Delírio – Evelyn Postali

“Que pode uma criatura senão

Entre criaturas amar”

Amar o ser deitado ao lado

E, no silêncio da madrugada,

A rua inteira acordar?

Voltando para casa do turno da noite, Mauro pensava em Jussara e no filho pequeno. Àquelas horas, estavam dormindo na casa mais humilde da rua, um puxado de uma água, do lado de cima da oficina do Lourival, um sujeito de aspecto rude, mas com um coração do tamanho do mundo.

De longe avistou a mulher na sacada do prédio. A dona da loja de perfumes. Um dia, moraria em um apartamento daqueles, dois quartos, sala, cozinha… A casa não era ruim, mas sua família merecia um lugar melhor. Desejava mais: estudo para a pequena, conforto para a amada e um carro na garagem. Por que não?

*um aí esticado, meloso, e, depois outro breve e forte*

Diminuiu o passo.

Os pensamentos se desfizeram junto ao constrangimento, ao perceber do que se tratava. A recém-chegada… Cansado da subida íngreme, parou alguns instantes. Jussara era tão discreta… Queria arrancar gemidos de prazer daquela boca carnuda e morena; mergulhar entre aquelas pernas desenhadas e acabar-se com o cheiro do sexo.

Seguiu pelo corredor lateral. Para sua surpresa, a esposa o esperava com comida quente e um abraço. O filho dormia.

— Melhor aproveitar o sossego – as palavras sussurradas.

Mauro enlaçou a mulher pela cintura beijando seu pescoço, despiu-a e despiu-se a caminho do chuveiro. A fome podia esperar.

– – –

*eram ais de arrebatamento*

– – –

Não era sonho. Vinha da rua e o bom ouvido de Joana já indicava a direção. Olhando a luz a adentrar as laterais da persiana, sem conseguir dormir fazia boa meia hora ou mais, despertou por completo.

— Lourival! Acorda! — Ligou o abajur. Chacoalhou o homem que roncava. — Acorda, homem!

Porque precisava compartilhar, ora! Era uma afronta ao sossego de um casamento morno de tempos, onde a cerveja tomava conta do sofá junto do controle remoto e do futebol. Não era pela acomodação, até porque ela também gostava de ficar quieta no seu canto com seus afazeres domésticos. Mas, também, era sim! Era pela acomodação do homem com quem vivia e por quem tinha jurado amor até que a morte os separasse. Era, também, pelo que aquilo a fazia sentir. Um fogo crescendo, esquentando o corpo e arrepiando suas extremidades.

— Acorda! — puxou o braço do marido.

— O quê? O que foi? — ainda sonolento, espremendo os olhos por causa da luz, virou-se para ela.

— Está escutando?

— Escutando o quê, mulher?

*frenesi*

— Você me acordou para eu escutar os gatos?

— Não são gatos! É a vizinha com o cara tatuado.

Lourival prendeu a respiração e apurou o ouvido.

Joana não perdeu tempo. Encostou-se nele, colocando sua perna no meio das dele. Sua mão pequena passou deslizando seu peito e a barriga saliente.

— Vavá… — pronunciou o apelido carinhoso, dito só ali, na intimidade, debaixo das cobertas.

O homem retribuiu os carinhos. Beijou-a com ternura colocando-se sobre ela. Não era preciso dizer nada. O olhar dizia tudo. Depois de tanto tempo, palavras eram apenas palavras. No fim, os pés se encontrariam no fundo da cama em sinal de cumplicidade e entendimento, do jeito que sempre estiveram.

– – –

*gemidos de excitamento, volúpia*

– – –

Fumando o tédio do dia passado, na sacada do quarto, Laura observava a noite estrelada e quente e a luz discreta da janela da artista duas casas abaixo da sua. A rua dormia na mudez de sempre quando os sons começaram.

Imaginou a cena.

Moveu-se silenciosa e solitária pela sacada pensando em Gustavo, o vizinho do andar de cima, aquele por quem as borboletas farfalhavam em seu estômago. O que estaria fazendo?  Não o vira sair e sequer ouvira o som do violão após o jantar. Ah… Uma música agora, dedilhada com capricho e um copo de vinho.

Invejou sem culpa alguma os gemidos escandalosos e aquela situação de prazer quase exacerbado. Estar na cama com Gustavo e sentir a musculatura daquele peitoral que atiçava seu fogo interior. Lembrou-se das linhas do abdômen, das curvas dos ombros, bíceps, tríceps e Deus que a acudisse porque já sentia-se incendiar.

