O Retorno (Vanessa Honorato)

Não venha me perguntar por que depois de todos esses anos, só agora resolvi falar; por que decidi desenterrar um assunto com o qual eu nunca, de fato, me envolvi? Bem, não adianta perguntar, porque, a resposta exata, eu não tenho. Talvez seja pelo fato de que pressinto que meus dias estão findando e não tenho nem filhos, nem netos para quem deixar meu relato. Hoje, neste leito de hospital, os médicos e enfermeiros associam meu comportamento à demência, à coisa da idade. Nenhum deles acreditam em mim. Nem Marcinha, minha enfermeira predileta. Aliás, ela recusa-se a ficar comigo à noite. Ouvi-a dizendo para um médico que eu abri os olhos de madrugada e comecei a falar, porém, era visível que eu ainda dormia. Disse que tentou me acordar, chamou pelo meu nome, mas eu falava sem parar: “Olhos vermelhos, pele de gelatina, me olhando, olhos vermelhos, ele vem…” e depois levantei-me, arrancando o soro das veias, respingando sangue no lençol branco. Ela disse que tentou segurar-me e conseguiu me colocar de volta na cama, mas mesmo assim, continuei com os olhos arregalados, vidrados, repetindo a mesma coisa, apertando o centro da testa, no encontro das sobrancelhas, me debatendo, até que, do nada, revirei os olhos e ressonei. O médico anotou o relato de Marcinha e disse que aumentaria a dose dos meus remédios.

Nenhum enfermeiro ficou mais comigo depois de três noites fazendo a mesma coisa. Agora, quando chega minha hora de dormir, eles passam uma argola pelo meu pulso, uma espécie de algema só que coberta por um tecido macio para não machucar, e me prendem ao leito, depois trancam a porta como garantia. Simples assim, afinal, não tenho para quem reclamar, não é?

Deixemos os dramas de lado e vamos logo ao que interessa, tenho um relato para deixar e espero que depois do meu fim, ele caia em boas mãos e seja ouvido por todas as pessoas.

Tudo aconteceu em Varginha, mais precisamente em janeiro de 1996. Eu possuía um sítio bem próximo à cidade e era lá que vivia. Na verdade, ainda o tenho. Permaneci lá toda a minha existência. Só deixei meu precioso lar para morrer aqui, porque não aguentei as dores da velhice e só os remédios caseiros não estavam mais dando conta do recado. E no fundo de minha alma, eu senti que não poderia partir dessa para melhor sem deixar registrado o meu relato.

Desde manhã estava nublado, o céu ameaçava desaguar. Ainda era cedo, não passava das quinze horas, mas devido ao tempo fechado, aparentava ser bem mais tarde. Não se via o azul do céu, só se enxergava grandes e gordas nuvens, movendo-se e ajuntando umas nas outras. Pareciam estar mais baixas que de costume, dando a sensação de que cairiam na Terra.

Eu voltava do pasto, tinha acabado de juntar as vaquinhas no curral, me preparando para a ordenha. As cabras estavam por perto, pastando. Passei Mimosa para o cocho de ração, joguei a corda por entre suas pernas, amarrando-a no que a gente chama de peia para que a vaca fique quieta e deixe-se ordenhar.  Sentei-me no meu banquinho de uma perna só, amarrado pela cintura, e puxei a teta de Mimosa, esguichando o leite no balde que eu equilibrava por entre os joelhos agachados. Lembro-me que cantava distraído enquanto fazia meu costumeiro trabalho, pensando na vida, puxando uma teta, depois outra, enquanto Mimosa comia ração e deixava o leite descer.

Foi então que avistei umas luzinhas no céu, próximas demais às nuvens. Deduzi que seriam raios e que logo a chuva começaria. Mas não podiam ser raios, já que, ao contrário dos raios que são verticais e acompanhados de trovões, essas luzinhas eram pequeninas, como vaga-lumes, e sem nenhum barulho junto. Apesar do céu estar nublado, as nuvens ainda apresentavam a cor azul escura, e como cresci na roça, aprendi que a chuva só cai mesmo depois que as nuvens ficam muito escuras, quase pretas, para logo branquearem e daí sim, chover; o que não era o caso. Continuei a tirar o leite das vaquinhas, sempre olhando para aquela direção, tentando decifrar o que era aquilo. Porém, as luzes sumiram tão depressa quanto apareceram.

De uma hora para outra, as cabras saíram correndo, em disparada, berrando e saltando no ar. Lembro-me como se fosse hoje. Levantei-me apressado, derrubando balde com leite e tudo no chão, retirei meu chapéu de palha da cabeça e abracei-o junto do peito, ao mesmo tempo que exclamava “Deus Todo Poderoso!”.

Eu vi. Vi sim. Com estes olhos que a terra há de comer. Uma fumaça branca invadiu o céu, e não era nuvem, era fumaça mesmo. Do tipo daquelas que saem de grandes incêndios, só que bem branquinha, parecia até algodão. As vacas mugiram e o cavalo relinchou, empinando-se nas patas traseiras. Arrebentaram todo o meu curral e saíram correndo pasto afora, derrubando tudo que é cerca.

