Garota Caveira (Vanessa)

“CORPO ENCONTRADO NA PRAIA BEIRA-MAR NORTE, FLORIANÓPOLIS”

Segundo a Polícia Militar, o corpo de Breno Oliveira (29) foi encontrado na manhã da última sexta-feira (27). Ao lado do cadáver estava seu irmão menor (15) em estado de choque e muito perturbado. A perícia fez uma busca pelos arredores, encontrando várias garrafas de bebidas alcoólicas, cigarros e dois violões.

Ainda no mesmo dia, o menor relatou ao psicólogo da Polícia, que foi na companhia de seu irmão e mais cinco amigos em um sarau na praia, onde tocaram e cantaram, até que, por volta da meia-noite, eles avistaram a figura de uma jovem muito bela, submergindo da água. O menor ainda relatou que assim que se aproximaram, todos os amigos de seu irmão fugiram apavorados, porém, seu irmão ficou hipnotizado pela figura da jovem.

“A garota usava um vestido longo, branco e esvoaçante. De longe parecia muito linda, mas de perto dava para ver que em sua face direita não havia carne, era apenas ossos e nervos expostos. Ela era caolha e encarava a gente com seu olho branco e meu irmão sorria feito louco. Em um só giro, a cabeça dele virou para trás e ele caiu morto. Em segundos a garota desapareceu” – relatou o menor para os jornalistas de plantão.

A polícia trabalha com a hipótese de que o menor fez uso de drogas e procura pelos amigos do rapaz morto.

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Marlon sonhou a vida toda com aquela viagem, estava ansioso e eufórico. Durante dois anos economizou cada centavo para realizar seu desejo de passar o réveillon em Florianópolis. No início, a viagem seria para ele e sua namorada, mas há seis meses ela rompeu o compromisso, deixando-o desapontado, porém, ele jurou para si mesmo que isso não seria empecilho para realizar sua vontade.

Juntamente com dois amigos, Marlon viajou de São Paulo até o Aeroporto Int. Hercílio Luz no dia trinta, véspera de réveillon. Dirigiu-se para o hotel onde já tinha feito sua reserva. Durante todo o dia andou pela cidade, fez compras e ao fim da tarde tomou cerveja com os amigos.

No dia seguinte, ainda sonolento, contemplou pela janela do hotel a linda paisagem da Beira-Mar Norte. Seu coração apertou ao imaginar a namorada ali, ao seu lado, seria bem mais divertido e alegre, mas essa era uma realidade distante.

Enquanto apreciava uma xícara de café, Marlon fixou o olhar ao longe, tinha certeza de que havia visto alguma coisa, algo brilhante e reluzente, não sabia ao certo do que se tratava, mas teve a ligeira impressão de que também estava sendo observado.

Depois do almoço, o rapaz caminhou um pouco pela Av. Beira-Mar, onde os preparativos para a virada de ano estavam a todo vapor. Marlon sentou-se em uma pedra próxima ao mar e ficou observando, perdido entre pensamentos, quando notou a tal luz brilhante mais uma vez. Do seu lado esquerdo, um homem passeava com seu cachorro.

— Ei, rapaz. Me faça um favor? — Marlon perguntou.

— O que você quer? — O homem olhou para ele de um modo desconfiado.

— Olhe naquela direção — Marlon colocou sua mão esquerda no ombro do homem, apontando com o outro braço para um canto afastado das águas — e me diga o que você vê.

O rapaz careca e barrigudo franziu o cenho colocando a mão sobre os olhos, fixando melhor o olhar contra o sol.

— Não vejo nada além de muita água!

Desapontado, Marlon agradeceu. O homem continuou o caminho com seu cachorro e antes de afastar-se muito, gritou para Marlon:

— Cuidado com a Garota Caveira, ela foi vista mês passado, talvez seja ela! — Debochou o careca, sorrindo.

“Garota Caveira?”  Marlon não entendeu o comentário e voltou para o hotel para se preparar para o réveillon.

