Uma Amizade Incomum (Marília)

A cena que agora você lê começou quando Vovó estava no trem, a caminho da farmácia. No vai e vem de pessoas, sentaram-se ao seu lado uma menina de uns 5 anos e seu irmão mais velho. Estavam acompanhadas por mãe e uma bexiga que a pequena fazia questão de chamar de Amiga.

Simpática, a Menina se apresentou para Vovó, que sorriu e escutou os relatos de amizade entre uma humana e seu pedaço de plástico oxigenado por vida. Eis que, segurando a bexiga entre os dedos com toda calma e precisão, a doçura em forma de menina resolve deixar a amiga voadora se aventurar além dos limites contidos no vagão, colocando tão querida companheira vidro afora, como se assim pudesse gostar mais.

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Levar, Voltar (Marília)

De tão contraditório, fazia sorrir e chorar. Tudo no mesmo objeto, naquela pessoa carregada para perto do céu, de volta à terra. Eu só observava, admirava. Você chegava naquela sala que parecia vazia, meio escura, comportava pessoas alheias ao acontecer ali na tela daquele celular.

Isso bastava. A gente se preenchia enquanto sorrisos ecoavam, olhares compartilhavam desejos sem a boca verbalizar. Tudo com hora de acabar. Porque o turno do trabalho chegava ao fim, então a rota de volta era caminhada.

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Um Dia (Marília)

Eu só escuto, emociono. É tão bonito ver juventude e velhice lado-a-lado. Ela delicada, de laço no cabelo, ele de boné, quase careca. Para ambos, não importa aparência, importante é viver a experiência do momento. Aqui atrás, fico quieta para ouvir melhor minha saudade latejar. Hoje em dia meu avô não pode me levar para escola, pois não sou estudante, ele não habita terra dos vivos.        

Se pudesse dar um único recado para menina que nem ao menos sei o nome, eu diria sobre aproveitar, desfrutar da companhia que um dia o Tempo vai levar. Só vai restar lembrança, Menina. Abraça enquanto é possível. Entre esse pensamento nostálgico, escuto o senhor falar, orgulhoso: “Para chegar na escola, você pega tal ônibus, desce em tal lugar, olha para atravessar, mas se quiser, só ligar que o vovô te leva e vai buscar”.

Escapou até uma lágrima aqui! Agora os dois desceram, chegaram ao destino juntos. Eu, sozinha, bolei plano para um dia, quando já estiver mais velha, como vou querer ir embora dessa terra. Das últimas forças que restarem, vou falar assim baixinho na certeza que ele vai me escutar: Vovô, vem me buscar?

Marília

Menina-Poly (Marília)

Quis enfeitar domingo chuvoso com boas escolhas, Realmente eram. Dia frio, coberta, leitura, música. Ajeitei a poltrona, liguei Poly e ouvi no rádio sobre amor que dura janeiros até o mundo acabar.

Logo em seguida, o disco foi escolhido, as coordenadas posicionadas na rotação musical, parecia tudo bem. Porém, ao longo dos segundos estendidos minutos mais parecendo horas, ela desabou. Nós. Juntas. Poly desordenou seu ritmo exato, instabilizando movimento de braço com giro suave por velocidade sem poder controlar.

Eu, tentando ajudar, fui comandante do navio prestes a naufragar, reorganizando botões, sem sucesso. Um deles até deslocou-se do corpo dela para minhas mãos, quase dizendo: Estou cansada. Pensei: Ela não pode parar! Tentei assimilar giro, engrenar retorno, nada além da vontade por gritar: Ajuda! Vamos perder a paciente, equipe! Sozinha, fui médica sem conseguir socorrer. Liguei e desliguei, pedi, implorei: Volta! Ela pareceu entender, pois acendeu uma última vez, depois acalmou, apagou quase falando: Desculpe, não consigo mais.

Como fica quem fica? Com lágrimas, desconectando fios impedindo condução elétrica, empurrando de volta ao lugar agora triste, acarinhando o objeto querido, minha-menina-toca-discos-emoções-e-corações. Você apareceu do nada, vinda de outro lugar ser meu lar artístico. Te vi perto, do lado, acesa resplandecendo tom a tom minhas músicas favoritas, além das inúmeras sortes ao ouvir no rádio tantas palavras melodiosas.

Contigo, toquei de tudo, variando humor e amor por artista no momento, todos do passado. Você foi minha companhia de relaxamento, descontração para arrumar o quarto, empolgação com cada disco novo, encantou quem te assistiu rodopiar linha por linha músicas escolhidas. Com você, a frase: Eu tenho uma vitrola deixou esta sujeita aqui ser dona tua, cuidadora duma jovem senhora com idade não revelada. Foram lançadas muitas Polyvox. Poly, só houve você.

Em nome de tudo isso, papai vai tentar resgatá-la, por favor, seja Fênix. Se não conseguir, pode ir. Caso tenha cansado, fique tranquila. Sua aposentadoria por anos de trabalho chegou, ainda que eu jamais quisesse viver este dia. Adeus? Não. Prefiro dizer pela certeza de reencontrar: Até a próxima lembrança!

Marília


P.S.: Poly, obrigada pela música de despedida! A escolha foi excelente! (De Janeiro a Janeiro, de Nando e Ana)

 

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