– Liana e o Peixe – Iolandinha Pinheiro

– LIANA E O PEIXE –

Capítulo 1 – Casamento

 Manhã sem chuva, igreja enfeitada, todos olhando para a porta enquanto o sacerdote sentenciava:

– Se alguém sabe de algo que possa impedir este casamento, diga agora ou se cale para sempre!

Liana olhou para trás e depois para o peixe vestido de fraque, sorrindo ao lado dela. O noivo pingava no tapete vermelho, enquanto uma aliança agigantada circulava a ponta mais fina da barbatana lateral. O pior mesmo era aquele cheiro enfezado de maresia com alga no sol que exalava das escamas brilhantes.

Ninguém apareceu para reclamar. Sorriu de volta para o futuro marido, com carinho. As guelras saindo pela gola do fraque, vibravam de emoção. Ou talvez ele estivesse asfixiando.

Do púlpito, uma alpaca oficiava o ritual. Padre Manoel fazia o sermão com a boquinha miúda e cuspideira. Era até fofo com aquele pelo lanoso, como um carneirinho que crescera demais.

Para uma pessoa comum, todo aquele cenário de casamento seria uma coisa surreal, para Liana, no entanto, era a sua rotina desde os oito anos.

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Mechanismo – Iolandinha Pinheiro

 

O INÍCIO

Em 1940, um dia antes do embarque dos jovens selecionados para as batalhas da segunda guerra mundial, o melhor amigo de Benjamin Schuartzmann organizou uma noitada de despedida com muita bebida e dança. Durante a festa, o jovem aspirante foi esnobado pela loira Elizabeth Rivers, o que o fez beber além da conta e perder o trem para o quartel. Por sorte do rapaz, havia outro comboio com o mesmo destino, partindo uma hora depois e Benjamin conseguiu lugar no último vagão, onde também viajava um curioso senhor usando uma exótica roupa colorida, que se distraía mexendo em um relógio dourado.

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– A Gangue do Clube de Tricô – Iolandinha Pinheiro.

SEMPRE que lhe perguntavam o motivo de ter enveredado para uma vida de crimes, Dona Epifânia justificava

-Culpa do Epaminondas, quem mandou ele morrer?

Seu Epaminondas havia “batido as botas” uns seis meses antes, depois de cair sobre o balcão de bebidas da sua bodeguinha.

Além de morrer, Epaminondas ainda acabou dando um grande prejuízo: quebrou todo o estoque das garrafas de uma vez só. Do evento sobraram as dívidas com o fornecedor e um monte de cacos de vidro no chão.

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– Flutuação – Iolanda Pinheiro

Não lembrava para onde estava indo, ou mesmo de quem era, apenas de como a chuva caia aos baldes sobre o para-brisa, e da pista escorregadia pela estrada sinuosa. Não sabia porque dirigia tão rápido naquela tempestade, mas recordava nitidamente do momento em que perdeu a direção e o carro se projetou sobre o despenhadeiro numa flutuação em câmera lenta, da luz dos faróis iluminando o céu de piche, do baque de mil e oitocentos quilos sobre o oceano, e depois, nada.
 
Acordou sufocando com a água que entrava por todos os lados. Batia no vidro com a trava metálica ao mesmo tempo que se atrapalhava tentando liberar a fivela do cinto de segurança.

Passou com dificuldade pela janela, nadou, já quase sem ar, em direção à superfície, e então sentiu um tentáculo enrolando-se pela perna esquerda e a puxando para baixo. Os pulmões lutavam por ar, e a consciência ia falhando. Agora o corpo todo estava tolhido, e algo pesado comprimia seu peito. Estava morrendo.

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O Preço

Ela estava chegando… Ele havia tido aquele sonho outra vez:  A moça vinha subindo pela areia da sepultura. Separando a terra negra e úmida até chegar à superfície. Andando, pálida e suja, mas resoluta em direção a ele… Emmanoel Olhou para o relógio com aflição. Ia por dentro da velha casa em passos ligeiros, verificando cada tranca, uma, duas, três vezes…. Encheu as frestas das janelas emparedadas com retalhos encharcados no barro mole. Por fim, e não restando mais nada a fazer, trancou-se na pequena despensa da cozinha e esperou.