***

Marlon e os amigos chegaram à Av. Beira-Mar às vinte e uma horas, onde o Dj. Ulysses Dutra já tocava, animando a multidão vestida de branco.

— É isso aí, Marlon! Você tinha razão cara, esse lugar é demais! — Pedro bateu nas costas do amigo, todo empolgado.

— Não liga para o Pedro não. Ele já tomou todas hoje e a noite nem começou ainda — comentou Lucas.

— Percebi, mas deixa ele se divertir, ele merece, aliás, você também, e eu mais ainda!

— Claro, claro! — Lucas ofereceu uma bebida azul com gelo para Marlon que foi logo tomando posse do copo.

Em menos de uma hora, Pedro e Lucas já estavam acompanhados por belas moças, já Marlon, dispensou várias garotas e preferiu a companhia de sua bebida.

Enquanto a banda Desterro Bateria Show fazia a contagem regressiva para a chegada do ano novo, Marlon olhou para a água. A multidão gritava eufórica, 05, Marlon enxergou a luz brilhante, 04, Marlon aproximou-se mais da borda, 03, Marlon ouviu um grito muito forte, mais até que a multidão, mais que tudo que já ouviu, 02, Marlon caiu de joelhos, tapando os ouvidos com as mãos, 01, a luz aproximou-se rapidamente e Marlon viu a figura de uma loira formar-se bem à sua frente.

Toneladas de fogos espalhados em nove balsas estouraram pelo céu de Florianópolis e Marlon foi até a loira que havia sentado com os pés à beira da água.

— Oi, moça — Marlon não pôde deixar de falar com ela. A garota era mais linda que qualquer menina que já tivesse conhecido na sua vida.

— Tá falando comigo?

— Tem mais alguma moça sentada aqui? — Ele sorriu, mas não obteve resposta dela, então insistiu — Posso me sentar?

A garota levantou-se e encarou o jovem. Seus olhos eram negros e apesar de fortes, pareciam sem brilho. Marlon sustentou seu olhar.

— Não vai sair correndo? — Ela perguntou.

— Acha que sou um covarde que não poderia pelo menos tentar conversar com uma moça tão bonita quanto você?

A garota foi pega de surpresa. Sua expressão transmutou para o medo e ela se encolheu agachada no chão, abraçando suas pernas e colando o rosto nos joelhos. Marlon ficou constrangido e aproximou-se lentamente, agachando ao seu lado.

— Desculpe, moça, não quis te assustar. Perdoe se fui rápido demais, só queria te conhecer melhor.

— Há muito tempo ninguém fala assim comigo.

— Assim como?

Ela virou o rosto na direção dele.

— Como gente.

Um frio estranho se apossou de Marlon e ele sentiu a necessidade de tomar a mão da garota entre as suas, assim que o fez, um arrepio percorreu seu corpo e um leve tremor pôde ser ouvido em sua voz:

— Ouça: Gazu está cantando. Venha comigo, vamos assistir juntos.

Ela forçou um sorriso e os dois jovens assistiram toda à apresentação da banda Dazaranha entre abraços e beijos calorosos.

A cada minuto que passava, Marlon sentia seu coração apertar-se, como uma onda estranha de ansiedade e angústia, o motivo, ele não soube explicar.

Por volta das cinco horas da manhã, a multidão já havia se dispersado, mas o casal ainda estava junto.

— Eu não quero ir embora — Marlon disse, mais para si mesmo do que para a garota em especial.

Ela desvencilhou-se de seus braços e sussurrou no ouvido dele:

— Então não vá. Fique comigo — Sua voz era doce e gentil.

— Onde você mora?

Ela virou-se, apontando para o mar.

— Ali.

— Você mora em um barco? — Marlon a olhou de soslaio e esboçou um sorriso sarcástico.

— Não exatamente.

