Viagem Arriscada (Grimm) Desafio As Contistas

Naquela época as crianças ainda brincavam na rua. Era costume juntar a molecada para jogar bola sem medo ou preocupação. Mas isso não significava que não havia perigo. Foi em um dia nublado e sem graça que Renata teve a ideia de chamar seu irmão Gabriel para ir de bicicleta à casa de seus avós. Eles moravam em uma pequena cidade interiorana e os avós das crianças viviam em uma fazenda à cerca de quatro quilômetros de distância, já eram acostumados a percorrer este caminho.

— Por favor, mamãe. Estou com saudade da vovó. — Choramingou Gabriel.

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Culturar (Juliana Calafange)

Cultura popular, oriental e haikai

Samba do brasileiro ensandecido e seu forró arretado de doido

Cultuando o culturar

Pela via do dia-a-dia

Que é a rotina ardente não descontente

Dos descamisados desnecessariamente úteis

Dos yogues urbanos ufanos

Dos mestres de rua do mundo da lua

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pASSADO é pASSADO (1971)

 

 

Procurei num dia remoto as paragens da infância. Lá estavam, porém sem vida. Pensei bobamente, como adulta: o tempo é a alma do espaço.

Lembrei da moça do poster a olhar para mim o dia todo, intemporal, sem idade, indesgastável. Tão linda… e eu? Ela ocupava o centro do poster, seria o ponto de ouro? Os seus pés cavavam a areia. Sim, creio que areia. Debaixo dos pés o nome altissonoro, conciso: Marina Montini, que poderia não ser o nome verdadeiro. Mais embaixo: atriz de cinema e televisão. Subindo por ela acima, as pernas eram ponto de destaque, quase bronze, lisas, harmoniosas. A pouca roupa, preta, seios não-agressivos. Olhos mordentes e cabeleira selvagem, de remanescentes tribos africanas. O corpo todo recoberto por miçangas e seixos. Tudo no lugar certo, compondo cada região. Inveja.

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deus da mitologia – Sabrina Dalbelo {inapropriado para menores}

Segunda-feira almocei na praça de alimentação do shopping. Não estava com muito apetite, comi pouco. Cheguei cedo para pegar lugar, escolhi um buffet. Tomei um copo d’água, como o usual e deixei o restaurante.

Do lado oposto ao dali, avistei um cartaz colorido, que me chamou a atenção. O filme estampado era “Thor Ragnarok”. A semana estava difícil, resolvi apostar numa distração, mal sabia eu que aquela sessão de cinema seria a mais inusitada da minha vida.

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Gritos silenciosos – Psicopata

Que noite doida! Que mulher doida! Saí de casa ontem sem expectativa nenhuma de me dar bem e acabo pegando a gata mais intensa que vi ou ouvi falar. Foi tudo tão rápido… boate, álcool, dança… parece que ela me escolheu… e que beijo foi aquele? Caí de quatro por ela na hora. “Sua casa ou na minha?” eu perguntei. “Na minha!” ela respondeu sem hesitar. O sexo foi selvagem, não vi nem em pornô o que ela fez comigo e me deixou fazer com ela. Adormeci logo em seguida. Agora faço hora para abrir os olhos. E se foi tudo ilusão? Delírio dos bagulhos… pensando bem é até provável, nunca um zé mané como eu ia ter vivido isso na real. 

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Amigos inseparáveis (vizinho) – Desafio

Quando foi morar na casa da Dedé, Pipo ainda era bem pequeno, um cachorrinho com apenas algumas semanas de vida. No início, ele não sabia onde fazer o xixi e o cocô e levava bronca sempre que sujava a sala. Era muito difícil entender o que seus donos queriam que ele fizesse. E o que eles não queriam também.
Dedé comprou vários brinquedos para o filhotinho: bolinhas, ossinhos que faziam barulho e bonecos de pelúcia. Pipo adorava morder os brinquedos. Mas a sua diversão maior era morder as roupas, os móveis e as mãos da Dedé. A menina não entendia porque ele fazia aquilo.

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Resistência (Renata Rothstein) – desafio

Perdida, outra vez, nesse meio tempo meio descaminho, outra vida, quase morte. Ressurrecta. E era teu, o único e necessário carinho. Permitido, até .
E um quase eu, torto, sorri, pisoteando imaginárias nuvens violáceas, um resto triste de sonhos, tão nítido quanto fugaz. É doloroso esperar., ante a desesperança.
Ultrapassado, o ultrajante futuro cospe meu nome num descompasso ateu, nas lágrimas transparentes de sangue e o breu, ausente e errante, tão fácil pacto, só a mesma insistente e resistente vida. Meu porto evaporando como fumaça, é fim e cínico, já não importa o que eu faça.
Tão pouco, e é tudo o que já não importa.

