Pólvora e silêncio – Escritora Convidada – Amanda Kristensen

Não se ouve o zumbido do vento na rua; no relento, a única coisa capaz de se fazer é senti-lo… sentir zumbidos e sabê-los entender é tarefa para poucos.

Além de estar especialmente fresco, de uma frieza incomum para setembro – já que arranhava um pouco a pele – eu sentia um cheiro: cheiro de noite sem lua que terminaria mal.

Tenho dos melhores olfatos desde a infância.

Aos trinta, sou capaz de lembrar o cheiro de pó e graxa do pai, não porque de seu caixão exale hoje qualquer substância parecida, mas há 11 anos era ainda assim que me visitava aos sábados ou me buscava no colégio com a Belina verde, que tinha o mesmo cheiro.

A solteirice dos dezoito anos exige uma breve reflexão antes que se chegue aos fatos daquela noite ou às reminiscências do pai.

Os bares noturnos são quase sempre os mesmos: regados a álcool e algumas variantes que ajudam a selar casamentos e crimes, se é que há diferença nisso.

Eu buscava que me amassem, quase como uma exigência adolescente; que fosse uma paixão Otélica, ainda estaria bom… mas, de qualquer maneira, o fato é que eu destoava do todo de desejos.

Há alguns anos, especialmente 1 ano e 10 meses, apegava-me à boa ilusão das vodkas. Atravessei a morte do pai (e de outro de quem costumava exigir afeto) ambas acompanhadas do ardume da língua ao som da sinfonia nº6 em lá menor de Gustav Mahler; bares não a tocam; corrijo-me, jamais conheci, ao menos, um que tocasse. É preciso que você a busque em sites de pesquisa, mas aconselho que não o faça agora, pode tragicizar este breve relato; nu de hiperbolizações por si só, como é a vida.

Para a mãe, noite sem lua não era ‘boa de sair’ e, aos dezoito, eu ainda era muito nova para apresentar comportamento dos velhos que sofrem por amor. Eu sempre estive velha para essa vida que já não dura nada.

As amigas diziam que ninguém nos veria escondidas em casa, então me levavam para as noites – com lua ou sem – o quanto podiam.

Noite ou dia, eu começava a amargar; e este é o ponto da solteirice aos dezoito.

Quanto mais amargava, mais aguçava a curiosidade quanto ao comportamento das pessoas: as futilezas tantas que me tornavam incapaz de entendê-las, seria a imbecilidade o açúcar do mundo?

Naquela noite, as discussões sobre quem tinha o vestido mais brilhante ou sobre o homem mais rico do local, especialmente misturadas à vodka, trouxeram-me um enjoo singular, que teimava em sair pela boca.

‘Vou ao banheiro’. Ninguém me ouviu. A conversa estava boa demais…

Insisti para um rapaz na mesa, que acompanhava uma das meninas; ‘vou deixar a bolsa aqui’. Ao que me arrependo pela resposta: ‘Relaxa, ninguém vai te roubar’. Essas carcaças pálidas roubavam minha crença nas pessoas; não pude sequer voltar o olhar para aquele monte de vácuo.

Os banheiros dos bares também são parecidos; os de boteco mal têm um espelho; a vaidade já se esvaiu com a bebida. Aquele em que eu estava apresentava espelhos enormes, para que os tecidos brilhosos e as pompas parecessem ainda mais urgentes.

Não havia ninguém: ali estava eu e meu reflexo; jamais os espelhos me puderam dar o prazer de visitar a mim mesma.

Sentei-me na privada, limpa como deveriam ser percebidas as almas. De repente, nenhuma vontade de urinar… o enjoo sumiu; alguns banheiros podem trazer ar puro; entre aquele concreto a brisa deixava de arranhar minha couraça.

Estava decidida a inventar um mal-estar repentino e ir para a casa, ver se a mãe já estava dormindo, ou se a vó já tinha dado seu último trago do dia…

Naquele cômodo, o uivo do vento se exigia ouvir.

