Paz – Giselle Fiorini Bohn

Ela só queria ter paz. Primeiro, apostou na religião: ia à missa, rezava o terço, fazia novenas. Aí passou à fase mística: tentou Reiki, tomou o chá de Santo Daime, buscou o sagrado feminino. Então veio a etapa niilista e, com ela, abraçou o ateísmo.

Até que cansou de não acreditar em nada e recomeçou a acreditar em tudo. Em algum momento, foi na alimentação que colocou suas esperanças: se tirasse o açúcar, se evitasse o glúten, se virasse vegana – aí, sim. Tentou ainda a mente sã em corpo são: ioga, corrida, Zumba. “Arte! A arte há de me salvar!”. E arriscou-se na pintura, na literatura, na música; de novo, em vão. Suspeitou que apenas fora de si encontraria o que procurava: engajou-se na caridade e no voluntariado. Mas nada lhe apaziguava a alma; isso, prometeram-lhe, só a meditação lhe daria. Não deu.

            Era culpa do signo, diziam uns, mas ela não acreditava em astrologia – não mais. O problema devia estar na infância, porém nem a terapeuta junguiana nem a quântica puderam encontrá-lo, tampouco a mãe do terreiro de umbanda, a coach de vida ou o pastor da Universal. Será que se fizesse o caminho de Santiago de Compostela ela teria a resposta para aquela inquietação? E se fosse àquele workshop do Tony Robbins, para andar sobre carvão em brasa? Pode ser que precisasse ir à Índia e ficar no ashram do…

            – Sabe o que te falta, Nice? Sexo.

            A amiga falara brincando, mas ela ficou cismada. Estaria no sexo, talvez, a chave da serenidade? Ela duvidava, afinal, mesmo quando casada nunca fora muito afeita à coisa. Precisava descobrir, mas sexo com quem? Estava separada há muitos anos; o ex, leonino, não aguentara tanta indecisão.  Bem, tiraria isso a limpo, e seria, como sempre, metódica.

            O rapaz entrou no quarto de hotel às 21.12, atrasado. Antes das 23.00 ela já estava vestida novamente, pronta para ir embora. Colocando o maço de notas no bolso de trás da calça jeans apertadíssima, ele sorriu quando a viu retirar da bolsa as chaves do carro. 

            – Você me dá uma carona, gata?

            “Gata! É isso!”

            E assim aconteceu. Não foi no sexo animal que ela se encontrou, mas no animal: adotou uma gata, depois outra, e não parou mais até se tornar a louca dos gatos, vivendo dias perfeitos entre afagos e ronronados.

Enfim, a paz.

10 comentários em “Paz – Giselle Fiorini Bohn

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  1. Muito legal, querida. Não sou a louca dos gatos mas ando precisando de um gato. Crônica leve e muito gostosa. Parabéns. Ela deve ser geminiana. Ô povo indeciso! Um abraço em ti.

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  2. Uma companhia honesta de bichinho, nada melhor! O problema é quando o gato é endiabrado, mas o sufoco costuma valer a pena. O ritmo do texto é ótimo, o tom do humor é bom e ficamos na torcida por dias mais pacíficos para a protagonista.

    Amei!

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  3. Olá, Gi!
    Seus textos são saborosos e esse não foge à regra. Há uma fingida despretensão, um ar de coloquialidade de uma rotina que podia dizer respeito a qualquer um de nós e é isso que nos prende a atenção e encanta. Ao final, o inusitado. A paz não está em acreditar, mas em achar o amor incondicional. Um dia, saberemos amar sem esperar nada em troca, tal qual os bichanos de estimação.

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  4. Olá, Gisele!! Sou a Kinda.. voltei a ler.. Graças a Deus.. e aos gatos!!
    Sempre gostoso te ler, seus textos são inteligentes e divertidos.
    Parabéns!

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  5. Já tenho duas gatas e uma cachorrinha, acho que estou no caminho certo para encontrar a tão sonhada paz… Adorei, um assunto tão sério, mas contado de uma forma leve e divertida. Bjs ❤

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