Deu meia volta, agitada. Será que estaria acordado? Não se atrevia a esgueirar-se pela borda da grade. Ruminava seus ímpetos. Como conter aquela chama? Se ao menos ele se desse por conta dos olhares, das palavras comedidas, dos encontros casuais na garagem na chegada ou saída para o trabalho.

E se ele estivesse acordado? Poderia bater à sua porta, com uma desculpa esdrúxula de necessidade doméstica. Poderia desligar o registro da água de seu apartamento, ou pedir pó de café. Afinal, artifícios podiam ser facilmente arranjados.

— Não!

Afinal, passava da meia noite. Quem toma café depois da meia noite?

Avistou o vulto na esquina, subindo.Não precisava de iluminação para reconhecer o marido de Jussara e seu andar manco depois do incidente na pedreira. Agora, trabalhava no moinho, cuidando das máquinas de ensacar farinha.

Deu a última tragada e soltou a fumaça junto com o suspiro. Jussara tinha sorte. A vizinha da frente tinha sorte. “Todos nessa rua têm a cama aquecida” e foi, então, que a campainha tocou.

– – –

*tesão à flor da pele, desejo*

– – –

Thiago rascunhava alguns parágrafos no bloco quando os sons iniciaram. Lucas dormia em seu peito. Para ele, aquele espaço recém mobiliado era uma conquista do amor, da persistência do afeto, da luta contra o preconceito em uma cidade pequena como aquela. Não tinha sido fácil, isso não tinha mesmo. Entre brigas familiares, comentários maldosos, amizades desfeitas, enfim sós. Sós, mas com dignidade.

Tinham um ao outro. Era o que importava. Trabalhavam para se sustentar e a vizinhança os abraçara como filhos pela intervenção de Isabel, moradora mais antiga da rua. Sortudos, isso sim. Acabaram conhecendo a maioria dos moradores.

Intrigado com os sons, largou o bloco e moveu Lucas, delicadamente, para levantar-se e seguir até a janela. A mulher da perfumaria fumava na sacada. No andar de cima, luzes em todos os cômodos. Isabel ainda estava trabalhando em seus desenhos.

*assanhamento, lascívia, calor*

— O que tá acontecendo? — Lucas o abraçou por trás, colando o rosto em suas costas.

Thiago virou-se para o amado ainda com a expressão feliz.

— Não sei, mas acho que é o verão, sei lá — e o beijou ali mesmo, na janela. A cortina balançou com o vento. Estava na hora de deixar a rua para trás.

– – –

*suspiros e uma nova onda de agitação, assanhamento*

– – –

Do segundo andar, Gustavo amargava a discussão com Valéria, a garota com quem tinha um relacionamento de mais de ano. Valéria queria se casar. Morar junto, ela dizia, mas Gustavo sabia. Casamento. Aquilo não estava nem de longe em seus planos. Não era hora e não tinha certeza de nada.

Laura era outra história. Mulher madura e decidida que o tirava do eixo toda a vez que se cruzavam. Devia tomar a iniciativa e se certificar de que não estava entendendo errado as mensagens enviadas por ela através de olhares e palavras com duplo sentido.

O que diria? Talvez convidá-la para um jantar na noite seguinte. Isso parecia melhor do que não dizer nada. Talvez assistir a um filme, ou um passeio pelo interior.

Mais do que ela bater a porta na minha cara, não vai acontecer.

Respirou fundo. Era fazer ou fazer. Trancou a porta sem importar-se com as luzes dos cômodos ainda ligadas. Desceu até o primeiro andar sem perceber que a minuteria estava desligada e parou diante das portas do 101.

Ligou a luz. Por um instante quase deu meia volta. Apertou a campainha.

– – –

*volúpia*

– – –

Sentada à mesa de desenho, tomada banho e aquecida, Isabel sobrepunha cores aguadas em uma paisagem. Largou o pincel e interrompeu o processo de pintura ao ouvir os sons vindos do outro lado da rua. O desalinhamento da harmonia do silêncio da casa a incomodou menos do que a lembrança da felicidade.

