Meninas e lobos – Elisa Ribeiro

Quatro da manhã em ponto, o instante em que os espíritos voltavam aos corpos, riu de sua própria desgraça.  O cheiro nauseante a despertara, os olhos muito abertos, não voltaria a dormir, nem adiantava continuar deitada.

O cheiro era uma alucinação olfativa, pesadelo recursivo, sem imagens, já estava acostumada. Sempre vinha acompanhado do ranger fantasmático da porta, do arrastar dos passos, da culpa e do asco.

O suor molhava o vão entre os seios, a nuca, encostou o copo com água gelada no pescoço, na parte interna dos braços. Debruçou-se na única janela do apartamento, o ar fresco da noite e o raro barulho dos carros a acalmaram. Duas horas ainda até o amanhecer, o que fazer? ler as notícias? voltar para a cama? sair para um trote? Sentou-se no sofá, abriu o notebook no colo, uma maçã ao lado. Aproveitaria a madrugada para pesquisar passagens aéreas e hotéis, planejar sua próxima viagem. Mas, como se ainda estivesse dentro do sonho desagradável que a expulsara do sono, ao invés de voos para alguma praia no litoral do Nordeste, o que buscava, saltavam na tela propagandas oferecendo passagens aéreas a preços irrecusáveis. Para Palmas? Clicou só para um ensaio, há dezesseis anos não via os pais, a irmã, talvez fosse hora. Acabou comprando um bilhete de ida e volta, dali a quinze dias, em um final de semana prolongado, GRU-PMW, sem escalas.

Pouco sabia dos pais e da irmã, as notícias lhe chegavam enviesadas pela madrinha que vivia na capital. Estive com seus pais, ela dizia, quando calhava de se falarem; estão bem, sua irmã sempre pergunta se eu tenho notícias suas. Tinham telefone, sim, mas o sinal era ruim. Trocava raros bons-dias com a irmã, que era quem portava o celular; mensagens lacônicas como o deserto da paisagem ao redor da fazenda, sem vizinhos, de onde partira aos quatorze. O último bom-dia recebido datava de mais de três meses antes; não respondera, nem vira. Digitou: Oi, mana. Tudo bem por aí? Comprei um bilhete pra ir visitar vocês na semana santa. Saudades, acrescentou.  A resposta veio em dois dias: Oi, mana. Pai e mãe chega chorou de alegria. Eu também. Vou ficar contando as horas.

Comprou presentes: uma camisa para o pai, uma camisola para a mãe, um par de argolas folheadas para a irmã.  Sem conseguir se concentrar no trabalho, uma sensação permanente de vazio no estômago, os dias passaram lentos. Falhou em entregar testado o último programa da funcionalidade que estava desenvolvendo, talvez esperando que o chefe a forçasse a cancelar a viagem obrigando-a a finalizá-lo no feriado. Pode deixar, eu arranjo alguém pra testar, ele disse; ela, constrangida, respondeu que aquilo nunca mais aconteceria; o emprego era a única coisa em sua vida que realmente importava. Na véspera do voo, atravessou a noite alternando a insônia com cochilos. Chegou atrasada no aeroporto, sua mente tentando impedir aquele movimento imprudente: acercar-se do abismo que tanto evitava.

Ao sair do aeroporto e pisar a calçada, o ar abafado de Palmas, o calor tangível em ardor na pele, desbotada pela vida confinada entre o apartamento e o escritório em São Paulo, o Tocantins ao invés do Tietê cinzento de todos os dias — aquilo, sim, era um rio; apertou-a um sentimento que, na falta de outro nome, chamaria saudade invertida: o que perdera em ter abandonado o que teria sido sua vida. As águas cristalinas, o silêncio das serras, a suçuarana avistada uma única vez, as corujas, a lobo-guará de patas esguias que a espiava, voyeur de seu banho de fim de tarde no rio, sozinha, a montante da casa. Saudade de verdade agora, seus olhos brilharam, esquecida do abismo.

Acabara invertendo os planos iniciais de dormir na madrinha no primeiro dia. Foi direto para a rodoviária. Seis horas de viagem, depois mais quase três no quatro por quatro até a roça dos pais. Nada havia mudado em dezesseis anos. Ao menos na forma ou no tempo que se levava para chegar àquele fim de linha onde ficavam as terras da família.

Só a esperavam no dia seguinte, de modo que a surpresa foi grande quando o carro parou em frente à velha casa da fazenda, um resto de sol se apagando, só a mãe na cozinha arranjando o jantar.

A mãe a abraçou com a secura de antes e beijou-a do mesmo jeito estranho, nem na bochecha nem na testa, mas na lateral do pescoço, logo abaixo da orelha. Afagou-lhe os cabelos, alisou seu rosto, tomou suas mãos entre as suas e afastou-se para olhá-la, inteira, à distância. Como você está bonita, filha. Parece uma artista. Cheirosa… Menos, mãe, quase nove horas de estrada, sacudindo nesse calor. A senhora é que não mudou nada. Era verdade, apenas alguns fios grisalhos e os óculos indicavam a passagem do tempo. Recusou o café, os grãos moídos na hora, perfumando o ambiente.  Depois, mãe, depois; quero ver a mana primeiro.

