Não me convide – Elisa Ribeiro

A casa não estará lá e se estiver será outra. O piso estará áspero e embaçado e não escorregará sob nossos pés como quando o lavávamos, meninas. Até nossas obrigações nos divertiam.

Não estarão lá nossa avó resignada, nosso pai e tios de shorts, acriançados, nossa mãe com os meus braços roliços, minhas coxas ainda torneadas, minha cara, meu cabelo comprido.

O sítio em frente não estará lá, nem Tangerina, nem Princesa, as vacas, e se estiverem serão outras e não atenderão aos chamados de nossas vozes desbotadas, sem mais o condão de atraí-las.

As areias brancas onde inventávamos o faroeste, lua-marte, o Saara, não estarão lá, nem nossa prima, morta como uma heroína, jovem-linda, dos filmes em que se inspirava para ambientar nossos delírios.

Não estarão lá as mamonas, nem as pitangas nem as jaqueiras, as mangueiras, as goiabas, os carteados, os conflitos; só nós duas e o realismo árido aguando nossas memórias coloridas.

11 comentários em “Não me convide – Elisa Ribeiro

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  1. Olá, Elisa. Fiquei tanto mas tanto tempo sem andar aqui que apenas hoje percebi que vc havia escrito algo. Menina, essa foto, esse texto, me fizeram me lembrar tanto do sítio onde ia em muitas das minhas férias! Felizmente, mesmo muito tendo mudado, especialmente nós, o sítio ainda está preservado em muitas coisas. Meu pai o comprou e sempre estamos por lá. Brincando com os cachorros, conversando na grande mesa da varanda que dá para o rio. Quem nunca teve um lugar assim na vida perdeu uma grande oportunidade de ser feliz. Um abraço e parabéns.

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  2. Esse texto me fez lembrar tanto de meus avós que a dor chega a ser palpável… Realmente, nada é como um dia se foi. Já voltei onde eles moraram na minha infância e tudo se perdeu…

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    1. Vanessa, esse é bem o meu sentimento em relação a esses momentos maravilhosos do passado. Melhor deixá-los onde estão, na lembrança. Beijos, querida. Obrigada pela leitura e pelo comentário

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  3. Dois ou trÊs contos do Solamente Today* se assanham nessa linha. Não o que escolhestes rs. Mais legal ainda. Me senti brincando de escorrega no chão de cacos lisos S2. *multitradução livre

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  4. Que fotografia linda, me lembra a minha infância também, na casa dos meus avós no Rio Grande do Norte. Os mesmos shorts e chinelos, a varanda, e provavelmente os mesmos sonhos – alguns realizados, muitos não. Você escreve lindamente, sou até suspeita pra falar já… kkkkk

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