Levantei-me certa de lavar as mãos, o rosto e, muito corajosa, em romperia aquela bolha; antes, infelizmente, precisaria compartilhar mais alguns segundos com aquela podridão cujo nome eu desconhecia. Que falta fazia um tipo daquele ao mundo?

Dei descarga como se a raiva esvaísse; decerto, costume dado pela repetição dos afazeres fisiológicos. Antes que pudesse levantar adequadamente minha calça jeans, ouvi vozes que alteraram os uivos vindos da pequena janela daquele cômodo latrinal.

A curiosidade e o tédio nos levam a coisas engraçadas; fechei a tampa da privada e subi, para que pudesse dar face a cada uma das vozes.

A curiosidade matou o gato, ou ensurdeceu a velha.

Eram dois homens: bem abaixo de mim, separados por um concreto de acústica malfeita. Eu podia vê-los e ouvi-los. Não havia mais ninguém na área em que estavam, quadrado ao ar livre que me pareceu ser devidamente separado para fumantes.

Pude perceber que apenas um me era totalmente desconhecido – de uniforme como os garçons – o outro era aquele por quem há alguns segundos tinha acabado de deixar esvair a raiva pelo esgoto.
Discutiam erros na conta levada à mesa: uma água mineral sem dono; era minha… pedi minutos antes de decidir que o enjoo não seria combatido apenas com aqueles minérios…

Que bobagem. Estavam alteradíssimos por conta de 2,00; à época, era mesmo o preço. Eu quase ria das barbaridades que aquele infeliz dizia ao garçom, ‘não vou pagar por algo que não consumi’; que roubasse 2,00 daquela bolsa abandonada e estaria vivo.

O garçom disse que parasse de ser miserável; que fosse, então, falar com o gerente. O rapaz, que só desaforava, mas não aceitava desaforo, partiu para cima do garçom, dando-lhe um, dois, três socos; antes do quarto, porém, estava estendido ao chão, morto ou quase-morto por um barulho ensurdecedor da arma de fogo que inimaginavelmente portava o garçom.

Noites sem lua não eram mesmo boas de sair, mãe.

Desci abotoando a calça, como se a vaidade do sexo fosse relevante diante de um assassinato; homicídio culposo, doloso, legítima defesa? Isso seria assunto na TV nos próximos dias, meses e anos…

O banheiro estava vazio, a má música no bar impediu que a péssima acústica se prestasse, ao menos, ao serviço de chamar atenção de alguém para auxiliar o rapaz. Estaria mesmo morto?

Quando cheguei ao local, restava a forma de um rapaz estendido.

‘Por que você não chamou alguém, filha?’

Pois é, minha mãe, foi a primeira coisa que a senhora me perguntou quando contei o ocorrido; talvez eu tenha pensado em prestar socorro? Com mãos moles de quem só sabia segurar canetas e quebrar louças… ou talvez fosse mesmo necessidade de atestar a morte.

Ainda respirava; olhava para o alto.

Abaixei para tentar acalmá-lo; ele nada dizia. Estava nas últimas, assustado.

Eu o segurei em meus braços, ‘tudo vai dar certo, o socorro já está a caminho’; não estava, meu celular estava na bolsa. Maldita!

Haveria socorro para ele caso eu tivesse gastado dois minutos gritando auxílio para alguém?

Morreu em minhas mãos, bala bem próxima ao coração; todos temos – ainda que não saibamos. Morreu quase como um passarinho que tive na infância: abria o bico buscando balbuciar que tipo de pio? A diferença era o sangue quente, que já sujava minhas mãos e uma estranha paz depois do susto, que não pude sentir da primeira vez em que ouvi sua voz.

De qualquer maneira, eu estava surda, não podia ouvir, de fato, nenhuma palavra; ainda assim, sentia um zumbido, embora fosse de outra espécie.

Disseram que era o efeito do barulho da bala ao sair da arma; passaria. Eu também voltaria a ouvir: dias, semanas ou meses depois, era apenas um efeito pós-traumático… a audição voltaria.

