempo que melancólico, pois envelhecer é um pouquinho assim mesmo e cada um encara de uma maneira, otimista ou não a sentença não muda. Admiro quem fica de boas com suas melenas, comigo isso não vai assim tão bem. Em todo caso, é um ritmo bacana de ser lido. Vc consegue fazer ouvir a voz (fala, tom de voz) de quem narra de forma natural, acho isso admirável.

    Vou esperar os próximos.

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  4. Muito boas as dicas de beleza de Dona Marica. Adorei o “arrumadinho só combina com caixa de remédio” – verdade.
    Texto divertido, mas que traz muitas verdades. Parabéns pela escrita tão desprentesiosamente maravilhosa.

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  5. Valeu, Dona Marica! Por instinto já sigo suas dicas sobre cabelos. Aguardo ansiosamente os toques sobre pele.

    Texto divertido e criativo, estilo “facebook”, ágil e moderno. A linguagem é direta, transparente, o clímax é controlado. Parabéns, Catarina! Beijos.

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  6. Adorei as dicas da dona Marica kkk. Ah, nossos cabelos que não nos deixam em paz. Eu nunca fui muito de ir ao cabeleireiro, sempre tingi em casa mesmo, com a pandemia, até o corte ficou por minha conta rsrs. Aguardando as dicas de pele rsrs. Bjs

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  7. Me identifiquei com a dona Márcia, faço várias coisas que ela indicou. 😅
    Texto gostoso de ler, bem divertido, com um ritmo constante, muito criativo. Parece que bati um papo com a dona Márcia pessoalmente até!
    Muito bom!
    😘

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  8. A última vez que pintei cabelo tinha 17 anos, estava na fase rebelde e mandei um vermelho bem fogo. Logo depois me casei e fui mãe e meus cabelos nunca mais viram tinta, e nem tenho mais intenção de pintar. Desânimo total hahaha. Qual será a dica para a pele, hein? Aguardaremos! Bjs ❤

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  9. Que delícia de texto Catarina. Bem leve, como precisamos. Digo isso embora tenha acabado de postar um texto tenso, ai, ai, que contradição. Os cabelos tem mesmo personalidade, tem dias que amanhecem irascíveis. E os curtos são os piores. Felizmente a rebeldia deles não resiste a uma chuveirada nem ao aprisionamento em um coque. Aguardando aqui as próximas dicas de Dona Marica. Beijos.

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  10. Oi, Catarina!
    Adorei a forma blasé com a qual você trata seus fios… fiquei me sentindo uma boboca aqui na minha relação carente com os meus, sempre implorando que eles me amem e, agora na menopausa, não me deixem.
    Vou adotar sua tática de viva e deixe viver.
    Ótima crônica!
    Beijo!

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  11. As cabeleiras homenageadas aqui são de Mercedes Manfredini de Caxias do Sul e Analu Cunha, minha irmã, no Rio de Janeiro. Mas poderia ser de qualquer pessoa que assume suas madeixas.
    Muito obrigada pelos comentários.

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