Estava com o pai recolhendo os porcos, a mãe disse. No caminho do chiqueiro viu uma criança, uns cinco, talvez seis, brincando com um cãozinho. A filha de algum empregado, talvez, embora àquela hora eles já devessem estar recolhidos em suas casas. O cão latiu para ela meia dúzia de vezes, a garota encarou-a de longe sem responder ao tchau que ela acenou com a mão direita. Mais adiante, avistou o pai e a irmã de costas. Ela, uma menina de onze quando haviam se separado, agora uma mulher de ancas largas e seios avantajados, forçando os botões da blusa, deixando ver a carne rosada brotando por trás. O cabelo castanho, cheio, não lambido como o seu, preso no alto do cabeça, o rosto corado, uma névoa embaçando as pupilas esverdeadas. Foi o pai quem a viu primeiro. Renata, minha filha, é você? Os mesmos olhos azuis apertados, o rosto sanguíneo, lustroso, grande, forte, nem gordo, nem magro.  O tempo também não havia passado para ele. Pensei que você chegava amanhã. Caminhou na direção dela, as pernas arqueadas, os passos pesados de quem não se importava com o que triturava sob suas botas. Me dê cá um abraço. O cheiro forte do suor, da pele, marcante, tão intenso quanto o que lhe chegava dos porcos, a barlavento, enchiqueirados. Cerrou os olhos, comprimida em seu abraço, a cabeça amassada contra o seu peito. Por que ficou tanto tempo assim sem visitar a gente?

No abraço da irmã, sentiu-se mal, o que temia. Não, não havia culpa, mas o antigo ciúme, latente, corrosivo. E o desgosto em senti-lo. Com o rosto molhado, a irmã só conseguia repetir o tanto que sentira sua falta e, como a mãe, alisava seu cabelo e seu rosto, admirada de como ela havia mudado, mas sem comentar o tanto que Renata lhe parecia frágil, pálida, magra, miúda comparada à lembrança que dela guardava, sua irmã maior, com a qual ela queria se parecer quando ficasse mais velha. E a enchia de perguntas sobre tudo, desde sua partida para estudar em Palmas até os detalhes comezinhos de vida em São Paulo: os amigos, as viagens, o que mais fazia além do trabalho.     

Ao passarem pela menina com o cachorro, o pai a chamou. Kaliana! A garota veio ligeiro seguida pela cadela, balançando o rabinho. Minha neta, disse o pai. Fala oi, Kali, dá um beijo nessa tia. Neta? Renata olhou para a irmã que segurava sua mão com força entre os dedos úmidos e gelados. É filha de uma cabocla que trabalhou aqui um tempo; conheceu um sujeito da cidade, foi embora, largou a garota com a gente.  A irmã explicou, os olhos baixos. Pai e mãe se apegaram, fazer o quê. A menina seguiu com eles para casa agarrada à outra mão livre da irmã, espiando com o canto dos olhos para a tia estrangeira, ela.  

No jantar, quiabo e mandioca, frango ensopado e um suco aguado, dulcíssimo, de abacaxi. À mesa, a mesma conversa rala; sentiu saudades da infância, do conforto daquelas lacunas que tivera de aprender a preencher para se relacionar com as pessoas desde que decidira ir embora.  Na hora da sobremesa, um naco de pudim de pão com uma calda de melaço cujo sabor pareceu-lhe levemente fermentado, a menina Kaliana escalou o colo do pai, o avô. Na proximidade dos rostos, o azul exato dos olhos de ambos causou um estremecimento em Renata. O velho servia colheradas do doce na boca da garota, a outra mão que alisava sua barriguinha, logo desceu para a coxa roliça, abaixo do short. Procurou os olhos da irmã, mas ela encarava com volúpia o pudim que ia destruindo com violentos golpes de colher, levando veloz à boca os pedaços, quase sem respirar.

Mana, vamos comigo até a beira do rio? pensando em dar um mergulho, me refrescar, bora? chamou, todos diante da TV esperando começar o noticiário. A mãe já havia decidido que ela, Renata, dormiria no seu antigo quarto, o que dividira com a irmã na infância; a pequena dormiria com eles, os “avós”. A irmã abriu um sorriso. Vocês acabaram de jantar. Vai fazer mal. O sorriso da irmã se apagou por trás de uma expressão de temor. Não, não, mãe, pode deixar; Renata apressou-se em responder; só vou matar a saudade, no máximo molhar os pés, e o rosto, os braços, a senhora não precisa se preocupar. 