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Varal de Lembranças (Soneto e Conto) – Iolandinha Pinheiro

 

Ao longo desta tarde, uma vida passa
E leva junto lembranças de um dia
um dia de vento, vento que embaraça
os loiros cabelos da noiva que sorria

Ao longo desta tarde, a anciã recorda
se lembra e se perde entre passado e fantasia
sobre o colo, no tecido  que ela borda
as imagens daquilo o que viveu um dia

Lá fora o vento forte, balança o varal
E os lençóis flutuam sob o céu laranja
Como vestido de uma moça em esponsal

Nunca mais haverá noiva sorrindo
Nunca mais um vestido, o véu, e a franja
tudo findou, e a noite eterna vem surgindo.

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Para Inspirar – Os Porcos (Júlia Lopes de Almeida)

Quando a cabocla Umbelina apareceu grávida, o pai moeu-a de surras, afirmando que daria o neto aos porcos para que o comessem. O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem. Ela mesma, lembrava-se. Encontrara uma vez um braço de criança entre as flores douradas do aboboral. Aquilo, com certeza, tinha sido obra do pai.

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A Casa dos Mil Lamentos- Iolandinha Pinheiro

A primeira criança a sumir se chamava Pedro. Aconteceu numa tarde de agosto enquanto a sua mãe estendia os lençóis secos no varal para tirar o mofo. O vento estava forte e os tecidos leves voavam e cobriam seu rosto ao serem retirados do cesto. Um minuto de distração e  a mulher parou de ouvir as risadas do garotinho que corria pelo terreiro. Pensou, a princípio, que o menino tivesse entrado na casa. Chamou, gritou, procurou pelas veredas, bateu nas portas dos vizinhos. Nada.

O lugar era pequeno, todos se conheciam.  Alguns amigos formaram equipes de busca pela mata e outros procuraram pelas estradas vicinais. A última pista que tiveram da criança foi o caminhãozinho colorido que estava com o menino no instante do desaparecimento. O brinquedo foi encontrado próximo à margem do rio. Dois homens mergulharam na esperança de encontrar o corpo, mas nem sinal do Pedrinho.

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História de Fantasma – Iolandinha Pinheiro.

 

SANTA BÁRBARA
*****
Das coisas que me lembro, do tempo em que trabalhei em Santa Bárbara, nada me abalou mais do que a terrível história de Esther, e das implicações decorrentes por tomar conhecimento destes fatos.

Na época eu era médica no hospital psiquiátrico da cidade, construído em um penhasco que se inclinava sobre o mar. Era uma construção antiga com paredes de tijolo duplo, que, como soube posteriormente, antes de ser transformado em hospital, havia sido um mosteiro jesuíta.

A vista que tínhamos da enfermaria feminina era um espetáculo, e, por isso mesmo, sempre abríamos os folhos das suas largas janelas para que as nossas pacientes, e nós mesmas pudéssemos aproveitar a paisagem azul que se estendia à nossa frente.

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– Presságio – Iolandinha Pinheiro

Moro numa pequena cidade sem parentes ou amigos. Escolhi viver desta forma. Ergui uma casa distante da vila, uma espécie de retiro voluntário na floresta tendo como vizinhos apenas os animais e as plantas. Nem por isso tive algum dia de tranquilidade na vida, e nem poderia, pois não o mereço.

O nobre leitor acredita em fantasmas? Se a mim fosse feita esta pergunta talvez respondesse que não, mas apenas para não parecer louco diante de meu interlocutor. Estaria mentindo. Eu acredito em fantasmas. A minha convicção se formou a partir de quando ainda era bem jovem, quando aos vinte e um anos candidatei-me ao cargo de faroleiro que havia ficado vago após a morte do meu antecessor.
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Las Contreras – Iolandinha Pinheiro

A família da viúva Anahy Contreras chegou no início da estação das chuvas, um mês depois de recebermos a carta do antigo morador da “Las Piedras” pedindo ao meu pai para aguardar as mulheres e mostrar tudo da propriedade vendida.

Como eu e Pedrito não sabíamos coisa alguma sobre as novas vizinhas, passamos todos os dias que antecederam a chegada delas ouvindo atrás das portas e conversando sobre detalhes inventados por nós mesmos.

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Era Uma Vez Um Macaco Chinês – Iolandinha Pinheiro

” E durante muitos anos crimes insolúveis, todos igualmente macabros, aterrorizaram a China” – Diário de Pequim – 13 de outubro de 2000.

