Aceitação – Giselle Fiorini Bohn

–  Eu vou te contar uma estória. Não existe? Não sabia. Bom, então tudo bem, vai ser uma história com h. Ah, não é verdade, não, é só uma historinha mesmo. 

Era uma vez uma mulher, que sempre chorava. Chorava porque amava um homem, e amava tanto, e precisava tanto dele. E chorava e sofria, e sentia tanto sua falta, e ele nunca estava lá. Bom, nunca não é bem a palavra certa, senão pode parecer que tinha morrido, e – nã-nã – esse homem estava bem vivo.

De vez em quando ele aparecia, mas isso só servia pra que ela ficasse mais triste; afinal, de que adiantava estarem juntos uma vez ou outra se queria ficar com ele o tempo todo? Só pensava no quanto queria que tudo estivesse bem e que fossem felizes como já tinham sido. Não, mais do que isso: felizes como nunca, jamais tinham sido.

Até que uma noite, enquanto chora e chora, enquanto seu corpo treme em soluços e seu rosto se encharca de lágrimas, quando parece que nada poderia ser pior do que isso, uma coisa acontece. Ela sai de si. É verdade, saiu mesmo, assim, bum! De repente estava ali, chorando, e então – tã-rã! – não mais: estava lá em cima, olhando para ela mesma na cama, sacudindo, toda encolhida, cara enfiada no travesseiro. Ah, o porquê eu não sei. Talvez tenha sido uma dor maior do que qualquer outra, talvez tenha sido uma reação de seu corpo a todo esse amor que não tem para onde ir, esse amor que busca e não encontra abrigo, esse amor que não é acolhido, que ferve e evapora e não volta feito chuva e nem sequer nuvem; não se torna nada. Nada. Quem sabe? Não, não sei como ela desceu de lá depois, isso não interessa, presta atenção na história. O que importa é que, por algum motivo, ela estava lá no alto, e podia se ver lá embaixo, e só então entendeu.

Ali, naquele segundo em que se vê, compreende que não chora porque ama esse homem. É, eu sei, louco, isso, não é? Ela se dá conta, naquele exato momento, que não o ama. E sabe por que não? Muito simples: nem mesmo gosta dele. É, não gosta dele. Não gosta das atitudes que ele tem, não gosta das escolhas que ele faz, não gosta do jeito que a trata, não gosta de nada. Mas, se chora, tem que ter um motivo, certo? E tem. Ela chora por amor, é verdade; isso não é ilusão. Mas aí é que está, olha só que coisa incrível: chora porque ama alguém que não existe. Como, como assim? Pensa comigo. Ela ama uma pessoa que não existe, que não é esse homem. A pessoa que ela ama, de quem sente tanta falta e espera tanta coisa, não existe. É uma invenção da sua cabeça, apenas uma fantasia. E é claro que vai chorar, e falo mais: vai chorar pra sempre, porque esse homem nunca vai abrir a porta, sorrir, oferecer o abraço que ela espera, dizer as coisas que ela quer ouvir, ouvir as coisas que ela quer dizer. Porque ele não existe. Ela simplesmente vestiu essa pessoa – quem de fato ama – com o corpo, o rosto, a voz, o cheiro, os trejeitos, as risadas dessa outra pessoa. Mas, se a gente pensar bem, esse homem que ela julga amar, na verdade, bom, esse ela nem sabe direito quem é.

E isso tudo fica claro assim – zapt! –, em um segundo. Não que toda essa dor não seja real; porque, no fim das contas, ela chora, não chora? Sofre tanto. Mas, lá de cima, de repente tudo se mostra óbvio: chorar por esse amor, no fundo, é tão real quanto, tipo, sei lá, chorar quando o pai do Simba morre no Rei Leão. É, no desenho, aquele mesmo. O que quero dizer é, a gente chora, não chora? Ninguém finge; fica todo mundo com aquela dor na garganta, até que as lágrimas vêm; não tem jeito. Não é fingimento. Mas não é real, concorda? A gente acredita na ilusão, aceita que essa farsa é a realidade naquele momento, e acaba sofrendo. Mas ninguém morreu de verdade, então como pode ser dor de verdade? E então vê que é a mesma coisa. A pessoa que essa mulher realmente ama, esse personagem que criou, esse nunca a magoou, porque simplesmente não existe. E, ao mesmo tempo em que chora, percebe que isso não faz sentido nenhum, porque, oras, como eu posso chorar por alguém que nunca existiu? Ela, quero dizer. Ela. É, como ela pode chorar? Esse homem é o pai do Simba – uma mentira que nos convence, nada mais.

