Você vai se acostumar – tia

Você vai se acostumar. Na vida, a gente a tudo se acostuma… Acostumamo-nos à secura do mundo. E ao ar, que, no segundo da primeira lufada de vida, nos faz chorar. Acostumamo-nos à luz, aos estrondos, e aos pipocares daquela noite que, logo saberemos, repetir-se-á todos os anos. Logo, você tomará ciência de que os fogos, a festa, as luzes, os presentes, não são dedicados a você. Não exclusivamente.  

A gente se acostuma. 

Existir é isto. Um constante aconfortar-se, e amalgamar-se. É equilibrar-se em teia finíssima para, na etapa seguinte, perceber que o mundo nos chutou o banquinho com suas pernas finas de destrezas. E de surpresas. A gente se acostuma ao tombo, e a levantar de cotovelos ralados. Adaptamo-nos ao dente que nasce, e àquele que em breve cairá.  

Aconfortamo-nos.  

Aos rostos que nos examinam em minúcias, os mesmos que reaparecem, sazonais, quase sempre naquela noite feliz, com seus beliscões de afetos em suas bochechas de fofurices e coradices, há você de se acostumar. 

A vida é assim.  

Surpresas. 

E acostumares.  

Tantos.   

Sempre nesta ordem.  

Sempre.  

O primeiro susto, aquele com o velhinho de barba branca, vai com o tempo se tornar em amor, em ansiedade pelo encontro próximo, pelo mistério, por sua chegada de presentes e de conselhos jamais escutados.  

A gente se acostuma ao susto. E à perplexidade de escutar a voz do Papai Noel na piada requentada do tio do pavê. Aquele doce é pr´a cumê… Você vai se acostumar. E vão se tornar naturais as passas no arroz, o corpo que cresce estapafurdiando movimentos, as espinhas na testa, a zonzeira do primeiro gole roubado na mesa, ideia boba dos primos mais velhos.  

Aos poucos, você vai amar, e há de se habituar com os fogos que, naquela noite, resolverão saltar para dentro de você, em meio à adrenalina do primeiro beijo. Aquele roubado. Por você.     

Você vai se adaptar às tias, aquelas mesmas ocasionais, e intrometidas, perguntando sua vida do avesso e inteira. Se já usa sutiã, se namora, se acaso possui pelinhos ali, nas penugens guardadas de seus segredos.  

Você vai crescer, e entre o brinde e a garfada, aquela de sempre em seu doce preferido, pilha de rabanadas que, você não se lembrará do momento em que se tornou seu bolo de aniversário; há de estranhar a ausência da dona do primeiro rosto a sumir da noite de festa. E vai chorar. Ainda que nunca a visse, ainda que fosse aquela, a das perguntas. Quando mesmo você se casaria? Por que não deixar os cabelos compridos? Quando iria engravidar ou para quando seria o bebê? E a isso, há também sua vida de acomodar. Até às perdas nos habituamos.  

Um dia, no amor que cresce em você, vai surgir também o pavor, e nessa hora, passando a não andar mais só, você será duas, sendo ainda apenas uma. E nessa hora, vai aprender que somar também é dividir, e vai chorar escondida em seu primeiro aniversário Natal longe de casa. A isso, também, há você de se ambientar. E vai amar os novos rostos em sua vida. Também a amar a gente aprende. 

E se acostumará à rachadura na parede, à árvore com enfeites descamados, já não tão iluminados como os dos tempos de sua infância. E achará algo natural, passar a ganhar um presente somente. Um só. Natal e aniversário, tudo junto em um único sorriso.   

Do Papai Noel, você vai aprender a saudade. E no cotidiano, o malabarismo da divisão. E o da soma. Vai decorar a receita de rabanadas de panetone, e comprar com preço justo as frutas que mais adora em todo o mundo, aquelas que só aparecem na época das festas, pois, neste ano, a comemoração se mudará para dentro de sua casa.  

Você vai se acostumar às mudanças, e à nova dor, a de se ter um filho. E vai aprender as fraldas, as noites sem sono, e mais um dente que cai. O dele. E o seu, agora colado com pino em sua boca.  

Vai aproveitar as sobras da comida farta, e se entristecer com as crianças que nada têm em sua mesa. Mas a isto, também, infelizmente você irá se acostumar, ocupada que estará em aprender a quebrar nozes perfeitas, e a acalmar humores, e desafetos, e coisas estranhas que, em criança, jamais se lembrará de haver presenciado. Ao menos não nas festas de sua memória.  

À voz do novo Papai Noel, você certamente estranhará, e adaptando-se à nostalgia, e a estar sempre tão sensível nestes dias especiais, desejará as crianças apaixonadas pelo bom velhinho. E vai querer dizer eu-te-amo, mas perceberá que, isso, nem sempre será possível, nem sempre tão natural quanto nas expectativas ensaiadas.  

E passará a achar normal a cabeça da mãe que prateia, a visão do pai que escasseia, e aquele fio de cabelo branco, que vai arrancar em frente ao espelho, até compreender que não há como se desfazer de todos os seus cabelos.  