” As investigações nunca foram concluídas” – Depoimento colhido do Chefe de Polícia Pong Shu – Diário de Pequim – 15 de outubro de 2000.

A pequena estatueta ficava numa daquelas lojas que proliferam em galerias e estreitos bequinhos do centro comercial mais antigo da cidade, iguais a outros milhares de becos, de modo que nunca sabemos se estamos na esquina certa ou se deveríamos ter entrado duas ruas atrás, e, na maior parte das vezes, nunca conseguimos voltar ao lugar certo.

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Regras do Mercado- Iolandinha Pinheiro

Histórias que se cruzam.

A família havia acabado de almoçar e as mulheres foram lavar a louça enquanto contavam piadas na cozinha. De súbito, ouviram gritos e alguém dando pontapés na madeira lá fora. Calaram-se de imediato, naquele lugar de tantas baixas e bombardeios, a morte nem sempre avisava, mas elas souberam, pelo tipo de abordagem, que daquela vez era ela que batia à porta.

O silêncio foi interrompido pelo estalado dos tiros. Rajadas sucessivas cortavam o ar espalhando pedaços de louça, fazendo buracos nas paredes de barro e nos móveis. Um pequeno aquário se espatifou deixando cair o peixinho sobre a mesa. Entre cacos de vidro e pequenas poças de água, o animalzinho se debatia num ritmo cada vez mais fraco.
Depois que a poeira sentou, alguns dos homens procuraram sobreviventes pela casa.

– E então?
– Todos mortos.

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O Livro de Jonas – Iolandinha Pinheiro.

De: Raul Miranda
Para: Levi Ricúpero

Olá, amigo.

Sei que você deve estar estranhando eu te mandar este e-mail, e já vou dizendo que nem precisa responder. Meu único objetivo é explicar o motivo que me levou a romper o noivado com a sua irmã. Diga que as joias são dela, foram dadas com todo o amor que sempre senti e sentirei, e que ela seja feliz com um homem bom que a mereça. Não posso mais casar com a Suzana e você vai entender tudo depois que eu lhe contar o que aconteceu.

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O Gato Merwel (Iolandinha Pinheiro)

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A CASA NA FLORESTA

…Maria foi comprar sabão
e na estrada avistou um cão
em sua cesta pôs o cãozinho
seguiu contente o seu caminho
ela não sabe explicar, de fato
mas o cãozinho
virou um gato…

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Padre Tobias olhou para o crepúsculo pela janela da sacristia. Estava guardando as pequenas galhetas da última celebração no armário e ainda não havia tirado a estola, quando ouviu fortes pancadas em sua porta. Lá fora seu velho amigo Jonas o esperava, apreensivo.

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Ausência – Iolandinha Pinheiro

Era a última noite de pescaria. O crepúsculo havia findado há um par de horas e a brisa marinha, de tão leve, somente ondulava a superfície negra do oceano.
Três homens em uma pequena embarcação partilhavam o mesmo anseio. Calados, aguardavam o destino mirando as cordas que sustentavam a rede, ainda sem peso.
Quando havia luz e o mar transparecia, era possível ver as franjas da rede balançando como mechas de cabelo em flutuação sinuosa – um balé submarino. A noite sem lua deixava o mar como um gigantesco abismo: insondável e assustador.

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Uma Prece Para Maria

O fim da tarde se aproximava sonolento, e os últimos visitantes caminhavam entre as sepulturas, produzindo um som crocante do atrito dos seus sapatos com o piso de dolomitas. Em poucos minutos tudo estaria esvaziado, os funcionários desligariam a energia e fechariam o grande portão de lanças negras, e apenas eu continuaria lá, sentada no banco de madeira e ferro, sob a vigilância dos salgueiros centenários.

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Sobre Mistérios, Um Gato Amarelo, e Borboletas – Iolandinha Pinheiro

A menina mais excêntrica que já andou pela Alameda dos Pinheiros era uma albina de olhos cor de rosa. Assim como veio, foi embora, e muito se falou sobre ela nos anos seguintes.

Alice apareceu na porta da confeitaria como uma pequena assombração vestida de azul. Do cabelo às pernas compridas, calçadas em meias grossas e sapatos pesados, ela era toda branca, exceto pelos olhos de coelho e pela boca carmesim.

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