E aquele monstro despontou no céu. Eu digo monstro porque não sei como chamar aquilo. Era enorme, gigante mesmo. Era comprido, parecia um ônibus flutuando, possuía algumas luzes pequenas espalhadas pelas bordas, mas não fazia barulho algum. Apenas flutuava, passando lentamente, bem diante dos meus olhos.

Senti uma forte vibração no meu corpo, minhas pernas pareceram moles e sem ossos. Cai ajoelhado no solo sujo de esterco de vaca, ainda segurando o chapéu junto ao peito. Minhas mãos tremiam e não demorei entrar em convulsão. Apaguei.

***

Alguma coisa veio em minha direção. Parecia um homem, mas era pequeno, baixinho, magro, de pele marrom, cabeça ovalada e desproporcional ao corpo. Os braços eram longos e sua pele tinha aspecto gelatinoso. O que mais me chamou a atenção foram os seus olhos: eram enormes, amendoados, salientes nas órbitas e não havia pupila, toda a massa era vermelha. Um vermelho intenso, amedrontador, profundo. Ele aproximou-se de mim caído, trêmulo, inofensivo e indefeso. Ergueu seu dedo torto e tocou minha testa. Eu tentei falar, tentei ao menos gritar, mas nada saiu de dentro de mim, a não ser minha urina que senti encharcando minhas calças. Pensei que meu fim tinha chegado. O seu dedo era frio e aderiu-se bem à minha pele, como fazem as pererecas quando grudam em uma superfície lisa. Ouvi um som semelhante a um grito estridente, mas percebi que se passava somente dentro de minha mente. Meu cérebro vibrou, minha cabeça pareceu que iria estourar; meus olhos reviraram nas órbitas e eu desmaiei.

***

A chuva finalmente caiu. Fria, intensa, pesada. Cada gota que se chocava contra meu corpo era como receber uma pedrada atirada com força. Abri meus olhos e espiei apavorado ao redor. Tudo quieto. O céu escurecera e quase não conseguia enxergar. Caminhei vacilante, minhas pernas ainda pareciam ter perdido os ossos e fui para dentro da minha casa. Tentei acender as luzes, mas a energia havia acabado. Coloquei lenha na fornalha e botei fogo. Minha cabeça doía muito. Tomei um banho na água fria e também um analgésico. Os raios e trovões cortavam o céu sem piedade.

Sentei-me na cauda do fogão à lenha, para não ficar no escuro e também para esquentar-me. Não consegui comer, tampouco dormir. A figura daquela criatura não saía da minha mente.

Nos dias que se seguiram, não se falava em outra coisa em Varginha. Várias pessoas afirmaram ter visto a tal nave. Três meninas juravam de pé junto terem visto a criatura, e por incrível que pareça, elas descreveram-na igualzinho eu vi. Disseram na cidade, até que a nave havia caído e o exército encontrou corpos e um dos tripulantes ainda vivo. Foi um acontecimento grandioso e a criatura passou a ser chamada de ET de Varginha. A mídia em peso fez acampamento aqui por vários dias, meses e posso dizer até anos. Mas há quem contradiz, diz que foi invenção e imaginação das crianças. A verdade é que minhas cabras amanheceram todas mortas, assim como vários outros animais ao redor. Nunca me pronunciei, nunca dei depoimento algum para polícia ou jornalistas.

Bom, eu nunca tive certeza se o que eu vi foi um sonho ou foi mesmo real. Até que os pesadelos começaram. Não é bem um sonho, na verdade acredito que seja um comunicado.

Sempre tive uma monocelha grossa, e desde aquele dia, nunca mais nasceu pelos entre minhas sobrancelhas, e agora, todas as madrugadas neste exato ponto, sinto queimar. Uma dor aguda me acorda do mundo dos sonhos, me abrindo os olhos, não para este mundo, não para este planeta, mas para outro lugar, outro universo. Eu o vejo, seus olhos brilham. Ele fala comigo. Eles estão voltando. E dessa vez o arrebatamento será maior. Eles estão voltando…

7 comentários em “O Retorno (Vanessa Honorato)

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  1. Vanessa ótimo conto, me pareceu um pouco apocalíptico no começo, mas bom, o fim resume tudo. Bom o seu conto.

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  2. Muito legal, Vanessa. Envolvente, criativo, curioso, e nem um pouco entediante. O final soa como uma ameaça. Excelente aproveitamento da história do ET de Varginha.

    O que tenho a dizer? Parabéns. Arrasou.

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  3. Muito interessante! Gosto de contos que misturam ficção e fatos históricos, e o seu fez isso muito bem. Só espero que não seja premonitório mesmo…
    É um texto que prende nossa atenção do início ao fim. Muito legal. Parabéns!

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  4. Pegou uma história que facilmente poderia virar um romance, uma série inteira e trouxe um recorte que se encaixou bem em uma aventura arrebatadora… O Et de Varginha está bem aproveitado sob o seu ponto-de-vista original e marcante. Parabéns pelo trabalho! Beijos.

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  5. Olá, Vanessa!! Aqui é a Kinda.. estou voltando a ler, graças a Deus!!
    Muito bom o relato, muito vívido, eu acreditei!!! 🙂
    Parabéns, guria!!
    que venha o arrebatamento… ops.. q venham mais textos!
    bj

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