O próprio atirador com o rosto deformado voltou com socorro: ‘a ambulância tá vindo’. O menino não, o menino não voltou… morreu aos 20, por 2,00, naquela noite sem lua.

De seu caixão, na mesma esquina do bairro fúnebre do meu pai, eu pude sentir o cheiro da pólvora; na manhã do enterro e pelos 12 anos que insisti em visitá-lo.

Nunca gostei de bolsas, mas por obrigação de carregar os documentos, aquela mesma, a assassina dos 18 anos me acompanhava em todas as visitas. Ironia, economia ou afronte?

Naquela, em que já havia decidido ser a última, pensei que talvez o que agora seriam os ossos daquele rapaz debochado não fizessem mesmo falta a um mundo já tão repleto de deboche; aqui se morre por pouco e se vive por menos ainda.

Saindo do cemitério, naquela mesma tarde – que prometia noite sem lua – ouvi a sinfonia de Gustav Mahler, parecia sair de uma casa velha próxima ao cemitério… estaria cansada do tempo como eu?

Ao menos, anos depois, eu estaria mesmo a ouvir? O olfato, enfim, permanecia inabalável…

A melodia poderia ser só uma reminiscência das tragédias primeiras.

Alguma bolsa, água ou dois reais salvariam aquele rapaz adoecido por dentro?

Talvez fosse só mais um em busca de exigir amor.

Na televisão, o garçom ainda estampava, tempos depois, os noticiários; havia uma câmera no local; estava dado o veredicto: legítima defesa.

Segundos depois, as câmeras mostravam uma moça segurando o cadáver – ainda quente – nos braços; mas ninguém reparou, a notícia estava boa demais…

AMANDA KRISTENSEN

Nasci em Bocaina, onde “Judas perdeu as botas”. A data? Especial: dia da mulher… pelo menos sempre disseram minha família. E disseram tanto, que acreditei. Meu pai, ignorante nas letras, mas sábio na vida, deixou-me cedo, aos 16, primavera em que ingressava como graduanda em Letras (Unesp), em Araraquara. Minha mãe? Doutora no cuidado da filha hoje crescida. Aos 26, moro em Cascavel, onde sou professora de Língua Portuguesa, profissão também de minha avó já falecida, mas viva em Flor-de-Lume. Sou Pedagoga e Mestra em Letras (Unioeste), mas o título é mesmo de minha mãe. Termino um Doutorado em Letras, pela mesma Universidade; todavia, pouco delas ainda sei; tão pouco que busco entendê-las nelas e por elas, por isso escrevo.

14 comentários em “Pólvora e silêncio – Escritora Convidada – Amanda Kristensen

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  1. Texto maravilhoso! A Amanda é uma ótima escritora. Aos que, como eu, gostaram muito deste conto, tenho a certeza de que também adorarão ler Entre-Terras, livro que apresenta uma seleção com outros contos impecáveis da autora.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Um conto hiperbolicamente sensorial, onde a autora brinca de forma criativa e inteligente com as palavras, como se vê no caso de “futilezas” dentre outros exemplos. O conto caminhou por estradas do imprevisível e do instigante, a sequência dos acontecimentos foi sublime e o texto fluiu como um líquido perfeitamente gelado num dia de muito calor descendo prazerosamente garganta adentro. Parabéns, jovem. Foi uma experiência das mais agradáveis ler o seu conto.

    Curtido por 1 pessoa

      1. Sou uma das escritoras do Grupo As Contistas, o seu adorável conto foi uma contribuição rica para o nosso blogue. Feliz ano novo.

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  3. Querida Amanda,

    Maravilhoso! Encantada aqui com a sensoriedade de sua verve. Parabéns pela merecida seleção! Beijos

    Paula Giannini
    (uma das Contista)

    Curtido por 1 pessoa

  4. Um dos melhores contos que já li, gostei muito do jeito que é escrito de forma compreensível e complexa
    Parabéns! Amanda Kristensen.

    Curtido por 2 pessoas

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