Colocou a água para ferver. Um café, como sempre, antes de dormir, para sustentar a leitura de alguns capítulos, quem sabe. Era o tempo necessário para os olhos pesarem e as mãos largarem o livro, mais um de tantos daquelas estantes alinhadas. Recolheu os desenhos, arrumou as tintas e desligou a luz incidente no espaço de trabalho. A água já fervia. Por preguiça de passar o café, a solubilidade do granulado ganhava posição invejável àquela hora da noite.

*vozes ininteligíveis cansadas em ais demorados*

A meia-luz do ambiente sobre a fotografia remoeu flashes de momentos com Maurício, paixão de infância solidificada na juventude e eternizada na união feliz de mais de trinta anos.

— Se estivesse aqui, seguiríamos nesse contágio, amassando os lençóis, derrubando os travesseiros, para depois nos sentarmos na varanda, olhando a noite, em silêncio, porque palavras são inúteis diante de tamanho sentimento.

A gata roçou sua perna. O gato já dormia enrolado no travesseiro. Cocada balançou o rabo e pulou para cima da cama.

— Boa companhia é o que temos hoje, não?

*Gritinhos miúdos estrídulos*

Sorriu.

— Ah… A paixão… Coisa estranha e passageira. Coisa louca.

Largou a xícara de café em cima da mesa de cabeceira, juntou o livro e ajeitou-se na cama.

– – –

Notas:

Do título: partiu de Infinito Desejo, letra e música de Gonzaguinha, um músico e poeta fantástico que faz muita falta.

Do poema: Amar, de Carlos Drummond de Andrade, coisa mais linda de poeta a me cativar o tempo todo desde a infância.

26 comentários em “Delírio – Evelyn Postali

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  1. Olá, Evelyn!

    Que bacana esse emaranhado de pessoas fazendo coisas boas na madrugada, hã? Sabe aquele poema do João Cabral de Melo Neto, “Tecendo a Manhã’? Pois é, senti, de certa forma, a mesma vibe, onde os gemidos chamam outros gemidos, onde os sons de um casal incentivam os outros. Muito bom o trato com cada narrativa, cada casal.
    Gostei bastante.
    BJ

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    1. Gratidão pela leitura e comentário, Maria. Quiçá esses sentimentos de cumplicidade amorosa se espalhem pelo mundo porque é disso que precisamos, não? Envolvimento. Laços.

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  2. A felicidade física do primeiro casal interferindo nas decisões dos demais. Gostei muito. Cada história é um convite para se saber mais sobre os personagens e o que vai acontecer a partir de suas reações diante do evidente som de sexo na casa alheia. O que eu gostei mais foi da vizinha do 101 e do Gustavo. Por coincidência eu moro no 101. Infelizmente o único vizinho interessante aqui era o Glauber e ele foi morar no Norte. Parabéns pelo conto tão envolvente e criativo, querida. Um abraço.

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    1. Gratidão pela leitura e comentário. Olha… quem sabe não pinte algum vizinho bacana por aí com a mudança de Glauber. Nunca sabemos, não é? Acho que esse casal do conto devia fazer mais vezes para despertar em outros esse mesmo sentimento de envolvimento.

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      1. Atualmente só penso em dinheiro. Glauber até andou mandando uns recados mas eu me fiz de doida. Onde se “dorme”o pão não se come a carne.

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  3. E o fogo foi se alastrando rsrs. Muito legal este conto que entrelaça as histórias com a volupia, o desejo, algo tão humano e, muitas vezes, tão longe e esquecido. Gosto de contos assim, com pequenas histórias, diferentes cenários e novos personagens interligados de alguma forma. É preciso talento para fazer isso. Muito bom. Parabéns.

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  4. Que narrativa mais interessante, Evelyn. Desejos entrelaçados alimentando-se reciprocamente. Um inspirado argumento que rendeu um conto instigante e envolvente. Sobretudo e tempo de pandemia, em que, calculo, tantos desejos sigam sendo adiados, uma bela história. Gostei demais, me surpreendeu. Parabéns.

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  5. Oi, Evelyn!
    Gostei bastante desse conto!
    O desejo é contagioso mesmo e basta uma fagulha pra fazer o fogo se alastrar!
    Muito gostoso de ler, acompanharia mais peripécias dessa rua que parece tão interessante!
    Parabéns!
    😘

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    1. Sempre encontramos tipos peculiares, não é mesmo? Minha rua é recheada de gente estranha, de gosto esquisito, alguns menos simpáticos que outros, cada um carregando sua vida. Talvez ainda existam histórias por contar sobre a rua. Gratidão pela leitura e comentário, Priscila.

