O BANQUETE E OUTRAS HISTÓRIAS – Iolandinha Pinheiro.

– O BANQUETE E OUTRAS HISTÓRIAS –

Hoje é o meu aniversário e para comemorar com meus queridos amigos resolvi escrever estes continhos e esperar pelos seus abraços de amizade e carinho. Agradeço antecipadamente para cada um que vier  me dar um abraço.

AS CARTAS NÃO MENTEM JAMAIS – texto 01

Noêmia nunca mais foi a mesma depois de ter visitado Madame Soraya numa quarta-feira à tarde, com cinco de suas colegas do Curso Normal.

Na sala de espera era aquele bafafá das garotas, e cada uma que saía contava as previsões para as outras, na maior risadagem. Quando Noêmia saiu, vinha pálida e calada. Não houve como fazê-la confessar o que a cigana lhe havia vaticinado.

A verdade é que a partir daquele dia a moça passou a ter medo de qualquer coisa que pudesse lhe causar algum acidente. Não quis mais comprar um carro, desistiu de ser professora, mandou instalar grades em todas as janelas e muitos cadeados nas portas, terminou o namoro e virou tradutora trabalhando em um escritório que funcionava em sua própria casa.

A cada dezoito de maio, dia marcado para a sua morte pela cigana, a moça se trancava toda e não atendia nem o telefone.

Depois de muitos anos sem que nada acontecesse, Noêmia começou a duvidar daquela previsão e relaxou um pouco. Neste último ano, apenas verificou cada cadeado e foi ler em sua cama após o almoço, como se aquele fosse um dia qualquer.

Para seu infortúnio a cidade foi tomada por um terremoto violento que fez tremer toda a região e fez romper a barragem de uma gigantesca represa da cidade vizinha. Noêmia só entendeu o que estava acontecendo quando uma onda colossal fez sombra sobre o pequeno sobrado e foi cobrindo de água cada cômodo de sua casa, até o teto.

Desesperada, a moça tentava abrir as portas, mas não conseguia abrir as muitas chaves no meio da confusão. Correu então para as janelas, mas, por causa das barras de alumínio, não havia nenhuma que pudesse abrir.

Quando a água baixou encontraram a pobre criatura agarrada às grades da janela do quarto que, afinal, não a protegeram da morte.

Se nunca tivesse se consultado com Madame Soraya talvez ainda estivesse viva.

O BANQUETE – texto 02


A última coisa que Emílio ouviu antes de perder os sentidos foi o som cada vez mais próximo de estalos se avolumando em torno do carro destruído.
Era um barulho familiar que ele não conseguia lembrar onde ouvira antes. Uma espécie de “plec, plec, plec” vindo de todos os lados.

Emílio era um homem trabalhador. Havia tido uma infância miserável, mas isso não o impediu de ser um empresário de sucesso no ramo dos inseticidas. Muito esforço, pouco descanso e uma guerra infinita contra as malditas pragas que exterminava com orgulho e prazer foram o motor deste sucesso.

Raramente tirava férias, mas a mulher e os filhos haviam pedido tanto que acabou cedendo. O carro era novo e a mulher insistia em dirigir, mas era óbvio que ele não iria deixar.

“Mulher ao volante, perigo constante”, era o que sempre repetia para aborrecê-la.

Acabou ficando exausto e dormiu. E foi tudo.

Algum tempo depois acordou numa espécie de leito. Não enxergava nada. O lugar estava absolutamente escuro. De longe ouvia apenas o som do “plec, plec, plec” para lá e para cá. Tentava se mexer e não conseguia, as pernas e os braços não respondiam. Imaginou que lhe haviam ministrado alguma espécie de substância anestésica. Tentava perguntar sobre a esposa e os filhos, mas ninguém parecia ouvir.

Ficou assim até que em um momento sentiu que estava sozinho. O sono havia passado e as pernas funcionavam novamente. Ergueu-se e saiu andando por túneis escuros como se estivesse num claustrofóbico labirinto. Já estava ficando desesperado quando ouviu os estalos novamente. Foi seguindo o barulho e notou que a trilha ficava mais clara a cada passo.