A lua quase cheia, nem precisaram acender a lanterna, a noite ainda morna, caminharam até o trecho onde o rio formava um pequeno poço coberto de areia grossa no fundo e na margem. Só falta aquele lobo que me espiava banhar, você lembra? Renata perguntou. Claro, você dizia que ele era um homem transformado em bicho por causa de algum feitiço e ficava se mostrando pra ele, até o dia em que o pai te viu e te deu uma coça; e você nem chorou. Renata começou a tirar a roupa. Vai banhar, irmã? claro que sim, vamos? mas e a mãe? ah, ela vai fazer o quê? me bater? Acabou de se despir e mergulhou nas águas que tinham a temperatura exata capaz de neutralizar o calor abafado daquele cerrado, que só começava a resfriar com a madrugada a meio. Vem, mana, está uma delícia. Logo a irmã estava descalça, as calças arregaçadas, molhando os pés na gentileza do rio e daí a decidir juntar-se a Renata, não demorou. À luz da lua, Renata observou suas formas arredondadas, os seios muito inchados, as veias azuis colorindo o róseo da pele enquanto ela se despia. Aproximou-se, a água já lhe cobrindo o corpo roliço e tocou-lhe a barriga: você está grávida. A irmã cerrou as pálpebras e assentiu com um movimento tímido da cabeça. Renata levantou seu queixo com as mãos, forçando-a a encará-la. E a menina, a Kaliana? Um soluço sentido foi a resposta, dos olhos de névoa, secos, já não mais brotavam lágrimas. Renata envolveu-a em um abraço, nem sombra de ciúme. Escapar do abismo, uma escalada a quatro braços, logo deixaria de ser apenas um desejo.

7 comentários em “Meninas e lobos – Elisa Ribeiro

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  1. Atenção, este comentário contém pistas. Não o leia antes de fazer a sua própria leitura e chegar às suas próprias conclusões.

    Gente! Chocada aqui. Isso sim é uma história de terror, mas com uma sutileza que só escritores como vc sabem fazer. Vi tanta coisa nas entrelinhas… Será que estou vendo demais? Não quero dar spoiler mas me deu uma angústia ler o que vc deixou insinuado. Que coisas tristes e revoltantes eu pensei. Pior que acaba e a gente fica com aquela sensação de impotência. Uma dorzinha mesmo sabendo que é ficção.

    Grande conto. Parabéns. Beijos.

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  2. Olá, Elisa!
    Que texto, hein?
    Acho que vc se sai muito bem em contos de terror realista. Vc vai construindo aos poucos a tensão, como quem não quer nada, dando ao leitor um pouquinho por vez até atingir o clímax e, em seguida, o desfecho incrível! Trabalho primoroso com direito a discurso indireto de brinde. Maravilhoso!

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  3. Você, Elisa, escolheu retratar uma das piores profanações, que causa medo, muito medo, por tratar-se de um drama que pode estar acontecendo ali, no vizinho. Mas não usou de imagens fortes para anojar o leitor, nem de gore para impressioná-lo. Ao invés disso, a sua narrativa é repleta de sugestões, mas traz um terror nada místico, que provoca repulsa ao leitor, como se o mundo estivesse totalmente desajustado e sem conserto.

    O grande mérito desse conto é a técnica apurada, que vai conduzindo e desorientando o leitor ao mesmo tempo, de forma verossímil. Escrita direta, sem entraves, poética em certos pontos; as imagens são vívidas, a imaginação do leitor vai preenchendo os vazios e o lobo se torna real.

    Parabéns por tratar o tema com tamanha sensibilidade! Beijos.

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  4. Impactada aqui com esse conto, Elisa! Sensacional.
    Digo sem ressalvas que é uma das melhores coisas que já li…
    Você foi muito competente na condução da narrativa; sutil, precisa e com a linguagem apuradíssima.
    Excelente. Parabéns pelo lindo trabalho.

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  5. Oi, Elisa!

    Então, texto triste, né? Particularmente me agrada as coisas sugeridas, que não são todas mastigadas, porque dão ar incerto e lacunoso. Ficou um conto onde a sugestão de incesto pairou durante toda leitura e, é injusto, triste, pesado o que algumas pessoas tem que suportar, ou como reagem assim que veem uma oportunidade de mudança. Eu desejei muito uma visão maior por parte da mãe delas e alguma profundidade também acerca do pai de ambas. Mas, gostei muito de sentir a aflição da Renata nas suas deduções acerca dos azuis dos olhos e a mão boba do pai. Acho, sem sombra de dúvida, que minhas exigências na leitura do seu conto só foram por ter gostado bastante de tudo que li.
    Enfim… Sucesso!

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  6. Texto excelente. Escrever um conto e citar algo sem escancarar, apenas revelando algumas cenas, escolhendo bem as palavras, náo é para qualquer um. E vc o fez com maestria. Tem tanta história, tanto sentimento, tantas reflexões emuma camada escondida… Muitro bom Parabéns,

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  7. Querida Elisa,

    Seu conto está escrito com técnica impecável. O discurso indireto funciona quase como uma metáfora do silência que paira sobre esta família. O que não é dito entre eles escapa, entredentendes, para que o leitor desavisado possa imaginar. A fala é quase como que engolida pelos persoagens. Excelente recurso.

    Interessante que, o que fica entredentes, fica também para a imaginação do leitor. Aqui, é o leitor quem vai completar as lacunas a partir das próprias experiências, ou mesmo do modo como pretender ler o texto.

    Muito bom mesmo!

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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