FIO DENTAL – Juliana Calafange

Enquanto passa fio dental nos dentes, Dr. Peixoto observa sua imagem no espelho. O velho espelho do banheiro está lá desde que comprou a casa, fazem já 24 anos. É um bom espelho, ele pensa. Sempre fora bom para ele. Sempre refletira sua imagem com elegância e sutileza, embaçando os buracos resultantes da acne adolescente e fazendo verdadeiro elogio ao seu tão bem cultivado bigode. Dr. Peixoto sorri amarelo enquanto puxa com o fio uma tripinha de carne que teima em se agarrar entre o primeiro e o segundo pré-molar. Ao mesmo tempo em que constata a pouca eficácia da ferramenta de higiene bucal, ele reflete sobre o tempo, sobre a continuidade das coisas, sobre a necessidade de repetir o movimento com o fio, quantas vezes forem necessárias até que a tripinha de carne se dê por vencida e abandone definitivamente aquele espaço entre os dentes, espaço que não lhe cabe, que pertence somente ao Dr. Peixoto, e ele prefere que permaneça asseado, oco, inane. Até porque ele é um dentista, estomatologista orgulhoso da própria higiene e da profissão; precisa dar exemplo de salubridade. Talvez seja esta a única coisa de que se orgulha na vida, a de já ter diagnosticado e tratado diversas doenças em muitas bocas, salvando assim o sorriso de tantas pessoas ao longo dos anos. Ele sabe que a profissão não tem em si muito glamour. Mas deveria. Pois, se a maioria das doenças começa pela boca − até mesmo um câncer, um problema cardíaco ou uma desilusão podem surgir nas pessoas que não mantêm muito limpos os seus dentes − então é óbvio que o dentista é tão importante quanto um cirurgião!

Mas o que Dr. Peixoto não pode, por mais que deseje, é curar as pessoas da resultância do tempo, essa implacável grandeza física que nos leva inexoravelmente a um ponto no futuro, a um ponto final, ao grande fim. No momento em que seu cérebro projeta a palavra fim, o reflexo no espelho para de encará-lo e volta a se concentrar naquele maldito fiapo de carne teimosa, sem perceber que atribui ao pedaço de porco morto um adjetivo que só se aplica a seres animados. Deve ter sido essa ideia abstrata de que um pedaço de animal morto possa ter vontade própria, o que levou Dr. Peixoto, logo em seguida, a imaginar que o tempo também tem os seus quereres e adora debochar das pessoas obrigando-as a certos costumes. E justo por causa disso, o dentista sabe que todas as próximas noites de sua vida − assim como as que já passaram ­− serão iguais a esta, que esta cena se repetirá diariamente na frente do espelho. Porque a rotina é o apetite do tempo. É certo que com o passar dos anos a imagem refletida será de uma pessoa mais velha, com mais algumas rugas na cara, mais alguns cabelos brancos − ou menos cabelos de qualquer cor −, e essas papadas que insistem em se criar debaixo dos olhos já estarão maiores. Mas inevitavelmente acontecerá, em todas as próximas noites da sua vida acontecerá de ele estar assim, diante do espelho do banheiro, passando fio dental nos dentes. Talvez ele devesse parar de comer carne. Ou quem sabe a vida não seja mesmo nada além disso, uma eterna tentativa de limpar as fissuras da nossa dentadura humana. Aqueles cantinhos da alma onde pequenas sujeiras se acumulam com o tempo. E por que não dizer que é entre os dentes o lugar onde toda a sujeira do mundo é armazenada, escondida, independentemente da nossa vontade? E que esse nosso desejo de extingui-las, de mantê-las ocultas ou de permanecermos livres de toda a sujeira, é tão ineficaz quanto o fio dental, que retira os nacos maiores, mas deixa escapar os menores, os quase invisíveis, que permanecem lá, clandestinos naquele minúsculo espaço vazio. Aquele mesquinho, miserável, fraco, sórdido, mísero espaço entre dentes. Nada incomoda mais Dr. Peixoto do que uma boca suja, nada provoca nele maior ojeriza do que pessoas que não cuidam da saúde bucal, uns exibicionistas infames, arregaçando em sorrisos aqueles dentes cheios de tártaro e manchas de tabaco e café, exalando um mau hálito indecente, típico dos porcalhões sem caráter. Dr. Peixoto nunca fumou nem tomou café. Uma boca dessas, na sua visão, só pode pertencer a gente indigna e preguiçosa. É necessário se dedicar à higiene. Da boca e da alma, como sua mãe sempre disse.

