Noite Feliz – Nadie

Sobre a mesa, a toalha usada em ocasiões festivas,
a louça mais bonita, um arranjo natalino  
e as comidas:

o lombo de uma porca
que deixou órfãos doze leitõezinhos;

pedaços triturados de um boi virgem castrado ainda menino
transformados em um bolo de carne muito bem temperado
para os que não comem porco, nem bacalhau, tampouco gostam de galinha;

inteira, uma ave geneticamente melhorada para render peito e coxa criada em confinamento sem grandes alegrias além do excesso de comida, cuja vida, felizmente, durou menos de noventa dias;

retalhos desfiados de um peixe de águas escandinavas
misturados com batatas amassadas e fritos em formato de bolinhos;

farofa com passas, bananas e o bacon de outro porco — ou porca — para dar um gostinho;

rabanadas enormes
cada uma equivalendo a trezentos e cinquenta calorias;

panetone de chocolate cortado em quadradinhos;

refrigerante, champanhe e vinho

entre outras iguarias.

Uma vez por ano reunida, celebra na sala, a família:

o pai
que já bebeu seis taças de vinho, quatro cervejas e dois tragos de pinga;   

a mãe
repetindo a cada garfada que comer é o que de melhor há na vida;

a filha
obesa de tristeza. Preferia estar no quarto dormindo;

o irmão
com seu corpo perfeito a custa de horas de treino na academia e de uma dieta rigorosa prescrita pelo nutricionista, mal tocará a comida;

a tia
outrora uma adolescente anoréxica, aos quarenta e dois ainda se relaciona
de forma estranha com a comida: nunca come, só belisca;

seu marido
habituado a comer com os olhos muito, muito mais do que precisa,
tornou-se hipertenso aos trinta e pré-diabético aos quarenta e cinco:
comeria até a lua, se possível;

e a filha adotiva
vegana e eventualmente bulímica.

Na cozinha fazem festa os agregados pequeninos:

a calopsita
cujas asas são periodicamente aparadas por garantia,
come um resto de banana, eufórica, na gaiola: não lembraram de cobrí-la;

fungos
comemoram o aniversário de dois anos de um panetone tradicional,
italiano, de primeira, esquecido no fundo da despensa;

a empregada
toma café com bolacha e troca mensagens enquanto espera a hora de recolher e lavar a louça da ceia da família;

baratas invisíveis
aguardam nas frestas das gavetas
as sobras, com apetite.

Os ratos e os sem teto só celebrarão com o resto dos restos
no dia seguinte.

7 comentários em “Noite Feliz – Nadie

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  1. Eita desgraceira. Não dá vontade de comer, confraternizar, amar ou qualquer outra coisa. Natal depressão. Uma ceia de tristezas embaladas com papel colorido. Fui ficando triste a cada drama apresentado, especialmente pelos animais inutilmente sacrificados, criados, manipulados, confinados, torturados, todos numa mesa onde a desilusão pessoal e conjunta é o tempero do fracasso.

    Não é um texto para celebrar, mas para refletir e se entristecer. Até que ponto nós também somos assim. Ainda bem que para o natal de hoje, no condomínio que moro, fiz a sobremesa. Sem bichinhos mortos no prato que ofereci.

    Parabéns ou meus pêsames, sei lá.

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  2. Mas que tristeza de Natal… triste, porque verdadeiro. Senti-me até culpada pelos bichinhos sacrificados… Carapuças à parte, seu texto é forte, sincerão, triste, um verdadeiro puxão de orelha na sociedade. Gostei muito das construções, do formato, da escolha dos temas apresentados. Texto inteligente. Parabéns.

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  3. Um retrato realista do Natal? OU seria uma visão focada na decadência que há em todos nós? Existe luz também, o brilho no olhar de uma criança que aguarda a chegada do Papai Noel, a possibilidade de reencontrar a família depois de tanto tempo apartados pela pandemia, a simples celebração da vida que ainda pulsa, que ainda resiste, que ainda se alimenta de sonhos e não só de fungos escondidos na despensa. Achei o texto muito bem escrito, afiado em suas linhas cheias de denúncia. Parabéns pela construção e coragem de expor esse lado tão cruel do que deveria ser uma festa.

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  4. Querida Contista,
    Este texto tirou meu fôlego. Incrivelmente irônico, doído, tudo na medida certa. Tudo. Forma, conteúdo e, o melhor de tudo: o subtexto.
    Realmente gostei demais.
    Parabéns por seu talento incrível.
    Beijos e feliz 2022.
    Paula Giannini

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  5. Nem sei o que dizer do seu texto. Eu sempre tive e tenho um constrangimento com esse lado dos excessos alimentares nas festas. É algo muito humano, tão humano e tão tradicional que não cabe nem condenar. É um texto cruel que expõe de maneira crua, inclusive na forma – que remete as listas de Natal, não há quem não as faça – o lado B dessa festa. É incômodo, mas eu gosto. Feliz 2022, querida contista. Que seja um ano de muitas realizações.

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  6. Querida amiga Contista, um Feliz Ano Novo pra você e família.
    Nadie – por aqui já vamos sentindo o enredo profundo, a tolice fútil e passageira da “noite feliz”, nossos paraísos artificiais que repetem-se, ano após ano, no modo automático.
    Olha, eu acho que sei quem escreveu esse belo e triste texto, tão necessário.
    Vamos refletir…
    “Os ratos e os sem teto só celebrarão com o resto dos restos
    no dia seguinte.”
    Triste. Real.
    Um grande beijo ❤

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