Jardins – Amanda Kirstensen (Desafio Desejo de Ano Novo)

Falavam do desejo de fazer um jardim atrás da casa.

– Três troncos e poderíamos ornamentar, mãe.

– E esse troncos, hein? Caros… – Respondeu a mãe fazendo bico.

De fato, precisariam as duas de empenho e dinheiro; do primeiro havia, do segundo não. Não seria possível agora, seria algum dia?

Vieram dois minutos de silêncio. Pensavam.

A mãe, de repente, segurou a mão da filha – eram a dupla de mulheres que restava de toda uma descendência – e com a curiosidade de uma criança perguntou:

– Filha, que será que é ser bem de vida?

A moça riu.

– Ter um jardim, ou morar em Jardins?

E riram, agora juntas. A filha continuou:

– Não acho que é ganhar muito dinheiro não, mãe. Ser bem de vida é ter saúde, ter essa conversa.

A mãe concordava alegre com a cabeça.

– Mãe, se me dissessem que eu poderia morar em uma mansão com um jardim enorme, mas, para isso, me fosse necessário esquecer as memórias: as primeiras brincadeiras com a vó, o dia em que você me viu tocar piano na primeira audição e a cara de susto do pai quando eu coloquei meu primeiro vestido de formatura; eu não ia querer, não; o jardim perde o valor, embora permaneça caro.

A mãe riu, acariciando os braços da filha:

– Verdade, filha.

Decidiram em silêncio que os vasos já estavam muito bons.

– Mãe, amanhã, depois do trabalho, a gente compra adubo e um vaso maior para colocar aquele Copo-de- leite. É quase Natal, as lojas estão todas abertas.

– Sim, sim!

– E ano que vem, quem sabe, a gente consegue os troncos para fazer um caminho com trepadeiras escarlate; eu tenho certeza de que as coisas vão melhorar.

A mãe estava satisfeita; sabia que, no caminho da filha, embora incertos os jardins, floresceriam sempre bons frutos em tons de esperança…

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11 comentários em “Jardins – Amanda Kirstensen (Desafio Desejo de Ano Novo)

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  1. Seu texto chega a emocionar. A relação entre mãe e filha foi muito bem colocada em tão pouco espaço. A mensagem que o conto carrega é muito bonita. No diálogo, quando a filha rememora coisas importantes da vida, é belíssimo. O final é ótimo, “no caminho da filha, embora incertos os jardins, floresceriam sempre bons frutos”, que beleza.
    Agora vamos às sugestões, que podem ser acatadas ou não, lógico. São somente minha opinião, com o intuito de ajudar. Parabéns pelo texto.
    “Respondeu” – respondeu
    “a mãe fazendo bico” – a mãe, fazendo bico
    “do segundo não” – do segundo, não
    “eram a dupla de mulheres que restava de toda uma descendência” – não sei se esta informação cabe aqui, para mim ficou fora do contexto, sem justificativa.
    “em Jardins” – aqui, se você se refere ao bairro paulistano Jardins, seria menos nos Jardins. Se for o nome de uma cidade, está correta a sua opção por em. Mas não sei se quem não conhece o bairro ou a cidade entenderia esta brincadeira. Entender, entende pelo contexto, mas algo se perde. Achei uma opção arriscada.
    “Não acho que é ganhar muito dinheiro não” – Não acho que é ganhar muito dinheiro, não
    Ainda sobre esta frase, em nenhum momento a mãe disse explicitamente algo sobre ganhar muito dinheiro. Está subentendido, mas ela dizer desta forma, parece que a mãe citou exatamente o ganhar dinheiro. Talvez tirar esta frase e começar com “Ser bem de vida…
    “Copo-de- leite” – copo-de-leite
    “eu tenho certeza de que as coisas vão melhorar” – essa frase quebra um pouco todo o sentido anterior, o de que ser feliz, estar bem, não teria relação com dinheiro.

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  2. Seu texto é de uma doçura imensa. A relação mãe e filha foi colocada de uma maneira muito singela e amorosa, combinou perfeitamente com o clima de quase Natal que o enredo traz.
    O próprio desejo de construir um jardim já explicita a natureza carinhosa das duas mulheres.

    Não tenho muito o que acrescentar, acho que a Fernanda já disse tudo que eu diria, principalmente as relacionadas a pontuação (vírgulas).
    Também retiraria algumas palavras desnecessárias como:
    “mãe” na frase: Três troncos e poderíamos ornamentar, mãe. Pois na frase seguinte fica claro que é a mãe a interlocutora.
    “as duas” na frase: De fato, precisariam as duas. Já está no plural, então fica implícito que são as duas.
    “Mãe” nas frases: Mãe, se me dissessem que eu poderia/ Mãe, amanhã, depois do trabalho…
    Numa conversa normal entre mãe e filha a gente não fica toda hora dizendo “mãe”, “filha”, porque já sabemos que somos mãe e filha.
    o pronome “eu” em “eu tenho certeza de que as coisas vão melhorar”.

    Acho que ficaria mais fluido, essa é minha sugestão.

    Parabéns pelo lindo texto!

