ANTROPOCENTRISMO – Juliana Calafange

Em algum astro no remoto rincão do espaço sideral, surgiu uma espécie de seres que julgou dominar tudo aquilo que estava ao seu redor. Foi o minuto mais soberbo da história do Universo. Mas foi apenas um minuto. Rapidamente esse astro congelou e esses seres desapareceram.

(Filósofo anônimo. Codinome: Nietsche)

Que o Homem se sinta o centro do Universo, é um pensamento que pode ser comparado ao pensamento de uma mosca, que também pode se sentir o centro voante do Universo. Tudo depende, evidentemente, da própria perspectiva. Nós, como seres humanos, somos limitados pela nossa condição, nós não podemos adotar outra perspectiva que não seja a perspectiva humana. Reconhecer isso, reconhecer que há uma multiplicidade de perspectivas, já é se colocar de outra maneira frente ao mundo.

Foi assim que começou o discurso da nossa professora de biologia no primeiro dia de aula. Até brinquei com meu colega Artur, perguntei se não tínhamos entrado por engano na aula de filosofia. Ele respondeu que a professora de filosofia era mais gostosa e eu ri sozinho, pensando que a perspectiva humana possui muitas variações e no caso do Artur, era a visão de um machista infantil.

A professora prosseguiu a aula falando sobre a grande luta pela vida, que todos os seres do nosso planeta travam, constantemente, com objetivo único de sobreviver, de perpetuar a espécie. Disse que isso servia tanto para nós, seres humanos, quanto para seres microscópicos, como os vírus. Tudo era questão de ponto de vista.

Guardei bem esse dia na memória, porque menos de um mês depois as aulas foram canceladas por causa da pandemia. A recomendação das autoridades era para que as pessoas ficassem em casa, pois se tratava de um vírus desconhecido da ciência. A princípio ficamos todos em pânico, houve corrida aos supermercados e postos de gasolina. As primeiras coisas que desapareceram das prateleiras foram papel higiênico e aspirinas. Eu jamais compreendi o motivo. As notícias aos poucos iam dando conta de que se tratava de um vírus que evoluiu do gado bovino e “pulou” para os humanos. Era um micro-organismo agressivo e cruel, cujo principal sintoma era causar demência precoce. Quando as autoridades começaram a tomar providências, a doença já havia atingido boa parte da população.

Eu pensava muito na minha professora de biologia. Queria falar com ela, conversar sobre o que estava acontecendo e saber sua opinião a respeito disso tudo. Depois de alguns telefonemas e e-mails consegui o contato dela e começamos a trocar mensagens pelo Face2Face.com. A teoria dela era que de tanto dar espaço ao gado em nossas vidas, o vírus acabou encontrando uma ponte até nós. Ela disse que de tanto dar prioridade ao pasto e não à vegetação nativa, de tanto comer carne de vaca em detrimento de outros alimentos que não necessitam de pasto, de tanto nos comportarmos de forma obediente como bois e vacas, engolindo agrotóxicos, hormônios sintéticos e transgênicos, terminamos por causar um desequilíbrio biológico que favoreceu a evolução do vírus. Lembra-se daquela aula quando eu disse que tudo era questão de perspectiva?, escreveu a professora. Eu disse que lembrava sim e que do ponto de vista do vírus, foi algo muito esperto, genial mesmo. Mas será que um vírus, que não possui inteligência, poderia conceber um plano como esse? Ela não respondeu. Senti que ria de mim, do outro lado da tela. Depois de alguns segundos escreveu apenas: Questão de perspectiva.

Foi a última frase que apareceu no meu monitor antes do apagão geral e do grande silêncio que durou para sempre.

Não acredito que essa porra deu vírus e travou de novo! Foi o que Nerd esbravejou quando a tela ficou toda preta. Ele esmurrava inutilmente os botões da máquina SimEarth, até que o equipamento começou a soltar fumaça e emitir um som agudo: píííííííí.

O pai acudiu em sua direção, tentando acalmar o filho que sofria de DAC&DEC (distúrbio agudo cognitivo e descontrole emocional crítico) congênito. Já era a terceira SimEarth que Nerd destruía, de tanto bater nela. O rapaz só se tranqüilizou depois que o pai lhe prometeu outra máquina, novinha, no dia seguinte.

Quando finalmente o viu adormecer é que o pai saiu silenciosamente do quarto e foi verificar o estado do aparelho. Era tarde demais. Mais um sistema solar destruído por completo, não havia como recuperar nada no BigBangData. Mais uma civilização promissora, um mundo tão bem equipado, equalizado em fauna, flora, água e terra, camada protetora de UV, vida semi-inteligente, tudo jogado fora.

*

Imagem: cidade de Liège (Bélgica) vista do espaço.

14 comentários em “ANTROPOCENTRISMO – Juliana Calafange

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    1. Obrigada, Gi!!! Talvez eu faça uma continuação dessa história. Tenho uns rabiscos aqui. Quem sabe no próximo ano bissexto eu posto… kkkk

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  1. Acho até muito provável que um dia isso realmente aconteça. Aos dezessete anos ninguém me levou a sério quando numa aula de Sociologia Geral eu falei que o progresso iria aniquilar a humanidade. Que havia um limite para a destruição e utilização dos recursos naturais e que a tendência era chegar num estágio sem volta.

    Muitas catástrofes e pragas depois daquele dia, talvez os colegas da minha turma não tivessem me chamado de Piteco e rido do que eu falava. Será que ainda poderemos corrigir o erro? Um texto instigante o seu. Infelizmente muito real também.

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  2. Querida Iolandinha, que bom ler seu comentário. Você é mesmo uma garota de visão muito além do seu tempo.
    O mais louco é que cada dia que passa a gente vê uma coisa que até então só existia no mundo da ficção tornar-se realidade. Ultimamente vi uns cientistas falando sobre a real possibilidade de sermos nós apenas uma ficção criada por algum ser mais inteligente. Tipo Matrix, sacou? Que loucura!

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    1. Já pensei que éramos personagens do sonho de alguém. Essa pessoa que nos sonha deve estar tendo um pesadelo, viu?

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  3. Querida Ju,
    Você demora, mas, quando aparece, nos brinda com essa joia metafísica. Sensacional.
    Parabens minha querida.
    Beijos
    Paula Giannini

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    1. Boa pergunta, minha cara. Eu preciso produzir inéditos. Não dá pra lançar o 1o livro só com contos publicados. Kkk Mas estou trabalhando nisso. Beeeeem devagar… 🙄😅

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  4. Caramba, adorei este texto. Me lembrou Moonfall, um filme muito bom sobre essa temática. Quem sabe somos apenas um tipo de videogame que alguém está jogando? Coitado do meu, é um péssimo jogador rsrsrs. Bjs ❤

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