O naco de carne finalmente se desprende do dente e Dr. Peixoto sente um súbito alívio, uma satisfação profunda, como se tivessem lhe tirado um gigantesco peso das costas. Agora sim, tudo está quase limpo, só falta o enxaguante bucal. O desafogo, porém, dura pouco. Logo ele percebe que o miúdo pedaço de porco, ao se desprender do dente, foi arremessado pelo fio dental sobre a pia, indo pousar numa pequenina poça d’água. A imagem da carne esfiapada boiando sobre a água o faz lembrar um cadáver humano flutuando na superfície de um lago, em avançado estado de putrefação, barriga para cima, braços abertos como se estivesse abraçando o céu. Era como o cadáver de sua mãe, da forma exata como emergiu depois de dias desaparecida. Dr. Peixoto ainda não era doutor naquela época, era só um rapazote assustado, obrigado a assumir tantas responsabilidades após a prisão do pai. Olhar o corpo morto de sua mãe boiando, inerte, os olhos abertos como se estivesse só se divertindo na piscina, a água refletindo as nuvens no céu, foi repugnante − e a imagem que Dr. Peixoto escolheu guardar para sempre na memória foi a de um imenso corvo em pleno voo. Depois, o padre na missa falou sobre a beleza, sobre a pureza de sua mãe. Mas que Deus é esse que arranca a pureza de uma criança, que tira todo o doce da vida de alguém tão jovem? Esse Deus nojento só pode viver no lodo profundo do lago. No buraco entre os dentes não pode caber nada de bom. Agora a imagem do defunto se reproduz sobre a pia do banheiro e Dr. Peixoto percebe que está tendo um ataque de pânico. Sua imagem no espelho reflete um rosto muito mais pálido que o normal, uma alvura impressionante, quase transparente. Ele mantém os olhos no branco da pele na tentativa de se deixar acalmar pela candura da cor, mas o coração permanece em galopes, sem coragem de mirar o naco de carne sobre a pia.

Ainda fitando sua imagem no espelho, Dr. Peixoto chora. Chora de um jeito estranho, um jeito totalmente inerte de chorar. Porque ele não chora nunca, nem quando a mãe morreu ele chorou. E de lá pra cá foram tantas sujeiras acumuladas. Por mais que tenha tentado não pensar nisso, essa coisa fúnebre sempre esteve presente. Sempre esteve perdido. Dr. Peixoto não se lembra de nada alegre em sua vida, nada que possa ter havido antes daquela imagem terrível no lago. É como se tivesse começado a existir ali, naquele dia, na hora em que descobriu sua mãe morta, e seu pai um assassino. Depois, só a solidão. Antes, o nada, o buraco vazio, um vão, avulso da memória. As lágrimas caem agora contra a sua vontade, simplesmente brotam dos olhos castanhos refletidos à sua frente. Nenhuma gota daquele alívio que sentiu há pouco resiste, tudo em seu rosto está tenso, ele transpira, o suor se mistura às lágrimas e ambos escorrem juntos, de mãos dadas sobre a derme oleosa, evidenciando seu descontrole, o que até então era inadmissível. Tudo por causa daquela obscenidade, um pedaço de porcaria entre os dentes. Só agora Dr. Peixoto percebe que o líquido salgado, enquanto escorre, penetra em pequenas cavidades, miúdas e humildes crateras, provocadas pelos hormônios da sua juventude há muito tempo, quando ele ainda vivia o luto pela mãe morta, quando ele ainda vivia. E ele nem lembrava, o espelho de alma boa havia escondido os detalhes da pele e do tempo até hoje. Dr. Peixoto gostaria de arrancar o próprio rosto da cara se pudesse, quebrar o invariável círculo da vida, afogar-se naquele pranto, naufragar, afundar no esquecimento e jamais ter existido, por um minuto que fosse. Queria sentir-se nada, tornar-se vazio, lacuna, grota obscura e pardacenta como a origem do mundo.

Dr. Peixoto agora sente-se fraco, as pernas e as mãos a tiritarem como se fizesse frio. Tremendo de nojo, ele puxa um pedaço de papel higiênico e com ele cobre o naco de carne e a minúscula poça de água sobre a pia, tudo junto, embalado no papel, o braço hiperesticado, tentando manter a maior distância possível entre a repugnância e a boca. Sua mão sofre espasmos, entre os quais ele aperta cada vez mais o pedaço de papel que envolve a coisa, como se quisesse fazê-lo desaparecer entre os dedos. Sem conseguir controlar os próprios músculos, como se a perversão fosse um imã que a boca atrai instintivamente, num movimento súbito, involuntário igual ao abocanhar de um lagarto, Dr. Peixoto enfia o pedaço úmido de papel e carne − tão comprimido que já se assemelha a uma só massa disforme − na boca.

Não foi preciso nem mastigar demais, a coisa desapareceu dentro da garganta, dissolvendo-se na saliva. E lá dentro do estômago deve ter começado a ser bombardeada com os ácidos da digestão. Em breve tudo aquilo se espremerá através do intestino até se transformar no que sempre foi, uma massaroca de imundice. Mas sempre restarão as pequenas partículas, aquelas que sempre ficam acumuladas, agarradas ao vão escuro que existe entre os dentes.

*

Este conto foi publicado originalmente na revista A Fonte – 4ª Edição, em 2022.

https://www.revistaafonte.com.br/juliana-calafange

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