Não, claro que não é verdade; é só uma historinha, já falei. Moral da história? Como assim, moral da história? Ah, sei lá, não pensei nisso. Hmm… que tal essa: qual o motivo do seu sofrimento? Ah, não pode ser pergunta? Sei lá, então, fala você: qual é a moral da história? Não é tão fácil, né?

É, essa é boa. Amor é aceitação. Sim, amor é aceitação. É, é boa mesmo, tenho que admitir. Amor é aceitação.

Sua vez; conta uma história aí.

8 comentários em “Aceitação – Giselle Fiorini Bohn

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  1. Não existe um amor ideal, existe sim, mas só em nossas aspirações. Todo mundo tem defeitos, inclusive nós, e procurar perfeição no outro é garantia de frustração. O seu texto fala sobre isso de maneira inteligente e leve, ele filosofa e nos mostra esta irrefutável realidade. Mas nós, colocando o romantismo acima da obviedade, ainda sonhamos com príncipes encantados, bondosos, pacientes, jovens e belos que nunca vão chegar. Gostei bastante, querida. Ideia perfeita e execução para lá de acertada. Beijos e parabéns.

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  2. Entender o que cada um faz, o que pode e como pode é fundamental para aceitar o outro como diferente, é a chave para descobrir que essa pessoa tem muitas coisas de que gostamos e que nos atraem, ou não. A velha batalha entre ideal X real — e amor, é isso mesmo ACEITAÇÂO.

    A cereja do seu texto, Giselle, está na forma da narrativa: linguagem próxima da coloquial, como se estivesse cara-a-cara com uma amiga. Parabéns pela elaboração envolvente e reflexiva. Beijos.

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  3. Nossa mente é muito doida mesmo, cria personagens, histórias que não existem, ou melhor, existe, mas só no nosso imaginário. Quem nunca inventou uma história de amor só para sofrer? Ui, tomara que eu não seja a única.

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  4. Querida Gisele,

    Gostei muito de seu texto. Vejo uma camada a mais naquilo que é dito… Não é preciso ter um desilusão de amor propriamente dita para passar por situações como a da narradora. A questão está na codependência que algumas pessoas têm do amor, ou, mais que isso, de outras pessoas, não é? Todos(as) temos? Talvez sim…

    Ponto alto para o instante em que ela se vê flutuar. Quem nunca quis sair do corpo e pairar sobre suas emoções? Eu já.

    Outro onto ato é o modo como você constrói o conto, em modo de confissão.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula GIannini

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  5. Na verdade acho que a gente ama o amor e daí inventa o que não existe. Aqui, mais uma vez, Giselle, o destaque é sua escrita, sua personalidade como escritora. Gosto muito! Beijos.

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  6. É normal criar expectativas com relação às pessoas. É normal também decepcionar-se ou, com sorte, surpreender-se positivamente. É normal idealizar o amor. Mas amor, de fato, é algo bem concreto. Se faz no cotidiano, uma palavra aqui, um carinho ali, uma discussão de ideias, uma parceria depois. É quando se encontra a louça lavada, ou se cuida do que é de todos dentro de uma casa. É o pensamento positivo para algo que está por acontecer para aquele que está dormindo ao nosso lado. São pequenas coisas bem reais. São olhares? São. São afetos? Também. É um abraço, uma dança no meio da sala com uma música que se detesta e se diz, mas se escuta assim mesmo porque o outro gosta e também escuta o que gostamos. E esse amor é tão palpável que o coração se enternece, se aquece, se alimenta. A alma voa. Sonhar o amor é igual a não vivê-lo. Gostei demais do texto.
    Abraços carinhosos.

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