De repente chegou  a um lugar amplo e bastante iluminado. Finalmente conseguia enxergar, mas tudo o que queria era não ver. Deitados no chão e cercados por formigas gigantes, sua mulher e seus filhos eram devorados com voracidade. A cada naco arrancado seus corpos balançavam fazendo parecer que estavam vivos.

Não podia salvá-los, precisava fugir. Foi recuando silenciosamente, mas acabou pisando em um osso partido abandonado ali no chão. Não conseguiu conter o gemido de dor. Todas as formigas pararam imediatamente de comer e se viraram para ele. Estavam todas vindo pegá-lo para enriquecer o banquete.

Plec, plec, plec.

EVIDÊNCIA – texto 03

Se havia alguém feliz e realizado naquela pequena e rica cidade, era a família Silva, principalmente depois do nascimento de Sarah, a única filha do casal.

A vida transcorreu sem sobressaltos até o dia em que a moça teve uma febre altíssima e passou vários dias inconsciente. Médicos da capital foram chamados, mas os exames não apontavam nada. Então, numa certa manhã Sarah abriu os olhos e gritou:

– Vovó Cândida vai morrer!

Falou isso e desfaleceu novamente. Quando despertou, dois dias depois, a casa da família Silva estava em luto.

Os pais abafaram o caso, a pequena passou por muitos exames, mas, para desespero e alivio do casal os doutores diziam:

– Esta menina não tem nada.

Sarah tentava levar uma vida normal, vez por outra adivinhava coisas, ou dizia onde estava algum objeto perdido. A história acabou vazando e pessoas começaram a fazer filas na porta da casa.

Aconselhada pelo Pastor Ajax, a mãe permitiu as “consultas” uma vez por semana.  A menina virou uma espécie de santa e a atração principal do município. A família não cobrava nada, apenas donativos voluntários para a Igreja dos Missionários Obedientes da Casa do Senhor.

O tempo foi passando e Sarah se aborrecia com o assédio. Não queria mais atender, não queria mais obedecer, não queria comprometer horas e horas de seus dias resolvendo proplemas alheios sem obter nenhuma vantagem.

Quando a menina “curou” a primeira pessoa, Ajax enxergou ali uma mina de ouro. Para ter completo controle dos poderes de Sarah, resolveu propor casamento. Em seus planos já contava com o dinheiro que ganharia para construir um templo muito maior, onde Sarah atenderia e faria os seus milagres. Aparecia sempre durante as refeições da família para discutir os detalhes

A pressão foi tanta que Sarah teve um forte mal estar, Nem precisou de febre ou desmaio para emitir o seu decreto.

– O Pastor Ajax vai morrer.

Ninguém duvidou do que a moça previu, nem mesmo a própria vítima da vidência. E estava certo, dois dias depois o pastor morreu com a língua inchada para fora da boca e roxo como uma batata doce.

Sarah foi embora antes que a perícia fosse feita e descobrissem o inseticida misturado no suco de murici. 

Foi morar muito longe e mudou seu nome para Soraya, Madame Soraya.

4 comentários em “O BANQUETE E OUTRAS HISTÓRIAS – Iolandinha Pinheiro.

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    1. Você, querida Fernanda, sempre nos estimulando, auxiliando e sendo simpática. Você é maravilhosa. Amo.

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  1. Querida Iolanda, demorei mas, estou aqui para comentar essas delícias. Três contos que se relacionam entre si, tanto no que tange o tema, quanto no formato. O primeiro me chamou muito a atenção. Ele é quase uma fábula, veja a pessoa passa a vida se protegendo da morte (da dor, do medo) e termina presa em sua própria armadilha. Parabéns. Tudo muito bom. E… Parabéns pelos anos.
    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada, minha flor de açucena. Que bom vc ter gostado. São contos simples que eu fiz só para exercitar o cérebro, mas acabei curtindo o resultado. Contos pequenos são mais fáceis de ler, mais rápidos, e o leitor não fica tendo que prestar atenção aos detalhes para não se perder. Um abraço para vc, boneca.

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