Vai se adaptar à voz do filho que engrossa aos poucos. E com as perguntas de outros tios. Os dele. Quando é que vai lhe crescer a barba, quando é que vai namorar? E então, vai rir da vida, sempre tão apressada em acelerar o próximo passo.  

Vai perceber a mãe cansada, o pai titubeante, mas até a isso vai você se acomodar. Acostumando-se aos quilos extras, à cintura que desaparece, aos calores sem hora e aos remédios para pressão. E vai provar a nova receita – a nora trouxe para lhe agradar -, enquanto tira as frutas dos assados, e as carnes dos pratos, pois tem gente que não gosta mais.  

A vida vai lhe fazer chorar. Muito. E sorrir, igualmente, acostumando-se que também algumas coisas, somente os clichês é que saberão dizer.  

O Papai Noel, em seu brinquedo de esconde-esconde, voltará a desaparecer. Assim como o menino, o da manjedoura, alguém resolveu levá-lo a algum lugar.  

Você nunca saberá para onde.  

A tudo a gente se acostuma.  

Ou quase.  

Há coisas que você jamais compreenderá.  

Vai olhar a cadeira vazia. E saberá que a isto, também não há nunca de se acostumar.  

Mas, eis que a vida com as cadeiras, gosta muito de fazer umas danças. E um dia, acostumada já à visão que aos poucos torna em nuvens tudo aquilo que você procura, há de surpreendê-la. Com uma voz. A do novíssimo e inesperado bom velhinho. O melhor de todos os tempos.  

E vai sorrir com a neta redonda.  

E… Mimentizando aquela tia, a mesma que desapareceu há tantas décadas, vai repetir os clichês que escutou ao longo da vida inteira. Para quando será o bebê? Para quando?  

E, neste momento, ansiosa por um novo Jesus na manjedoura, vai aprender…  

A vida tem pressa, porque é tão curta. 

E até a isso a gente se acostuma.      

8 comentários em “Você vai se acostumar – tia

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  1. Lindo, muito lindo! Parabéns, que trabalho maravilhoso! Este texto me fez lembrar do “Um dia você aprende” (um texto que gira pelas redes sociais e de autoria incorretamente atribuída a Shakespeare). Se ainda não leu, vale a pena dar uma procuradinha. Também é lindo! De novo, P A R A B É N S!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  2. Talvez eu devesse me acostumar mais com as coisas, sou péssima em adaptação, adversa à mudanças, tanto que prefiro abster-me de festas de natal ou ano novo do que passar por situações sempre iguais e que vão se repetindo todo ano, toda vida… bjs ❤

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  3. Adorei este texto. Fui me emaranhando nesta trama de palavras muito bem trançadas. A mensagem é sensacional e o texto é magnífico. A tudo nos acostumamos, com certeza, e eu amo me acostumar e ler textos maravilhosos neste nosso blog. Parabéns.

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  4. Que texto bonito, profundo, provocativo, mas elegante. Achei muito linda essa renda que vc criou com as palavras. Li embevecida e gostei. Só não concordo com uma coisa, acho que jamais nos acostumaremos com a morte, principalmente com a morte de alguém como um pai, um irmão, um filho. Para isso não fomos treinados. A morte é uma armadilha na qual não fomos feitos para cair. Talvez por isso deixemos nossa arte como legado ao mundo, fazendo que nossa lembrança sobreviva através de nossa contribuição aos que aí estão e aos que virão. Parabéns.

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  5. Querida Contista,
    Que nos acostumemos apenas ao que é necessário que assim seja… Porém, espero que não percamos a capacidade de nos admirarmos com o que nos alumbra: a arte, o amor, as pequenas e belas coisas, entre elas, escrever aqui com mulheres tão incríveis.
    Feliz 2022!!!!
    Beijos
    Paula Giannini

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  6. Um texto sensível que provoca muitas emoções acerca de lembranças de tantos natais. Questiona nossa capacidade de adaptação as mudanças da vida. Vamos nos acostumando aos acontecimentos tristes e alegres, a muitas perdas, a trocas de personagens e papéis dentro do cenário familiar. E ao mesmo, não conseguimos nos conformar com a velocidade da vida que corre e nos mostra o quanto é curta e que não admite ser capturada em um momento feliz. Muito bem escrito como se fosse uma carta para si mesma, ou para a sua criança que um dia crescerá e entenderá (ou não) o quanto tudo muda e é assim que tem que ser. Parabéns.

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  7. Um texto envolvente em que a escolha inteligente da voz narrativa e das situações de ampla identificação agarram o leitor pela emoção da primeira à última letra. A elegância da escrita é a cereja do bolo. Há os que não se acostumam e vivem em uma batalha perdida com o Natal e os clichês; o seu texto também dialoga com esses. Parabéns, minha querida contista. Para todas nós um feliz 2023, de realizações individuais e coletiva. Beijos, beijos.

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  8. OMG <3…Feliz 2022, minha querida e tão doce e sensível amiga Contista.
    E não é que estou aqui, às lágrimas, emocionada com seu conto lindo e triste, tão, tão profundo e reflexivo.
    A vida…é, a vida.
    Belo, belo. Sábio. Milhões de aplausos (sempre).
    Bjokas!!

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