A garota que se intitulou Letícia, afastou-se de Marlon, caminhando lentamente pela praia, de costas, ainda sustentando seu olhar. Foi então, que ele percebeu que a luz que vinha vendo, saía dela. Quando estava um pouco mais ao longe, ele percebeu que ela não era loira, mas trazia um véu bordado sobre a cabeça. Notou também, que ela era linda, sim, mas só de um lado do rosto, porque a outra face era desfigurada e podia ver seu rosto repleto de nervos. Seu maxilar era visível e os dentes estavam expostos. Sangue escorria pelo buraco onde deveria ter um olho. Um jato de vômito subiu pela garganta do rapaz que caiu ajoelhado na areia, aos prantos.

— Quem é você? Ou melhor, o que é você? — Ele gritou, enquanto apertava areia entre os dedos com força.

— Eu sou a morte, aquele que um dia amei me apresentou a ela, e hoje sou sua melhor amiga.

Marlon levantou-se irritado, limpando as mãos sujas na calça e começou a caminhar em direção a ela, que mais uma vez foi pega de surpresa por Marlon, que não ficou hipnotizado tampouco amedrontado.

— Você me enganou! Me fez pensar que gostou de mim e me queria! — Ele apontou o dedo indicador, acusando-a.

Engasgada nas próprias palavras, Letícia não soube o que fazer ou falar, se vendo impotente e, pela primeira vez em anos, sem o controle.

— Não! Foi você quem me enganou, me dizendo que eu era bonita, agora que conheceu minha verdadeira face, sente nojo de mim! — Marlon aproximou-se o bastante para voltar a enxergar a menina loira e bonita que conheceu.

— Eu não sinto nojo de você, mas da sua atitude — Ele abaixou o tom de voz e voltou a encará-la — É assim que sobrevive? Seduzindo homens e os levando para a morte?

Desarmada e sentindo um enorme peso na consciência, Letícia gritou. Só assim conseguiu atingir Marlon e seus ouvidos frágeis, fazendo-o se ajoelhar e tapar os ouvidos.

Quando Marlon parou de ouvir o estridente som, abriu os olhos, mas não viu mais ninguém.

***

De volta ao hotel, Lucas e Pedro estavam com uma ressaca absurda e não saíram de seus quartos, já Marlon nem se deu ao trabalho de deitar, sabia que não pregaria o olho o dia todo.

Assim que a tarde começou a cair, ele voltou ao mesmo lugar. Não conseguiu tirar aquela garota do pensamento, precisava saber o que ela era e o porquê do seu comportamento tão mesquinho.

Mas ela não apareceu.

Por três noites ele a esperou, mas a única coisa que via, era o brilho tão distante e inalcançável vindo do mar.

Quando finalmente completou uma semana de sua estadia e a última noite olhando pela janela do hotel, a luz estava mais nítida e próxima. Marlon, com esperança crescente no peito e um frio no estômago, correu à praia, na espera pela misteriosa garota que não tardou apareceu para ele, vestida de branco e com uma pérola nos cabelos.

— Você está linda — Ele estava sentado numa pedra grande, balançando os pés, apresentando uma descontração não apropriada para um encontro com uma suposta aberração.

— Eu sou um monstro — Ela disse, sem rodeios e sem acreditar no elogio dele.

Ela continuou de pé, olhando para o chão, cabisbaixa.

— Não, não é — Ele manteve o olhar firme no mar — Você se comporta como um, mas não é.

— Eu já matei mais de dez homens. E nem sei o motivo.

Marlon girava uma pedra lisa, típica de praia, entre os dedos.

— Você foi morta por um.

Letícia voltou o olhar na mesma direção que ele.

— Você é um homem também.

— Mas não sou covarde.

Ela aproximou-se um pouco mais e girou a cabeça de modo que seus rostos ficaram na mesma altura.

— Por que você não correu e nem sentiu medo da minha verdadeira figura? —Ele também girou o rosto, encarando-a.

— Porque sua verdadeira figura é esta. Você é esta menina doce e linda que estou vendo agora.

Letícia abaixou o olhar.

