O especialista – Elisa Ribeiro

Viam-se todas as terças e sextas. Ela, ainda de dentro do ônibus, atraída pela estranheza de sua figura, o observava caminhando, solitário, na areia. Ele a acompanhava com a respiração suspensa assim que ela dava as costas à praia e entrava no prédio de fachada vermelha: seu andar de princesa, as pernas longilíneas deslizando, o sobe-desce da curva entre a cintura e as nádegas volumosas.     

Ela já o teria esquecido antes de trocar o jeans pela saia longa e os tênis pelos sapatos de flamenco, como sempre acontecia, não fosse a lua cheia naquela noite abafada.  Sob seu brilho adamascado e oblíquo, o anãozinho de todos os dias, tão gracioso em seu fato branco impecável — terno completo, colete inclusive — caminhando à beira d´água, os sapatos pretos lustrosos protegendo os pezinhos delicados, parecera-lhe ainda mais extraordinário.

De modo que já começou desconcentrada o port de bras. Seguiu atravessando o ritmo no sapateado. Maria Luísa, donde está tu cabeza? A professora, mãos na cintura, uma ruga na testa, postou-se ao seu lado marcando o ritmo, os pés batendo com força no piso de madeira.  Na segunda sevilhana, virou para o lado errado e esbarrou no ombro da colega que se desequilibrou ao impacto da exuberância de seu metro e setenta e cinco, sobre os saltos. Desculpa aí, ajudou a colega a se recompor e, para a professora, que a olhava com os lábios cerrados num bico, pediu permisso, antes de abandonar a aula, apressada.

Nem trocou de roupa, desceu correndo, a chapa metálica da ponta e dos saltos dos sapatos batucando na escada. À rua, viu que o anão continuava na areia, as mãos cruzadas às costas, de frente para o mar. Não era sua intenção caminhar até ele, mas a impulsividade que a lua cheia lhe impunha em desvendar, enfim, o mistério de sua presença, foi mais forte.

Estava a menos de dez passos quando ele se virou. As correntes de ouro, pulseiras e anéis que o anão ostentava silenciaram todas as perguntas que Maria Luísa pensara em fazer-lhe. Não por cobiça, mas pelo encantamento que o ouro em abundância costuma causar em quem o olha.  Permaneceu calada quando ele retirou do dedo médio um anel com um diamante rosa enorme e, tomando a mão dela entre as suas, ajustou-o ao seu anular. Seus diâmetros combinavam, ele sorriu e, aproveitando o efeito hipnótico que aquela pedra russa costumava causar, meteu-se por baixo da saia dela, os sapatinhos de verniz bem plantados na areia entre seus tacones de três centímetros, prestes a levitar.      

Ah-ah, ela fez. Seguiu-se um ah-ah muito mais longo antes que seus joelhos bambeassem e um mar de estrelas e hormônios afrouxassem ainda mais seu juízo lasso. Apaixonou-se. Por três breves meses viveram um idílio, até que o prodigioso anão entendeu que estava na hora de novas aventuras e desapareceu de sua vida, deixando-lhe o anel como lembrança dos momentos muy, muy prazerosos.  

5 comentários em “O especialista – Elisa Ribeiro

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  1. Oi, Elisa!

    Essa menção a ouro me fez rir, pois associei aos Leprechauns, e acho que todo esse ar de encantamento combinam com essa figura mesmo. Eu queria que eles dois ficassem juntos, ou ver mais pelos olhos dela (Risos), mas da forma que está é igualmente instigante e gostoso de ler. Ótimo a forma que vc os apresenta tão bem com poucas palavras.
    Parabéns!

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  2. Olá, querida Elisa.

    Um texto intrigante que eu demorei para entender. Nunca namorei alguém mais baixo do que eu. É até difícil encontrar porque eu sou muito pequena, então foi difícil para mim me libertar dos meus preconceitos/preferências e enxergar aquele cigano de baixíssima estatura como o galã de seu conto a despeito das técnicas e do presente que ele deu à amante.

    Um conto bem escrito e com ótimo aproveitamento das 500 palavras. Gostei sobretudo da quebra de paradigma, quando nós, leitores, vemos a inversão da expectativa no final do conto. Parabéns.

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  3. A linha que separa o sublime do kitsch é invisível e se move o tempo todo. É preciso talento para saber quando parar ou avançar, quando acrescentar ou subtrair palavras na representação de um afeto, sem cair no melodrama. Parabéns, Elisa, pela abordagem do tema de forma original e divertida. Amei esse romance curto, mas muy, muy prazeroso. Beijos!

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  4. Olá, Elisa!! Aqui é a Kinda.. voltando a ler Graças a Deus!
    E já me deparo com um prodigioso destes? hahaha
    muito divertido, uma fantasia sexual eu diria, hein…
    🙂

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  5. Esse conto é um verdadeiro deleite!
    Um especialista desses é preciso valorizar! 😉
    Parabéns pelo texto delicioso e envolvente.

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