O Que Nos Resta – Giselle Fiorini Bohn

Olho para meu filho, deitado no sofá, nesta tarde de nosso terceiro lockdown. As aulas foram suspensas mais uma vez, e um ano de seus nove foi passado assim: fazendo a lição de casa aos prantos pela manhã, e matando a tarde com o meu antigo celular nas mãos. Não, não era assim que deveriam ser seus dias.

O aparelho não faz chamadas, serve apenas para que ele possa ver vídeos e acessar games. No começo, discutíamos sobre isso todos os dias. Eu me exasperava pelas horas perdidas, pelos livros não lidos, pela inércia. Estipulava limites, ameaçava sanções, fazia uso de subornos e chantagens. “Se você não ler dez páginas deste livro, não tem mais internet hoje!”, “vamos sair para caminhar e então você pode jogar até o jantar”, “vá andar de bicicleta que te dou mais meia hora”. Mas foi tempo demais, e minha exaustão suplantou minha exasperação: que vá, jogue, que se divirta, que se perca, esqueça deste momento. Haverá outros, em que teremos de volta o futebol com os amigos, em que os livros serão novamente lidos, quando os passeios de bicicleta serão novamente apenas passeios e não estratégias contra o sedentarismo; ao menos é o que eu espero. Mas este não é esse momento.

E enquanto o observo, fico me perguntando como teria sido passar por tudo isso nos meus longínquos nove anos. Naqueles dias sem computador, sem videoconferências, sem links para exercícios online, quando as atividades vinham em papel sulfite cheirando ao álcool do mimeógrafo. Como teria sido fazer confinamento sem videogame, sem TikTok, ou com uma televisão que só tinha cinco canais e a mesma programação a cada dois meses? Teria sido mais difícil ou mais fácil? Não sei.

Só sei que me recordo de vários momentos de minha infância dominados pelo tédio. Lembro-me de ficar deitada na cama, no que então me parecia ser uma eternidade, olhando as partículas de poeira que dançavam em um raio de luz. Lembro-me de chutar pedrinhas, sozinha na rua vazia, nem um único pensamento relevante. Lembro-me de assistir a um mesmo desenho animado pela décima vez sem qualquer deslumbramento. E não me lembro de me sentir incomodada por essa solidão, pela monotonia dos dias, pelo enfado. Tudo isso me parecia então ser o tecido da vida, onde os memoráveis acontecimentos eram delicados e raros bordados.

Hoje vejo que não é mais assim. Até às crianças o mundo parece ter adquirido outro ritmo, e o tédio é o inimigo terrível que precisa ser subjugado, derrotado, eliminado. Há sempre alguma coisa muito emocionante acontecendo em algum lugar: uma nova série, um novo jogo, um novo vídeo no YouTube. O tempo nunca se arrasta, nem em pleno confinamento, pelo contrário: ele agora é curto demais para o tanto que nos aguarda, sempre.

Isso significa que, como muitos acreditam, tudo era melhor no passado, que algo valioso se perdeu nesta nossa transição para o hoje? Sim, seria tão mais fácil também acreditar nisso, mas não consigo. Olho ao meu redor: não vejo mais felizes, mais equilibradas ou mais éticas as pessoas da minha geração e não admiro em nada a história escrita lá atrás. Por pior que as coisas sejam, ainda assim parecem melhores do que jamais foram.

Mas se não me entristeço por saudosismo, também não me regozijo na esperança de que este ritmo alucinado em que vivemos fará de nossas crianças indivíduos mais satisfeitos e mais centrados. Embora pense, sim, que serão pessoas mais conscientes e mais tolerantes, admito que me preocupo com toda esta sobrecarga de informações a que os submetemos. Como isso os afetará a longo prazo? Conseguirão eles lidar com o silêncio e com a escuridão, que também fazem parte da existência?

Meu filho deixa o celular por um instante e abraça o gato que dorme a seu lado no sofá. Ele murmura para o bichinho algo sobre amá-lo tanto, mas tanto, que nem sabe explicar. Eu sorrio. Na falta de certezas, apostemos no amor que nos move e deixemos que o amanhã cuide de si mesmo. Nada nos resta a fazer.

8 comentários em “O Que Nos Resta – Giselle Fiorini Bohn

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    1. Olá, Gi.
      Seu texto traz sua marca e seu estilo. Uma evento retirado dos dias, algo comum e despretensioso que vai assumindo profundas dimensões à medida que a leitura caminha. Gostei das reflexões, gostei do modo como vc seduz e conduz o leitor, gostei da síntese do pensamento. Que os dias se resolvam a seu tempo. Perfeito. Parabéns!

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  1. Seu texto me lembrou a minha própria e longínqua infância, do tanto que brincávamos ao ar livre, até no meio da rua porque passava pouco carro, de quanto éramos magros, ágeis e criativos. Claro, tudo tem o seu lado ruim. Nasci em 68 e toda a minha infância e a maior parte da adolescência foram vividas durante os anos de chumbo.

    Lembro também de como as pessoas podiam ser más e cheias de preconceito. Hoje, como vc falou, somos muito mais éticos, que bom. Sempre lamento quando alguém aparece falando que sente saudade do tempo que podia humilhar os outros sem que ninguém se importasse. Demônios são demônios, sejam crianças ou velhos. Quanto a estes é muito difícil mudar suas cabeças.

    Gostei muito de saber um pouco mais sobre a sua vida, a rotina com seu filho e a maneira como observa o mundo. Aliás, é sempre um prazer ler o que vc escreve com tanta maestria e sedução. Um grande abraço.

    Iolandinha.

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  2. Que beleza de texto, Giselle. Uma lindeza mesmo que só poderia ter vindo de você. Como não me identificar com a questão do tédio que vivemos na adolescência e hoje parece tão desprezado. Já ouvi dizer que o tédio também é importante para o desenvolvimento humano, assim como o ócio. Talvez como exercício de tolerância às frustrações da vida.
    O seu olhar materno é tão sensível e consciente que chega a comover. Tudo vai passar e nossas crianças também levarão para o resto de suas vidas a experiência adquirida neste tempo ralentado à força. Eu diria que o seu filhote lindo está se saindo muito bem na missão. Parabéns!

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  3. Eu achei o máximo sua crônica cara amiga. Os dias de hoje com essa tecnologia estão deixando os jovens malucos com tantas informações. Preferiria o meu tempo onde brincávamos na rua jogando bolinha de gude, queimada, nossa eram muitas brincadeiras que éramos mais unidos. Hoje a tecnologia afasta as pessoas , as deixa doidas , no Instagram e outros app todos querem ser seguidos e ficam malucos se perdem seguidores. Por isso há tantos jovens tristes e procurando psicólogos. Parabéns pela bela crônica e que sejamos todos felizes e sem psicólogos.

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