Manifestação – Escritora Convidada – Francine Cruz

Era minha primeira vez numa manifestação. Nunca tinha ido, nem como civil, nem como militar, pois ainda sou cadete. Dessa vez o assunto era sério, todo o efetivo foi convocado: policiais militares da RONE, ROTAM, polícia florestal, cadetes, o pessoal do administrativo e, pasmem, inclusive a banda da polícia que geralmente só anima eventos sociais.
A ordem do comando era clara: conter os manifestantes (professores, na grande maioria do sexo feminino, diga-se de passagem). Não sei por que os consideravam tão perigosos, mas a ordem era “descer o sarrafo sem dó nem piedade” e não deixar de jeito nenhum que eles impedissem a votação do Projeto de Lei que o governador queria implantar com urgência. Dentro da Assembleia Legislativa a determinação era votar a qualquer custo.
Após ficar 10 horas em pé guardando a Assembleia Legislativa e vendo aquela multidão de senhoras que bem poderiam ser minha mãe, meu corpo tremia involuntariamente de raiva e de cansaço. Já havia passado por um sol escaldante, uma garoa grossa e agora o vento gelado. Estava exausto, com fome, sede e frio. Atrás de nós, a tropa de choque, na frente, uma barreira com cercas de ferro.
Quando a confusão começou, e nem sei como começou, entre bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, balas de borracha e jatos d’água, me apavorei e sai correndo dando cacetadas em quem passasse pela minha frente. Quando a vi caída, com a cabeça sangrando, chorei e abracei-a com carinho. Era a tia Evanize, minha professora da pré-escola e meu primeiro amor.
Tia Evanize fazia cócegas na minha barriga com suas unhas compridas pintadas de vermelho, mas agora o vermelho era seu sangue em minhas mãos. Foi para o hospital com traumatismo craniano e morreu horas depois. Foi minha última vez numa manifestação.

Francine Cruz nasceu em Curitiba, no dia 18 de julho de 1984. É formada em Educação Física (UFPR) e Letras Português/Inglês (UTFPR), doutoranda em Educação (UFPR).
Autora, entre outros, dos romances “Amor, Maybe” e “A Casa dos Dois Amores” e dos livros técnicos “Atividade Física para Idosos: Apontamentos Teóricos e Propostas de Atividades” e “Educação Física na terceira Idade: Teoria e Prática”. Suas maiores paixões são ministrar aulas e escrever.

7 comentários em “Manifestação – Escritora Convidada – Francine Cruz

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  1. Querida Francine, prazer em ler a sua participação no nosso blog. Um conto contundente e curto, mas que diz muita coisa, tudo saído das impressões e emoções de um jovem dividido entre aquilo que considera seu dever e o que considera verdadeiro. Lembrei de mim mesma em minha primeira manifestação. Era tão jovem quanto o seu personagem, e estava do lado certo, o de quem quer e luta por uma vida melhor, uma educação com mais justiça.

    Parabéns pelo conto e felicidades.

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  2. Obrigada, Giselle e Iolanda pelas lindas palavras. Minha gratidão à todas As Contistas, pelo excelente trabalho que realizam por meio desse blog. Uma honra participar um pouquinho aqui!

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  3. Olá, Francine, Obrigada pela participação. Achei sua premissa muito boa.Muito impactante. Um conto forte e sensível ao mesmo tempo. Um abraço.

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  4. Meu Deus, que triste… Apesar de ser comum, não acho certo a briga do governo com os professores. Se não fossem eles, não haveria nenhuma outra profissão no mundo. A educação deveria ser prioridade de qualquer governo. Bjs ❤

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