Aura – Giselle Fiorini Bohn

– Você me ama?

– Sim.

A pergunta já lhe fora feita tantas vezes que ele respondia sem nem mais pensar. Começou pouco após conhecê-la; no início achou doce, então divertido, depois estranho, e agora era insuportável. A insegurança e a carência, que tanto o encantaram a princípio, passaram a exasperá-lo. Ele havia dito sim-claro-que-eu-te-amo-que-bobagem-isso com ternura, com preocupação, com impaciência fingida e real. Implorou que ela parasse, argumentou que era desnecessário, ameaçou não responder mais.

– Você me ama?

As três palavras, agudas em sua sofreguidão e desassossego, interrompiam conversas banais sobre as notícias, os compromissos do dia ou os planos para o final de semana, abriam encontros e selavam despedidas, e estavam lá no meio do almoço, no meio do filme, no meio do sexo. Não havia hora, lugar, ocasião certos.

– Você me ama?

– Não.

Ele já dissera isso antes, com uma piscadinha ou um tom na voz que indicava sarcasmo, ou mesmo mau humor; sempre havia, porém, algo que denunciava a mentira óbvia. Não desta vez.

Ela levantou os olhos da revista que tinha nas mãos, boca semiaberta, os olhos arregalados. Repetiu, como se precisasse se certificar de que ouvira corretamente.

– Você me ama?

– Não mais.

As palavras saíram lentas, e ele fixou seus olhos nos dela sem mais nada dizer. Ela retornou seu longo olhar silencioso; a surpresa se foi. Soltou um suspiro que ele não compreendeu, e, no canto de seus lábios, ele jurou ver um leve arquear. Nunca antes ela fora tão linda; estava, finalmente, envolta em uma aura de paz e redenção.

Ela colocou a revista sobre a mesa, levantou-se, caminhou em sua direção. Ainda olhando em seus olhos, segurou seu rosto com as duas mãos, e sorriu. Beijou-o no alto da cabeça, saiu pela porta, e ele nunca mais a viu.

7 comentários em “Aura – Giselle Fiorini Bohn

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  1. Olá, minha linda. Que conto interessante! Acho que a resposta dele era o que faltava para que ela se libertasse. Talvez a relação também estivesse cansativa para ela, e agora, sem que ela a amasse também, ela não teria mais que ficar com ele, perdeu a culpa e a responsabilidade de sustentar este sentimento que não existia mais entre os dois e foi. Eu vivo perguntando para o Gabriel se ele me ama, mas isso é coisa de mãe louca. Beijos.

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  2. Um conto muito bom, Giselle, em poucas palavras a tensão de um relacionamento. Eu nunca perguntei a alguém sobre me amar, ou não. Medo de me acostumar com esse questionamento, provavelmente. Um beijo, querida.

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  3. Ela também não o amava mais e queria deixá-lo sem que ele sofresse? A libertação, muitas vezes vem por caminhos inesperados. O texto soube flagrar os equívocos que vivemos e as manobras inconscientes que perpetuam esses mesmos equívocos. Parabéns, Giselle, pela narrativa calcada no susto flamejante das relações minúsculas. Beijos.

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  4. Pra mim seu texto falou da necessidade dessa mulher de corresponder a uma hipótese , uma premissa de amor. Quando essa hipótese se desfez, ela enfim pode se libertar do compromisso do amor pactuado. Acho que uma situação que ocorre nos relacionamentos e seu texto captou isso com sutileza, um grande mérito. Parabéns. Gostei muito.

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  5. Querida Gisele,
    Ah, a libertação… A do outro, a de si mesma.
    Mais um conto com cara de crônica, e que, fletando de leve com a dramaturgia, faz lembrar a “Comédia da Vida Privada”.
    Parabéns, mais uma vez.
    Beijos
    Paula Giannini

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