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  6. Eita, que contágio bom esse, hein? Sons provocando outros sons, despertares de carinho, tesão e tanta revelação em silêncio também. Afinal, todos entrelaçados de algum modo neste turbilhão de sentimentos e fazeres. Leitura ágil e muito agradável, que deixa um sorriso de cumplicidade e esperança. Muito bom, guria. Beijos.

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  7. Interessante esse entrelaçar de histórias e relacionamentos desencadeados por sons lascivos. Todavia, acho desrespeitoso esse escândalo todo, rsrsrs, eu ficaria brava com esses vizinhos. Bjs ❤

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    1. Ah… Não sei. Eu ouvi e fiz mais ou menos como a Claudia… Sorri em cumplicidade. E fiquei imaginando a rua contagiar-se com aquilo. Desejos, muitas vezes discreto, outros prontos para explodir. Talvez a rua ficasse mais alegre na manhã seguinte. Gratidão pela leitura e comentário.

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  8. Que texto envolvente, Evelyn! As histórias se entrelaçando, o clima lascivo transpassando as palavras… interessantíssimo! 😉
    Adorei, muito bom!
    Parabéns!

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  9. Além de pintora, você, Evelyn deve ser uma caprichosa bordadeira: vai cruzando os pontos e compondo um cenário de amor e volúpia em que personagens dialogam e se contaminam.

    O efeito é a mobilidade constante e descontínua da narradora e seu acento ideológico no tratamento da trama passional, no cotidiano.

    O texto ganha corpo quando faz refletir que a vida não tem começo, não tem fim, não tem certo nem errado. É o caminhar. É otimista e tem uma pegada de sugestão, de aceitação.

    Parabéns pela ideia e execução. Beijos.

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    1. kkkkk e não é que eu sei bordar de fato? E também sei fazer crochê.
      Esse contágio é sempre bem-vindo. O mundo precisaria de mais momentos como esse, onde se percebe o amor em nuances e se abraça aquele que mais nos apraz. Afinal, a vida é assim, não é? Quando olho da minha janela para a rua, eu penso no que cada janela iluminada me diz. São vidas nem sempre boas, nem sempre felizes. Fico a imaginar que tudo está, mesmo, de certa forma, entrelaçado. É assim e sempre será. Cada um com seus dramas, com seus amores, com suas dores. Só precisamos nos dar por conta de que o melhor de tudo está entre o nascimento e a morte. E viver de forma a aproveitar o máximo dentro do que conseguimos.
      Gratidão, Fátima, pela leitura e comentário gentil.

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  10. Olá, Evelyn! Você começa o seu texto com um poema-premissa: “Que pode uma criatura senão/Entre criaturas amar”. Aproveito para citar Vinícius: amor é chama que arde sem se ver. E essa chama invisível foi se propagando entre os moradores de uma rua qualquer, foi ardendo nos lençóis. Acredito que como autora, talvez vc antecipasse que esse arder caloroso faiscasse cada leitor, em casa rua, em cada casa e, assim, irmanados no amor pudéssemos florescer o mundo com empatia e aconchegantes sentimentos. Quem sabe? Parabéns pelo texto.

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  11. Querida Evelyn,

    Tudo bem?

    Demorei, mas, aqui estou. Gostei muito do conto, da trama, do desenlace. O modo como o “fogo” vai aos poucos se alastrando. Porém, o que mais me chama atenção aqui é a tecnica, a condução da narrativa. Esté é um texto cheio de “núcleos”, quase como em uma dramaturgia para série. Há uma entrelaçamento de histórias (e vidas) em um tipo de jogo de causa e consequência. Lembrou-me nossa experiência parada há quatro anos, deu até saudade, vou reler aqueles escritos.

    Muito interessante.

    Parabéns.

    Beijos

    Paula GIannini

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    1. Oi, Paula,
      Gratidão pela leitura e comentário gentil. Acho que esse é o primeiro texto concluído com esse tipo de entrelaçamento. Eu comecei alguns, mas nunca conclui de fato. Estão parados, na pasta dos incompletos por pura falta de ânimo. Acontece, né? Eu me lembro dos escritos. Também estão guardamos. Quem sabe não retomamos com algumas mudanças. Mais uma vez gratidão. Abraços carinhosos.

      Curtido por 1 pessoa

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