Dicas imperdíveis de beleza de Dona Marica: Pele – Catarina Cunha

Pele, o maior órgão do corpo humano, um gigante protetor que separa nossa vulnerabilidade interna das intemperes do mundo exterior. Embora cumpra sua função heroicamente, é um bobão amigável e inocente, sofre bullying. Os maiores agressores, para sua tristeza, não estão lá fora, no sol, no vento, nos acidentes, e sim dentro dele, aqueles que deveriam zelar por ele: os pequenos órgão internos, um exército liderado por um sádico, o cérebro.

Há raras exceções. Tenho dois exemplos de mulheres com peles que superaram, ou simplesmente ignoraram os ataques vindos por todos os lados. A primeira, uma gaúcha descendente de imigrantes alemães, russos e italianos, mais branca que asa de anjo.  Passou a vida toda trabalhando na defesa do lar, fosse na beira de um fogão a lenha ou a gás, lavando roupa na beira do rio ou do tanque, de sol a sol. Fumou, bebeu e não fez dieta. Nasceu, viveu e morreu com a pele impecável, sem uma ruga, uma mancha se quer para demonstrar seus 65 anos de luta. Ao ser perguntada o que passava na pele, qual seu segredo, respondia com espanto, como se a pergunta fosse ofensivamente idiota: “Mas bah! Sabão e água.”

O segundo exemplo é de uma mulher urbana, estuda e trabalha a vida toda, economista e administradora carioca, sempre morou perto do mar e do sol. Uma mulata de riso fácil e pensamento rápido. Os anos foram passando e ela mantém aquela pele brilhante e imaculada. Segredo só desvendado na mesa do bar: “Eu durmo dentro de um pote de hidratante”.

O que essas duas mulheres têm em comum? Dona Marica tem uma teoria.  A vida de ambas, sempre intensa e ocupada, sem tempo para briguinhas de órgãos com a pele e com cérebros alegres, práticos e objetivos; nada sádicos. A primeira, com certeza, tem a melhor pele no Céu. A segunda na Terra.

Pronto. Citadas as exceções vamos falar da maioria, classe que Dona Marica se enquadra e tem a melhor dica de todas as galáxias para equilibrar essa luta do gigante bobo contra um exército liderado por um psicopata. Mas até descobrir esse truque fez várias experiências diante de um manto corpóreo marcado por cicatrizes de uma infância kamikaze, de subir em telhado, fazer cerol e correr ladeira abaixo em bicicleta sem freio. Nadou no cloro e no sal, corre na chuva e no sol. Passou a vida sem saber da existência de protetor solar, hidratante,  de raio ultravioleta ou de qualquer outra cor de raio.  

Os ataques do cérebro são terríveis, a simples mordida de uma muriçoca vira um galo vermelho deformante. Um breve contato com metal ou plástico gera coceira e feridas.  A pele é mista, a parte da cara não consegue se entender com o tronco, e as extremidades, mesmo com hidratante, racham e engilham, enquanto outras transformam o hidratante numa fábrica de depósito de milium, umas bolinhas de gordura que só saem sob tortura. Dor, raiva, alegria ou qualquer alteração interna é exposta, sem um mínimo de respeito ou decência na pele. Ao contrário das mulheres acima descritas, toda sua história está marcada em suas rugas e manchas por todo o corpo. Tentou várias técnicas “infalíveis”: mascara na cara de mamão, café, mel, limão, erva-doce, camomila e salada mista, água morna, água gelada, esteticistas com sabonetes e cremes caríssimos, pomada oleosa, seca, fedorenta ou perfumada, esfoliante e tonificante; mas nada, absolutamente nada que durasse mais de 24 horas de alívio com o desconforto e o espelho.

Pensou em trocar de pele, mas ninguém aceitaria a troca. Ou, sei lá, tatuagem, plástica, botox, laser, estimulo elétrico, massagem e todos essas tecnologias que surgem a cada dia para você apagar a história da pele ou deformá-la de vez. Mas Dona Marica, minimalista por princípio, descobriu um dermatologista tão minimalista quanto ela. “Shampoo e sabonete líquido para recém-nascido só no rosto e nas dobrinhas. Repelente e hidratante. Não use nada que tenha cheiro forte e procure relaxar.” Minha pele continua uma onça pintada velha, no entanto sem sobressaltos, rachaduras, invasores, coceiras e vermelhidões. O espelho não reclama,  pois entende o passar dos anos. A guerra não acabou, mas há uma trégua entre o gigante adormecido e o exercito aquartelado.

A dica: procure um dermatologista que entenda sua natureza.

Peles homenageadas: A primeira é minha sogra Nelcy, em memória da gaúcha “Dona Mãe”,  como a chamávamos. A outra é a amiga Marília Moreira, guerreira carioca da gema.

4 comentários em “Dicas imperdíveis de beleza de Dona Marica: Pele – Catarina Cunha

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  1. Putz, Cat, na veia. Eu sofro e sofro com minha pele sensível e meu gosto por aventuras no sol, no frio, no vento. Vivo lutando contra o efeito maléfico desses algozes e sempre-sempre perco Mas não desisto, rs. Texto maravilhoso, também tenho minhas “peles homenageadas”. Beijos, querida.

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  2. Essas dicas de beleza são sempre divertidas e cheias de sabedoria. Peles homenageadas de mulheres bem vividas. Deixar pra lá e viver pode ser o segredo de deixar a pele boa. O amor também!

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  3. Perfeito, Catarina. Sempre no tom. E… Faz a gente refletir sobre a própria pele. No final, de forma ou outra, somos todas vaidosas.

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