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A versão da vovó

Refaço teus passos
Te recrio no que faço
Meu fim, teu começo

“Tua mãe virou um passarinho. Quando você criar asas, ela vai vir te buscar.”

Foi o que a avó lhe disse quando pela primeira vez ela perguntou pela mãe. Levada pelo pai, já estava há três dias na casa da avó. Um mês depois, ele levou também todas as suas roupinhas em sacolas de plástico num horário em que ela já não estava acordada.

“Ninguém vira passarinho. Cresce, garota. Deixa de ser idiota.”

Tinha talvez seis anos. Embora a prima de nove tivesse mandado o irmão calar a boca, que deixasse a prima pequena em paz, nunca mais repetiu que um dia teria asas e cantaria como um sabiá.

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SAUDADE, PALAVRA SEM FIM – Claudia Roberta Angst

Sentia a falta dele, como quem consome mais palavras do que cabem na boca, aos bocados, sem trégua. Rompia-se em saudades, em implosões contidas, subterrâneas sensações que a levavam a um ócio doentio, ao meio de todas as dúvidas que amanheciam junto a ela. Por que não falara toda a verdade quando o céu ainda estremecia em temeridade ao julgo daqueles que realmente importavam? Por que faltara com a sinceridade pontual, característica dos amantes imortais, para só então revelar o que lhe vinha definhando as fibras do bom senso, uma a uma, como cordas desgastadas de um instrumento afinado e raro? Decerto, cumpriria as inúmeras promessas, assim que fosse possível, se algum dia, fosse mesmo possível, expressar em ações tudo o que havia sido acordado entre eles, já tontos pela embriaguez passional, às portas de um romance que, logo de início, já se mostrava compassivo e dúbio.

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Em voo – Paula Giannini

Enquanto em queda
Livre
Não ela
Mas o buraco que se lhe abre em boca
 
A dor é tamanha
É tanta
Que não ousa gritar que é quase
O instante que já
 
No baque de dentes prontos
Momento derradeiro
O fundo do asfalto
O poço seco por que tanto anseia

Meu desafio: Escrever poesia.

Photo by Marcelo Moreira from Pexels

Então é Natal! (Amanda Gomez)

1 2 3 4 …

Fechei os olhos, encostei a cabeça no volante e contei mentalmente até dez. Geralmente isso nunca funcionava comigo, mas o que eu poderia fazer? Respirei fundo e chequei as horas no celular, a pontada de tristeza era imediata sempre que olhava pra ele. Um Samsung com o nome de alguma letra do alfabeto parcelado em dez vezes. A tela quebrou na primeira semana.

Estava atrasada, muito atrasada… do tipo que provavelmente meu emprego estaria ameaçado. Talvez isso fosse bom, pensei melhor, aquele trabalho estava me matando lentamente, me fazendo ter pensamentos homicidas com relação às minhas colegas de trabalho. Criaturas odiosas com delineado de gatinho, sapatilhas e tiaras turbantes. É, talvez eu só devesse relaxar no meio daquele congestionamento e agradecer por não ter que passar horas em pé, atendendo uma penca de pessoas que vão desesperadas gastar a miséria dos seus décimos terceiros em coisas fúteis.

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Feliz Natal – Vanessa Honorato

O primeiro natal sem Artur. Não sabia porque ainda insistia em fazer essa ceia. Não tinha vontade de nada, tampouco convidados. A mesa estava posta como sempre esteve:  abastecida com comida, bebida, enfeites coloridos de vermelho e verde, velas, guirlandas. Para quê? Qual motivo de tanto empenho se ninguém desfrutaria com ela? A taça de vinho era sua companhia agora. Gelado, encorpado, cheiroso, do jeito que ela passou a tomar todos os dias depois do trabalho. Artur fazia falta diariamente, mas em datas especiais era pior. Podia ouvir o som da sua voz desejando-lhe feliz natal, ansioso para saber o que ela havia lhe preparado de presente, já que não compravam nada, todos os natais faziam presentes diferentes preparados com suas próprias mãos.

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PAIS NOVOS (Sabrina Dalbelo)

“Odeio vocês”, gritava Lucas. “Odeio vocês”, resmungava Letícia.

Os irmãos não tinham ouvidos. Reclamavam da ordem para escovar os dentes, para arrumar a cama, para organizar as próprias coisas, de tudo.

Os pais, Renato e Marlene, não sabiam mais o que fazer. Focavam em manter um nível mínimo de paciência para dedicar orientações sobre educação e boa convivência, as quais, aparentemente, não levavam a nenhum resultado exitoso, pois os irmãos eram teimosos e birrentos.