— Eu tinha dezessete anos, ele vinte e cinco. Estávamos noivos e ele era muito ciumento. No dia do nosso casamento, já na festa, um rapaz entrou de penetra e me xavecou. Não queria estragar o dia mais importante da minha vida, então pedi educadamente para que ele se retirasse, mas meu noivo acabou vendo e pensou que eu o conhecia e que tinha convidado o amante para fazer chacota com a cara dele. Friamente ele esperou o término da festa e me trouxe para cá, para esta praia, dizendo que tinha uma surpresa. Amarrou minhas mãos com a sua gravata e com o canivete arrancou todo lado direito da minha face e perfurou meu olho com a lâmina. Disse que assim ninguém mais olharia para mim com desejo. Claro que eu gritei, gritei muito e disse que o odiava. Ele então, colocou o revólver dentro da minha boca e apertou o gatilho.

“Passei a vagar por aqui, até perceber que alguns homens podiam notar minha presença. Na minha ingenuidade, pensei que estivesse ferida, mas não morta. Porém, o pavor que eles sentiam ao se aproximarem de mim era tão grande que o ódio passou a me consumir e eu os hipnotizava e os matava. Até você aparecer.

Após vários minutos de silêncio, Marlon falou:

— Preciso voltar para São Paulo amanhã cedo — Ele olhou para a garota — Venha comigo.

— Não posso — Lágrimas brotaram dela — Já tentei sair daqui, mas não consigo. Uma força que eu não sei o que é, não permite que eu passe da avenida.

Marlon olhou rapidamente para a Avenida Beira-Mar onde os carros passavam com os faróis iluminando a noite, buzinas soando, alheios ao casal tão inusitado à beira d’água.

— Entendi. Por isso você mora lá — Marlon apontou para a mesma direção que Letícia dissera no outro dia.

— Sim.

Eles entreolharam-se, um olhar repleto de sentimentos bons e ao mesmo tempo, tristes.

***

Na manhã seguinte, Lucas e Pedro bateram à porta do quarto de Marlon, apressando-o para que não perdessem o voo. Porém, não encontraram o amigo no quarto, nem no hotel.

Ninguém nunca mais encontrou Marlon, ninguém nunca mais encontrou corpo algum na praia Beira-Mar Norte.

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5 comentários em “Garota Caveira (Vanessa)

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  1. Olá, amiga Vanessa.Feliz ano novo para vc e sua família. Espero que estejam todos bem. Vim aqui esperando um texto de natal bem nos moldes do que costumam ser e me deparo com este terrorzinho sobre uma lenda urbana de uma moça que mata rapazes. Gostei do preâmbulo da história que nos traz o modus operandi da assombração. O ponto alto desta parte é a cabeça do rapaz girando e ele caindo morto. Pensei que era sobre esta história que o seu conto falava, mas era sobre a redenção da fantasma Letícia e de como as coisas acabaram se resolvendo e ela deixando de matar. Achei bacana. No fim era um conto de amor. Parabéns, querida. Se vc tivesse me dito que tinha passado das 1000 palavras, eu teria dito para vc mandar mesmo assim. Entre nós as regras podem ser elásticas. Obrigada pela sua amizade e tudo de bom.

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  2. Querida Vanessa,

    Que bom ver você por aqui. Gostei muito de seu conto, sobretudo (ponto alto para mim) do modo narrativo como iniciou o conto. Uma “reportagem” de jornal, deixando a cena crua e dura, muito bom! Parabéns por sua verve neste trabalho tão bem executado.

    Feliz Ano Novo!!!

    Desejo que 2022 seja generoso com você e sua família.

    Beijos

    Paula Giannini

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  3. Oi, Van!
    Feliz 2022 pra você e família, tudo de melhor, querida.
    Que conto bom, a leitura flui, não dá pra parar de ler, até o desfecho. Terror, lenda, mistério e amor.
    Gostei do (triste) fim, ele fala de horror, mas também de redenção, de amor, de que sim, tudo é possível para quem ama.
    Você sempre afinada.
    Parabéns!!

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  4. Adiorei este seu conto e fiquei muito feliz em ver algo escrito por você por aqui… tomara que haja muitos outros em 2022. Seu conto tem suspense, tem romance, tem terror. É excelente. Muito bem escrito, cativante e com um final perfeito. Parabéns. Feliz 2022!!!

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