Aquilo que se impusera – Elisa Ribeiro

Sentou-se no tapete em frente à janela. As pernas dobradas, as mãos sobre os joelhos, os olhos da gata da vizinha nos seus. Fechou-os. Pensou em si mesma como uma fruta em ponto de tombar ao chão de madura ou uma hortaliça em fim de ciclo na terra. Usava essa imagem para fazer-se imóvel, o professor sugerira, apegara-se a ela. O canto dos melros escondidos entre os galhos dos ciprestes soava bom e ruim ao mesmo tempo. Música previsível pelos fones de ouvido cairia melhor, mas conectar-se à natureza integrava-se àquilo que se impusera.

Inspira, conta dez; segura o ar, mais dez; expira, outra vez de um a dez.

Na enésima vez, ela própria era um melro comentando naquela língua canora sobre ela,
a mulher de pijama sentada, pousada como uma fruta – uma pera? – no tapetinho azul
defronte à janela. Logo, a gata da vizinha, Luísa era o nome dela, o abocanharia e
lamberia com delícia o sangue grudado nas hastes de suas penas, por instinto,
sem mistério, fazendo o tempo retroceder ao momento em que ela, a
mulher de pijama, tomara o café amargo e se detivera ante
 aquilo que se impusera: meditar em primeiro lugar,
só o café entre a cama e os olhos novamente
cerrados, de costas como uma pera,
sobre o azul do tapete defronte
os ciprestes.

Expirou contando dez. Abriu os olhos. Um cheiro tímido de café frio subia da xícara sobre a mesa. No relógio de parede, nem um minuto de sua manhã cronometrada se passara. Não se deteve ante aquilo que se impusera. Caminhou até o quarto e sentou-se no tapete em frente à janela.

9 comentários em “Aquilo que se impusera – Elisa Ribeiro

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  1. Oi, querida. O conto é a fotografia de um momento. Um momento de yoga, talvez? Em que a moça se permite a uma transformação em fruta e em pássaro. Nunca fiz yoga, mas sempre soube que o objetivo seja esvaziar os pensamentos, talvez isso possibilite que a pessoa consiga atingir outras consciências como o seu conto mostra. Achei interessante e bem escrito. Fiquei imaginando vc de pijama sentada num tapetinho azul e observada por uma gata na janela do ap de frente. Boas descrições proporcionam isso ao leitor.

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    1. Querida, escrevi esse conto assim bem soltinha, sem pensar muito. O ambiente é bem o daqui da minha casa, com gata (Luisa) no muro e oss melros nos ciprestes. rs. A ideia era fazer uma espécie de loop, terminar voltando ao começo. Ai deu nisso. Achei que ficou interessantinho e mandei pro Off-Flip. Não ganhei nada, mas pelo menos não fui desclassificada. Eu curto fazer umas experiências principalmente nesses continhos mais curtos. Obrigada pela sua leitura, sempre tão tempestiva e amável. Beijos

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  2. Gosto muito deste texto, muito mais do que os textos de quem a inspirou a esta viagem… Um texto em looping, muito bem escrito, que vai nos amolecendo, tranquilizando, ao mesmo tempo em que nos mantém alertas à espera de algo por vir. Parabéns.

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    1. Rindo aqui de você. A moça lá, aquela que vc não gosta, só me inspira a sair das minhas fórmulas de escrita, é só por isso que eu gosto dela. Obrigada pela sua leitura, querida. Beijos mil

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  3. Um texto que trabalha palavra, imagem e significado. O afunilamento dos “versos” me fez pensar na língua do gato e também em um enraizamento de árvores e ideias, a moça centrando-se, entrando em si, tão profundamente, que quase se torna uma só palavra…. mas depois jorra em um mar delas e recomeça. Looping. Uma leitura gostosa de fazer e que pede uma repetição,, e outra, e outra, e talvez mais outra. Muito bom!

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    1. Fui até ajeitar a formatação do texto depois de ler seu comentário para melhorar o visual do afunilamento do texto . Na verdade eu usei e esse formato na intenção de provocar um leitura, digamos, mais hipnótica. Não sei se funcionou, mas como achei que combinou com a proposta da escrita, mantive. Beijos, querida, obrigada pela leitura.

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  4. Já havia lido este conto e me encantado. A formatação me remeteu a uma mulher sentada em posição de lótus sendo observada de cima. Louco, não?
    Muito interessante a construção, e também a gama de imagens utilizadas (fruta, pássaro, gata, ciprestes, a ioga). Acho que justamente por serem tão fora da minha seara, sinto grande admiração por textos assim. Jamais conseguiria fazer nada do tipo.
    Muito bom. Parabéns!

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  5. O que chamou minha atenção por primeiro foi a estrutura do texto. Porque é um desenho, não é? Parece uma xícara de café, só que sem a alcinha, mas enfim. Acho que deu um charme para o texto. Eu não sei se o loop aconteceu como você queria. Aconteceu para mim. E achei bem bacana isso.
    Parabéns pelo texto. Abraços carinhosos.

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  6. Uau! texto experimental. Amo. A disposição das linhas, o looping e a ideia geral do texto levaram-me para a imagem da ampulheta. O fluxo do tempo é o que significa a ampulheta. Logo, ela também tem como simbolismo o fluxo da vida, a transitoriedade de tudo e ao circular, ao recomeçar. Parabéns pelo trabalho. Beijos.

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