O Velho – Fernanda Caleffi Barbetta

(Fabíola vai até a cozinha, onde a mãe lava a louça)

Fabíola – O que o Tião queria a essa hora?
Mãe – Tião?
Fabíola – É. Ele não tava na sala com o pai?
Mãe – Era o velho.

(Fabíola senta-se à mesa)

Fabíola – Que velho?
Mãe – Parece que encontraram um corpo.
Fabíola – Corpo, que corpo?
Mãe – Sei lá. Ele falou com seu pai.
Fabíola – E a senhora conta assim? Por que não falou logo?
Mãe – Esse velho é louco. Tô certa que é invenção dele.
Fabíola – Será? E quem é esse velho louco que eu não conheço?
Mãe – Conhece sim, mora aí na rua debaixo.
Fabíola – Ah, o que grita na praça?
Mãe – Prega, filha, aquilo é pregação.
Fabíola – Ah tá, já sei. E onde eles foram?
Mãe – Seu pai disse que tavam indo lá na prainha.

(Fabíola se levanta da mesa)

Fabíola – Vou lá ver.
Mãe – O quê?
Fabíola – Lá na praia, vou lá ver se tem presunto mesmo.
Mãe – Fica aqui que isso é bobeira do velho.
Fabíola – E se não for?
Mãe – Fica quieta ai, menina. Ajuda aqui no almoço.

(Fabíola volta a se sentar e toma o café)

Fabíola – Achei que fosse o Tião.
Mãe – O que, o morto?
Fabíola – Não, falando com o pai. Tinha certeza que era a voz dele. Não era ele mesmo?
Mãe – (impaciente) Já falei que era o velho.
Filha – É que o velho tem aquela voz rouca de quem grita o dia todo.
Mãe – Quem viu o homem saindo com seu pai fui eu. Era o louco.

(Uma hora depois, o pai entra na cozinha, onde a filha termina de preparar o almoço)

Fabíola – E ai, pai? Conta! Tinha um corpo mesmo?
Pai – Tinha. O velho.
Fabíola – (assustada) Que velho?
Pai – O da praça. O maluco que ficava falando de Deus.
Fabíola – O morto é o velho que grita na praça?
Pai – O próprio.
Fabíola – (intrigada) Mas a mãe disse que foi ele que veio chamar o senhor para ir na prainha.
Pai – (exaltado) Sua mãe nem tava na sala quando ele falou comigo.
Fabíola – Mas disse que viu quando ele saiu com o senhor.
Pai – Sua mãe tá mais louca que o defunto.
Fabíola – Nossa, chega até que me arrepia.
Pai – Era o Tião.
Fabíola – Sabia. Eu disse. Eu falei. Eu conheço a voz dele.

(Mãe entra na cozinha)

Mãe – Cês são surdos? O velho louco voltou. Tá chamando aí na porta.

Imagem – Pixabay

Texto de dramaturgia inspirado na oficina da Palco Cia de Teatro. https://fb.watch/5mfKNnr8-0/

13 comentários em “O Velho – Fernanda Caleffi Barbetta

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  1. COMENTÁRIO COM SPOILER – Não leiam.

    Oi, Fernanda. Bom dia, querida. Li o seu trecho de uma peça. Deixa ver se eu entendi. A mulher estava vendo o fantasma do morto,certo? Fiquei querendo saber o resto. Vc escreveu até este ponto e parou? Mas, olha, o texto tem final, e o final, acho eu, era a constatação de que a mulher viu o fantasma. Será?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oie, sim é um curto trecho de dramaturgia para colocar em prática o que aprendi na oficina. Queria fazer um texto em diálogo, apontando os personagens, nada muito lpobgo ou elaborado, apenas colocar um diálogo que tivesse um contexto, uma história, que é esta mesma que vc entendeu. A mãe que não viu o marido falando com o Tião, viu apenas quando o fantasma saiu da casa….a filha ouviu o TIão e reconheceu sua voz. No final, a mãe o vê novamente. Bjs e obrigada pela rápida e atenciosa leitura.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Oi, Fernanda!
    Li três vezes pra ter certeza de que não me escapava nada hahaha…
    Achei uma super sacada: adoro histórias assim, com esse jeitão de causo, e essa pegada sobrenatural!
    Muito legal! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Querida Fernanda,

    Fiquei muito feliz por saber que a oficina rendeu. Vou até incluir aqui na prestação de contas (relatório artístico de reaizações). rsrsrs

    Quanto À cena em si, perfeita. Tem um certo tom absurdo que cabe perfeitamente com aquilo que o palco “pede”. O trecho poderia, inclusive, ser uma daquelas enas de repetição, sabe, onde os persobagens ficam resos em uma espécie de limbo.

    Parabéns e obrigada por sua disposição e amizade.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

  4. Oi, Fernanda. Achei que seu texto funcionou muito bem. As espirais de enganos e no final a resolução como um susto trazendo o elemento sobrenatural. Parabéns pela sua disposição de experimentar coisas novas, sempre com muita eficiência. Sucesso sempre, querida.

    Curtido por 1 pessoa

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