O Ódio Que Nos Une – Giselle Fiorini Bohn

– Oi!

– Oi, gente!

– Fala, galera!

– Vocês estão me ouvindo?

– Sim!

– Não? É que você está mudo! Tem que apertar o… isso, agora, sim!

– Bom, estamos todos aqui, então vou direto ao assunto. Eu venho pensando muito ultimamente, e sei que este grupo foi criado porque nós todos aqui temos uma coisa em comum, que é o nosso repúdio a esse governo horrendo que está aí…

– Sim, horrendo!

– Isso mesmo!

– Repúdio é pouco!

– Nem me fale!

– Sim, sim, eu sei, mas eu gostaria que vocês me ouvissem. Eu venho pensando no que nos une, e isso está me incomodando. Eu não acho que o ódio deveria ser a força motriz do nosso grupo, sabe? Nós não podemos permitir que sejamos definidos por aquilo que detestamos…

– E como detestamos!

– Sim, mas vocês entendem o que estou dizendo? Nós temos que ser a contraparte do ódio, e não mais ódio que apenas vem da outra parte, sabe? Porque, se for assim, continua sendo ódio, e a contraparte do ódio deveria ser o amor. Nós temos que ser luz, porque escuridão não se ilumina com escuridão e…

– Tudo muito bonito, ok, mas onde você quer chegar?

– Eu gostaria que nós partíssemos de um lugar diferente. De partilha, de entendimento, de construção… de amor mesmo. Precisamos reconstruir esse país e pra isso vamos precisar de amor, gente. Por isso estou aqui agora com um desejo: descobrir o que nos une além de toda essa aversão.

– Uia, gostei!

– Parece bom.

– Ok.

– O que isso quer dizer na prática?

– Hoje eu gostaria que, ao invés de falarmos da nossa raiva e da nossa indignação, nós compartilhássemos os nossos pontos convergentes. Percebi que pouco ou nada sabemos uns dos outros, além do fato de que sentimos, todos nós, esse ódio imenso…

– Isso é verdade.

– Justo.

– Gosto da ideia.

– Por onde começamos?

– Que tal falarmos um pouco sobre nossas paixões? Uma coisa boba, mas eu, por exemplo, sou apaixonado por futebol. Vocês estão acompanhando o campeonato?

– Claro! Meu Coringão vai…

– Ih, começou mal! Aqui é Parmera, mano!

– Por favor, né? Futebol só serve pra anestesiar as massas!

– Vocês sabem, né, que o futebol foi usado pela ditadura militar para…

– Ok, ok, futebol é complicado mesmo. Que tal música?

– Legal. Eu sou um cara do rock, meu negócio é progressivo, hard rock, gosto também de rock inglês dos anos…

– Não curte MPB?! Onde já se viu, justo você, que é…

– Muito burguês, esse gosto de vocês, hein? E o sertanejo raiz?

– Na real, a única música que representa o povo brasileiro hoje é o funk carioca!

– Está louca? Aquilo nem é música! Bom mesmo era…

– Acho que música é muito pessoal; vamos falar de outra coisa então. Livros?

– Vocês leram o livro da Michelle Obama? Amei!

– Eu odiei. Ela fica forçando toda uma narrativa de que é perfeita, uma santa e…

– Não li e nem quero ler. Eu não esqueço que o Obama não acabou com Guantánamo, como prometeu.

– Sou só eu que não engulo a Michelle Obama ficar alisando o cabelo? E até o cabelo das filhas quando ainda eram crianças, que absurdo!

– Ei, calma aí! Você não tem lugar de fala pra dizer o que uma mulher negra pode ou não…

– Ok, mudando de tema! Que tal… hmm… que tal heróis?

– Eu sou contra o culto à personalidade; de herói, só meu pai mesmo.

– Lula. Maior estadista que este país já teve.

– Lula? Que se gabava dos banqueiros nunca terem ganhado tanto dinheiro quanto no governo dele? Esse Lula?

– Pra mim o Lula já era. Eu acho que devíamos dar uma chance pra Marina ou pro Ciro, que…

– O Ciro foi pra Paris, cara!

– Gente, nós estamos tentando encontrar o que nos une além do ódio! Foco, por favor!

– Os tópicos estão muito polêmicos. A gente tem que começar com uma coisa mais fácil, tipo comida.

– Ok, certo. Eu começo. Adoro massas, amo comida italiana! Uma lasanha quatro queijos, hmm…

– Eu não posso comer glúten, então massa pra mim é fora de cogitação. Mas adoro comida japonesa e…

– Comida japonesa só dá pra rico, né? Quero ver alimentar o povo na quebrada com sushi de salmão!

– Eu sou do bom e velho churrasco, isso é que…

– Desculpa aí, gente, mas eu pensei que vocês tinham um pouco mais de consciência ambiental. Queijo, peixe, carne… sério? O planeta não suporta mais. É por isso que eu sou vegana.

– …

– …

– …

– …

– …

– Acho que por hoje deu, né, gente?

– Sim…

– É…

– Foi legal…

– Beleza…

– Então a gente se vê de novo na quinta, mesmo horário. Tchau, gente. Fora Bolsonaro!

– Tchau pra todos! Fora Bolsonaro!

– Até! Fora Bolsonaro!

– Aí, valeu! Fora Bolsonaro!

– #ForaBolsonaro!

Crédito da imagem: Kelly Sikkema (Unsplash)

8 comentários em “O Ódio Que Nos Une – Giselle Fiorini Bohn

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  1. Eh, menina! Assim mesmo. Nos grupos do zap, por exemplo, evito falar de assuntos gatilhos. Nada de futebol, política, religião. Música até que rola, se não gosto, não comento. Chato isso de ficar se condicionando a não falar coisas que possam virar polêmicas, chato porém necessário.

    Enquanto o povo deste seu grupo imaginário só falava em ódio ao Bolsonaro, tudo dava certo, mas como seres humanos trazem uma diversidade infinita de gostos e desejos, é impossível encontrar outra pessoas com gostos perfeitamente iguais aos nossos. Eu e meu filho, por exemplo. Gostamos de filmes de terror. Mas é difícil assistirmos filmes de terror juntos, porque ele gosta de slasher e giallo e eu gosto de terror psicológico. Coisas da vida.

    Seu conto discute a dificuldade de discutir gostos e ideias, ainda que todas as pessoas encontrem um ódio em comum. Melhor seguir odiando em paz, né não? Não forçar novas afinidades.

    Gostei bastante, é inteligente e muito divertido. Parabéns.

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  2. Que texto maravilhoso! Como somos complexos, não? O que acho engraçado é que nos acreditamos que somos bonzinhos, da paz, do amor. Giselle, parabéns! Que texto divertido e verdadeiro. Abs. Karem

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  3. Adorei o texto dinâmico com temática tão atual. Um ponto em comum pode ser o desacordo coletivo frente a outro grupo. Mas sem dúvida sempre haverá divergências, pois somos assim mesmo… gente doida. Leitura muito fluída e deliciosa. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Texto ágil e contemporâneo. Retrata muito bem esses tempos sinistros que estamos vivendo. Os diálogos estão perfeitos, muito naturais. Parabéns! Beijos.

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