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  3. OLÁ, temos aqui um texto leve, gostoso de ler, cheio de amor entre mãe e filha.
    Gostei das metáforas, gostei do ritmo.
    No final, eu apenas deixaria mais branda ou tiraria a parte que dá a entender como um moral de história ou uma conclusão da história. Eu prefiro deixar as conclusões para o leitor, mas estou certa que se trata de um gosto pessoal meu e, sem dúvidas, um final desses soa bastante festivo e natalino, o que é bem legal.
    Beijos

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  4. Creio que o maior bem que temos são esses momentos ao lado de quem amamos e ao lado de quem nos ama. Muitas vezes, construímos a felicidade onde ela não está. Não percebemos que ela está sempre ao nosso redor, em pequenos gestos, em pequenas conversas, em sorrisos e olhares de ternura. Esse conto é para aquecer o coração.
    Com relação às mudanças, creio que a Fernanda e a Francine pontuaram muito bem sobre a construção.
    No mais, parabéns pelo belo texto!
    Abraço!

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  5. Ligo duas vezes por dia para a minha mãe, às vezes mais. Minha mãe tem quatro filhos, mas ela está sempre querendo atenção que cada um dá, ao seu modo.
    Recentemente precisei passar quase uma semana com ela; Aproveitei para ajudar nas tarefas domésticas. Varri, lavei louça, cozinhei, aguei o jardim, e entre uma coisa e outra, tivemos muitas conversas, muitas sobre lembranças do passado, outras tantas sobre planos para o futuro. Seu conto me soou muito familiar porque eu tenho uma mãe como a sua personagem. Uma doçura de conto, que nos fala ao coração, pois todas temos família. Não vi problemas gramaticais e se pudesse apontar algo a ser melhorado, diria que achei que algumas frases ficaram pouco naturais. Boa sorte no desafio e sigamos juntas.

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  6. Querida Contista,

    Feliz 2023!

    Além de doce e delicado, seu conto tem a clara intenção de passar uma mensagem ao leitor. Uma mensagem de amor e uma reflexão sobre aquilo que é realmente importante na vida, algo que combina perfeitamente com a intenção do desafio, e, claro, da estrutura de um conto que se propõe como um “desejo de fim de ano”.

    Gosto muito da carga imagética do “jardim”. Flores, plantas, sementes que germinam, folhas que caem, guardam em si a simbologia da vida, da passagem de tempo, da paciência e da construção necessárias para se erguer uma casa de amor.

    Outro ponto a se notar é que a narrativa se constrói entre mãe e filha. Há aqui, um tipo de cumplicidade que combina perfeitamente com a imagem do jardim.

    Aqui porém, ficou-me uma dúvida: “eram a dupla de mulheres que restava de toda uma descendência”. Acho que entendo o que quis dizer, porém, não sei se alcançou o leitor em sua totalidade. Neste desafio, estou comentando com foco na máxima de Clarice Lispector de que escrever é lutar com as palavras. Então, acho que aqui seria uma boa oportunidade para esta busca.

    Obrigada por participar.

    Seu conto traz doçura ao desafio, e isto é lindo.

    Beijos
    Paula Giannini

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  7. Que conto tão doce e singelo. Eu amei. O único ponto de atenção que indicaria é o fato de a citação de as duas mulheres serem as “últimas que restavam de uma descendência” ficou meio fora do tom e descontinuado no texto, porque não desenvolvido. No mais, um conto gostoso de ler que entrega uma mensagem de amor e esperança, como convém a um texto que celebra um novo recomeço. Feliz Ano, querida contista. Beijos

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  8. Um conto singelo que traz uma bela relação entre mãe e filha. A narração é simples e até mesmo carrega um tom de texto infanto-juvenil, mas nem por isso sua mensagem desaponta. Uma bela conclusão que nos faz refletir sobre o real valor das coisas e dos sentimentos.
    […] floresceriam sempre bons frutos em tons de esperança – frutos florescem?
    Parabéns pela participação florida.

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  9. Querida contista,

    Concordo com algumas sugestões das colegas, especialmente quanto a deixar mais claro ao leitor certas informações, embora os vazios – o texto um pouco aberto – também possa florir efeitos e interpretações interessantes.

    Abraços,

    Amanda

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  10. Olá. Gostei bastante do clima de nostalgia e amor entre mãe e filha. Não sei se foi a intenção, mas me passou a impressão de que seria o primeiro natal delas sem a avó, e o jardim é uma forma de lembrá-las da mãe/ avó. As coisas vão melhorar, não no sentido de dinheiro, mas no sentido de lembrar da avó com mais saudosismo e menos dor. Um texto leve e bonito. Abraços e um feliz 2023. ❤

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  11. Querida Contista,
    Você trouxe um quentinho ao meu coração em tão poucas linhas que a minha vontade é te abraçar e agradecer por ler palavras que foram fundo na minha alma.
    Sim, ser bem devida é ser saudável, ter com quem contar, histórias para contar, lembranças….tô aqui emocionada, outra vez.
    Leio e repito opensamento da protagonista, pensando também nosmeus filhos:
    “A mãe estava satisfeita; sabia que, no caminho da filha, embora incertos os jardins, floresceriam sempre bons frutos em tons de esperança…”
    Muito bonito. Grande abraço! ❤

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