Lucas, de sete anos, era esperto e bastante traquinas. Letícia tinha apenas cinco, mas não titubeava em retrucar os pais.

Perto do Natal, os irmãos combinaram de escrever uma carta de intenções única ao Papai Noel. O pedido era muito simples: pais novos.

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Cova de Lama (Iolanda Pinheiro)

Já moça, lembrava do tempo em que o mundo era cinza e a vida flutuava no terreno lodoso de segredos e mentiras. Quando a velha e eu nos enfurnávamos pelas manhãs atrás das covas onde os caranguejos sonhavam. Do braço de minha vó enfiado até o ombro no berço de terra mole, os dedos procurando as carapaças com a destreza das infinitas repetições. Não custava muito, e ela puxava o guaiamum arroxeado de dentro do ninho. Outros tantos se seguiam, até que enchêssemos os grandes embornais.

O que não era vendido virava almoço, jantar, café, merenda. A necessidade não escolhia sabores.

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Um presente para reconectar – Anorkinda Neide

Era noite de Natal. Depois de uma modesta e aconchegante ceia com seus pais, Letícia dormia em sua casa, saciada de carinho e bons desejos.

No meio da madrugada a moça acordou com a sensação de ver uma luz piscando. Era verde. Mas ela pensou ter sonhado.

– Não posso ter visto luz alguma se estava com os olhos fechados.

Mas, Letícia abriu os olhos e viu uma luz verde piscando. Não contou quantas vezes ela acendeu e apagou. Foi breve e parou.

– Acho que imaginei. Foi isso.

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Cravos Vermelhos (Renata Rothstein)

Desço do táxi, estendo duas notas amarrotadas ao motorista, balançando a cabeça em agradecimento.
O taxista diz que as notas não valem mais, olha para mim com dó, me devolve o dinheiro, e segue seu caminho.
Respiro fundo o ar frio do fim de tarde, o que me custa uma dor violenta aos pulmões doentes. Continuo tossindo até perder o fôlego.  O enfisema vinha mesmo avançando a passos largos.
Suspiro. Olho em volta. Completamente só, outra vez. Sempre e nunca, mas ainda assim, só.
A praça. A praça hoje é tão somente uma testemunha inofensiva dos tempos suaves, de  tempos que viriam, num então outro tempo, naquele espaço, que agora parecia tão maior, lembranças encardidas.

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A imponderabilidade de tudo – Ana Maria Monteiro

Sobre o corpo da menina deitada, jazem agora todos os sonhos que nem chegou a sonhar e os futuros que não irão acontecer, cada dia, cada momento, cada natal.

São tantos! Quem dira? Quem diria, ao chorá-la no agora, a que distância lhe estaria no futuro – ou talvez não.

Morreu na véspera de natal, de forma estúpida, como a morte de qualquer criança, inesperada, inevitável e ainda estragou a festa a toda a gente, e muitos pensaram nisso por momentos, quase envergonhados com essa racionalidade que permitiram que se insinuasse em meio à tragédia e à dor que sentiam, tão reais. Mas é a vida em cada um a impor-se, a chamar ao “aqui e agora”.

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CONTO DE OUTRO NATAL – C.R.Angst

Mais um Natal. O mesmo Natal?

Procuro em vão por novidades a minha volta.  A árvore parece cada vez mais mirrada, exilada no canto da sala. As luzes, com seu pisca-pisca irritante, que na infância pareciam estrelas cadentes, agora se revelam meros vagalumes decadentes.

No chão, o vazio de promessas. Limpo, quase reluzente.

Reajo ao calendário como criança à espera do Papai Noel. Ansiosa demais para contar os dias, apontando ausências que não me cabem mais. Adormeço sonhos com cantigas e promessas.  Penso em escrever cartas, talvez bilhetes. Bobagem!  Sei que nunca serão lidos.

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Um presente especial – Priscila Pereira

− Mamãe, a gente pode comprar um shortinho novo pra Letícia? −Minha filha disse enquanto tomava leite e comia bolachas de chocolate no café da tarde.

− Pra Letícia? Ué, por quê? − Respondi admirada.

− Porque lá na escola ela pediu na cartinha para o Papai Noel um shortinho novo, é que o dela está rasgado e a mãe dela não tem dinheiro pra comprar outro… e como o Papai Noel não existe de verdade, né mãe, então a gente podia comprar pra ela, heim?

Desde que Isabela era pequena, ensinei sobre empatia e sobre  não ignorar a necessidade das outras pessoas e esse pedido dela me tocou o coração. 

− Claro que podemos, filhinha! Amanhã mesmo vamos sair pra comprar e vou mandar fazer um embrulho bem bonito para você entregar pra ela na segunda, tá bom? Continue lendo “Um presente especial – Priscila Pereira”

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